Jane Austen conquista também o Brasil

EWeekly

Jane Austen representada pela Revista Entertainment Weekly, em 1995, pelo sucesso das adaptações de cinema e TV de suas obras.

Em 18 de julho de 2017, a morte da escritora inglesa Jane Austen completou 200 anos. Em todos os países anglófonos, nos quais Austen tem garantido um lugar no cânone literário ao lado de Shakespeare, muitos eventos foram realizados para comemorar uma data tão significativa, sendo que o lançamento da nova nota de dez libras pelo Banco da Inglaterra em homenagem à autora teve grande repercussão internacional (ironicamente, porém, o retrato utilizado é uma adaptação “melhorada” do rosto de Austen, feita em 1870 por um artista que nunca a conheceu). Toda essa movimentação em torno de uma escritora tão relevante para a história da literatura inglesa não é de se estranhar, mas surpreendente mesmo foi a repercussão desse aniversário, a divulgação de notícias sobre e os eventos realizados aqui no Brasil para celebrá-lo, indicando que a popularidade de Austen já está solidificada também aqui nos trópicos. Por exemplo, a editora Nova Fronteira – uma das muitas que disponibilizam os romances da autora em seu catálogo – lançou uma nova caixa comemorativa dos 200 anos da morte de Austen e promoveu palestras de seu tradutor Ivo Barroso e da presidente da “Jane Austen Sociedade do Brasil” Adriana Sales.

 

Nota

Nova nota de 10 libras da Inglaterra

 

Aquarela

Aquarela original de Jane Austen feita por sua irmã Cassandra (circa 1810). É o único retrato da autora reconhecido oficialmente. National Portrait Gallery, Londres.

 

O mais interessante, porém, é o espaço que Austen vem ganhando dentro das universidades brasileiras. Com um significativo número de cursos de Letras com habilitação em língua inglesa – que exigem pesquisas sobre obras nessa língua – e dada a importância da autora para a consolidação do gênero do romance moderno e para a própria história da literatura das mulheres, parece-me inevitável que a transformação da sua obra de objeto de admiração para objeto de pesquisa só aumente. Mas é também muito importante notar que esse aumento da presença de Austen nos estudos de mestrado e doutorado está bastante associado ao crescimento da sua popularidade fora dos muros da academia, com o surgimento da chamada “Austenmania” a partir dos anos da década de 1990. Nessa década, foram produzidas pelo menos sete adaptações dos romances da autora para cinema e TV, algumas mais criticadas, como a de Patricia Rozema para Mansfield Park (1999), mas a maioria de sucesso avassalador, como o seriado da BBC de Orgulho e Preconceito (1995) e o filme Razão e Sensibilidade, do mesmo ano, escrito e estrelado pela famosa atriz Emma Thompson. As adaptações são responsáveis por divulgar a obra da autora aqui no Brasil, já que não há tradição de se estudar seus romances no Ensino Fundamental ou Médio, por exemplo, e por isso são a porta de entrada mais comum – porém não a única – para muitos alunos brasileiros que decidiram pesquisar a autora.

Alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nos últimos anos podem ser citados para ilustrar os temas mais comuns em pesquisas sobre Austen no Brasil (no final do post há as referências completas dos trabalhos já concluídos): Ricelly Jáder, da UFCE, estudou, em seu mestrado, a forma como a personagem Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, foi transformada no filme de 1940 produzido em Hollywood. O argumento de Jáder é que Austen, em sua obra, constrói uma crítica sutil a padrões socioculturais da sua época que colocam a mulher em uma posição inferior em relação ao sexo masculino. A personagem de Elizabeth Bennet, por exemplo, é apresentada como uma mulher inteligente, irônica, decidida e ousada, qualidades que não eram associadas ao comportamento feminino durante o século XIX. Porém, no filme de 1940, ao ser traduzida para as telas, a personagem é reestruturada e a crítica de Austen é apagada para ceder lugar a uma narrativa cômica e romântica.

Em 2016, na UFMT, Ivoneide Soares Jesus estudou outro tipo de adaptação da obra de Austen, o gênero do “mash-up”, a partir do livro Orgulho e Preconceito e Zumbis, o qual funde o texto de Austen com uma temática contemporânea em um processo de reescrita (ou zumbificação) do romance original. Soares leva em consideração, além disso, o papel do mercado na produção dessa obra híbrida, já que a ideia inicial surgiu de uma editora.

Esse também é o tema da tese de doutorado de Adriane Ferreira Veras, defendida em 2015 na UFRGS, a qual reflete ainda sobre a questão da autoria de uma obra, interligando questões sobre adaptações, colagens, apropriações e direitos autorais.

Ainda na UFRGS, a pesquisa em andamento de Bianca Rossato analisa o seriado do Youtube The Lizzie Bennet Diaries, a sua adaptação dos tipos sociais que aparecem em Orgulho e Preconceito, especialmente no que se refere à representação da mulher, e a forma como a narrativa transmídia interfere/contribui nesse processo adaptativo. Esse seriado/vlog fictício também foi analisado por Isabella Sabbatini na USP (2017) a partir de teorias de tradução e adaptação.

A popularidade atual de Austen foi tema do mestrado de Priscila Kinoshita (Uniandrade, 2012), que procura explicar a continuidade do interesse do público em geral na obra da escritora após dois séculos de sua publicação, defendendo uma hipótese de que esses romances apresentam questões socioculturais do período Georgiano da Inglaterra que seriam semelhantes a problemas atuais, possibilitando o estabelecimento de um diálogo entre as duas épocas.

Austen foi tema também da tese de doutorado de Maria Clara Biajoli (Unicamp, 2017), que analisa o fenômeno da “Austenmania” a partir da produção de fan fiction inglesa e norte-americana. Seu argumento é que a leitura mais comum da obra de Austen, demonstrada pelos textos de fanfics bem aceitos pelos fãs atuais, transforma os seus romances em histórias românticas inocentes, em contos de fadas regenciais e apagam toda a crítica social que Austen deixou registrada ali, especialmente em relação ao seu descontentamento com o lugar da mulher naquela sociedade. Aliás, a visão de que Jane Austen era uma observadora astuta de sua época não é contestada em nenhuma dessas pesquisas, indicando que a imagem de uma autora isolada ou apolítica está, finalmente, em desuso. A pesquisa em andamento de Natália Carvalho, na Unifesp, por exemplo, propõe analisar de que forma o enredo de Persuasão dialoga com o contexto sócio-histórico de Austen e de que forma a autora ficcionalizou aspectos de sua realidade.

Todos os exemplos acima, que listam apenas algumas das pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, indicam o reconhecimento da importância da obra de Austen também dentro das universidades brasileiras. Enquanto a imagem de uma escritora inocente ainda parece circular entre o grande público, alimentada, principalmente, pelas adaptações cinematográficas que focam apenas na trama amorosa, é muito positivo observar que as qualidades da sua obra literária estão ganhando cada vez mais espaço dentro da academia em geral e promove a esperança de que, em breve, o rótulo cor-de-rosa da autora de “romances para mulheres” seja descartado para sempre.

Trabalhos citados disponíveis:

  • BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Orgulho e Preconceito no Século XXI: A Austenmania e a Fantasia do Final Feliz. Tese de Doutorado. Unicamp, 2017.
  • JÁDER, Ricelly. A Tradução da Personagem Elizabeth Bennet, de Pride & Prejudice, Para o Cinema. Dissertação de Mestrado. UFCE, 2014.
  • JESUS, Ivoneide Soares dos Santos. Literatura e Necropsia: Um Exame Crítico em Pride and Prejudice and Zombie. Dissertação de Mestrado. UFMT, 2016.
  • KINOSHITA, Priscila Maria Menna Gonçalves. Do Século XVIII ao Século XXI: “Why Jane (Austen), Why Now?”. Dissertação de Mestrado. Uniandrade, 2012.
  • VERAS, Adriane Ferreira. Pride and Proliferation: Jane Austen meets Zombies in a Mash-up. Tese de Doutorado. UFRGS, 2016.

 

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2 comentários sobre “Jane Austen conquista também o Brasil

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