A (re)descoberta de um titã no outback australiano: novos olhares sobre um “velho conhecido”!

Descoberto há cerca de 80 anos, o dinossauro Austrosaurus mckillopi Longman, 1933 era um animal com 15 metros de comprimento que viveu no estado de Queensland, localizado no nordeste da Austrália (Figura 1). Com 100 milhões de anos, essa espécie foi descrita baseada em alguns fragmentos, principalmente vértebras do meio da coluna e algumas costelas (o que é comum para os fósseis de animais de grande porte). Esses ossos ajudaram a identificar o Austrosaurus como um saurópode – um tipo de dinossauro com um pescoço longo que caminhava em quatro pernas. Detalhes de uma nova pesquisa sobre essa espécie foram publicados na revista Alcheringa, e trazem novos dados muito interessantes para a Paleontologia de Vertebrados.

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Figura 1: Mapa da Austrália. A estrela evidencia na região de Queensland o local onde o fóssil foi encontrado.

Tudo começou em 1932 quando Henry Burgoyne Wade descobriu algumas rochas incomuns perto de uma estação de trem em Queensland.  Curioso com sua descoberta, Henry os mostrou a Harley John McKillop, gerente da estação local, que então contatou seu irmão médico da cidade de Brisbane, o Dr. Martin Joseph McKillop. O Dr. Martin viajou mais de 1.700 quilômetros para ajudar a coletar mais fósseis, enviando um esboço dos ossos encontrados juntamente com o mapa para Heber Longman, diretor do Museu Queensland em Brisbane. Longman imediatamente reconheceu o achado como partes de um saurópode e pediu que os fósseis fossem enviados para ele (Figura 2). Porém, após o ano de 1933, pouca atenção foi dada ao Austrosaurus, e o sítio onde os fósseis foram escavados foi considerado perdido. Em 2014, uma equipe de paleontólogos da Austrália e Inglaterra conseguiu recuperar o sítio perdido, além de escavar outros elementos fósseis desse dinossauro! Os novos fósseis, juntamente com os materiais que haviam sido descritos inicialmente para Austrosaurus, foram redescritos, além de terem sua morfologia interna analisada com auxílio da tomografia computadorizada.

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Figura 2: Fósseis do Austrosaurus mckillopi, ainda articulados, e que representam parte da coluna vertebral do dinossauro. Fonte: Poropat et al., 2017.

Uma das características mais marcantes do Austrosaurus é o corpo das vértebras serem internamente compostas por centenas de pequenas câmaras, que possivelmente estavam cheias de ar quando o animal estava vivo – tais quais as aves de hoje, que possuem sacos aéreos (Romer e Parsons, 1977). Os sacos áereos são estruturas de paredes finas, formadas por um epitélio simples e que estão conectados ao pulmão, além de serem conectados a alguns ossos pneumáticos através de divertículos que invadem esses ossos. No caso do Austrosaurus, a análise tomográfica revelou que esse dinossauro possuía três camadas concêntricas de tecido ósseo pneumático (chamado de camella) na região posterior das vértebras. Poucos saurópodes que foram tomografados, no entanto, apresentam esse mesmo tipo de tecido pneumático alinhado em camadas concêntricas – entre eles, podemos destacar o dinossauro argentino Saltasaurus loricatus Bonaparte & Powell, 1980 e o brasileiro Austroposeidon magnificus Bandeira et al., 2016. No caso do Saltasaurus, apenas uma camada de tecido pneumático foi observado, condição que os autores concluíram ser uma consequência do tamanho significativamente menor desse animal (Poropat et al., 2017). Assim, os autores defendem que animais maiores que o Austrosaurus – como o Austroposeidon, estimado em 25 metros! – possivelmente mostrariam mais anéis desse tecido ósseo pneumático (Figura 3). Porém, cabe lembrar que Bandeira e colaboradores (2016) interpretaram essas lâminas como “estruturas de crescimento intercaladas”, o que significaria que animais grandes, na verdade, crescem em intervalos de tempo (ou seja, se as condições ambientais estão favoráveis, esses dinossauros possivelmente cresceriam em ritmo mais acelerado, e caso as condições não fossem, eles cresceriam de forma mais lenta). Se essa intercalação de tecido ósseo distinto seria algo biomecânico ou não, somente a avaliação de mais dinossauros sob a ótica da tomografia computadorizada – bem como com o auxílio da histologia – poderá responder essas questões no futuro.

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Figura 3: Imagem da análise de tomografia computadorizada: A) nos ossos da coluna vertebral do Austrosaurus, revelando os ossos pouco densos e com alguns anéis de tecido pneumático, B) nas vértebras do Austroposeidon, onde os anéis de tecido ósseos intercalados, sendo possível observar a olho nu (C). Imagens modificadas de Poropat et al., 2017; Bandeira et al., 2016.

Mais um ponto interessante refere-se a investigação de outro mistério relacionando a esse animal: afinal, o Austrosaurus (como todos os dinossauros saurópodes) era um animal completamente terrestre, mas seus ossos foram achados em rochas de origem marinha! Claro que o Austrosaurus não foi o primeiro saurópode a ser achado em rochas de um antigo mar, porém isso é bem incomum (Mannion e Upchurch, 2010). E com esse mistério em mãos, a estudante de doutorado da Universidade de Queensland e co-autora do trabalho, Caitlin Syme, tentou descobrir como a carcaça veio a descansar no fundo de um antigo mar na região. Ela concluiu que o corpo do Austrosaurus foi parar no mar possivelmente devido ao processo chamado de “incha e afunda” (bloat and float, termo original proposto por Allison e Briggs, 1991), onde os gases produzidos durante a decomposição da carcaça levam ao inchaço do corpo e o torna um objeto flutuante, e que por isso poderia ser transportado para longe do local original de vida. No caso dos saurópodes, como foi discutido mais acima, a presença de um tecido pneumático que invadia as vértebras provavelmente teria afetado a dinâmica desses dinossauros e pode ter prolongado o estágio de flutuatação (Henderson, 2004). A co-autora Syme então concluiu que à medida que a decomposição da carcaça progrediu, os gases teriam escapado da carcaça (além da possibilidade de terem atraído diversos predadores marinhos oportunistas, que devem ter saboreado a carne de um animal com 15 metros!). Por fim, uma parte dela permaneceu intacta com alguns dos tecidos moles (como tendões e músculos), não sido totalmente decompostos mesmo quando os restos finais do Austrosaurus afundaram (Figura 4).

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Figura 4: O possível trajeto da carcaça do Austrosaurus, desde a morte do animal até o soterramento final. Fonte: Poropat et al., 2017.

Por fim, o Austrosaurus mckillopi têm sua importância histórica por ser o primeiro dinossauro do Cretáceo reconhecido em Queensland, e o primeiro saurópode cretáceo já relatado para a Austrália. A redescrição dessa espécie com maior nível de detalhes ajudou e muito a aprimorar o conhecimento que tínhamos sobre os saurópodes, os maiores animais que já existiram na superfície terrestre do planeta. Ainda que muitas perguntas estejam em aberto, uma das melhores maneiras de promover a compreensão paleontológica é investir em mais trabalhos de campo em busca do encontro de novos fósseis, além de claro, reavaliar espécimes antigos com novas técnicas. Enquanto isso, aguardemos que a contínua busca de novos fósseis nos revele mais dados interessantes sobre esses fascinantes animais.

PARA SABER MAIS:

Allison PA & Briggs DEG., 1991. Taphonomy of nonmineralized tissues. In Taphonomy: Releasing the Data Locked in the Fossil Record. In Allison PA & Briggs, eds, Plenum Press, New York, NY, 25–70.

Bandeira KLN, Simbras FM, Machado BE, Campos DdA., Oliveira GR & Kellner, AWA. 2016. A new giant Titanosauria (Dinosauria: Sauropoda) from the Late Cretaceous Bauru Group, Brazil. PLoS ONE 11, e0163373. Acesse aqui: goo.gl/NaeqUA

Henderson DM. 2004. Tipsy punters: sauropod dinosaur pneumaticity, buoyancy and aquatic habits. Proceedings of the Royal Society B 271, S180–S183.

Mannion PD & Upchurch P. 2010. A quantitative analysis of environmental associations in sauropod dinosaurs. Paleobiology 36, 253–282.

Poropat ST, Nair JP, Syme CE, Mannion PD, Upchurch P, Hocknull SA, Cook AG, Tischler TR & Holland T. 2017. Reappraisal of Austrosaurus mckillopi Longman, 1933 from the Allaru Mudstone of Queensland, Australia’s first named Cretaceous sauropod dinosaur, Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, doi:10.1080/03115518.2017.1334826. Acesse aqui: goo.gl/zs6Cpu

Romer AS & Parsons TS. 1977. The Vertebrate Body. Holt-Saunders International. pp. 330–334. ISBN 0-03-910284-X.

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