Predisposição genética: destino ou fator modificável?

Fatores genéticos e de estilo de vida são fatores chave no processo saúde-doença. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, um dos mais prestigiados da área médica, concluiu que a aderência a um estilo de vida saudável pode reduzir parcialmente os riscos de doença arterial coronariana (DAC), a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, mesmo quando há maior predisposição genética1.

A conclusão parece óbvia, mas para muitas pessoas a predisposição genética para DAC é determinística e dificilmente o risco pode ser modificado – algo como: minha família toda tem, então não importa como eu viva, ficarei doente. Entretanto, não é novidade que as pessoas que aderem ao estilo de vida saudável, como não fumar, evitar a obesidade e ter a alimentação saudável, apresentam taxas reduzidas de eventos cardiovasculares. Assim, o artigo publicado objetivou avaliar a interação entre estilo de vida e o risco genético.

Com base na hipótese de que tanto os fatores genéticos quanto a aderência ao estilo de vida saudável contribuem independentemente para o risco de eventos coronarianos, os autores avaliaram dados de 60 mil participantes de três estudos populacionais . Os pesquisadores desenvolveram uma escala de alto, intermediário e baixo risco genético com base no sequenciamento genético de mais de 50 polimorfismos de um único nucleotídeo (SNPs – Figura 1)* associados a maior risco coronariano nas pessoas estudadas. Foi elaborada também uma pontuação relacionada ao estilo de vida, classificando-o em favorável, intermediário ou desfavorável. Os fatores de estilo de vida considerados foram adaptados das metas estratégicas propostas pela Associação Americana do Coração (AHA) e incluíram não fumar, ausência de obesidade e ingestão de sódio. A alimentação foi considerada saudável se a pessoa fazia pelo menos metade das seguintes recomendações: várias porções de frutas, vegetais, castanhas, grãos integrais, peixes e porções reduzidas de grãos refinados, carnes processadas, carne vermelha, bebidas açucaradas e gorduras trans. Os novos eventos coronarianos considerados foram infarto do miocárdio, revascularização coronária (conhecida popularmente como ponte de safena) e morte de causa cardiovascular.

SNP

Figura 1. Exemplo de SNPs – uma única base diferente da base usual na mesma posição3.

Os resultados do estudo revelaram que o risco de novos eventos foi 91% maior entre os participantes com maior risco genético em comparação com os de menor risco. Os participantes com estilo de vida desfavorável, por sua vez, apresentaram maiores taxas de pressão alta, diabetes, maior índice de massa corporal (IMC – razão entre o peso e a altura elevada ) e lipídeos circulantes desfavoráveis. A presença dos fatores de estilo de vida saudável se relacionaram com a diminuição dos riscos de problemas no coração. O estilo de vida favorável diminuiu quase pela metade a chance de novos problemas, independente do risco genético ser alto, intermediário ou baixo.

A pesquisa traz três conclusões importantes: 1) a variação do DNA herdado e o estilo de vida contribuem independentemente para a presença da doença; 2) o estilo de vida saudável reduziu o risco de maneira similar em todas as classes de predisposição genética. Os resultados apoiam a adoção de ações de saúde pública para promover o estilo de vida saudável. Ou ainda pode-se considerar uma abordagem mais intensiva nas pessoas com risco genético aumentado, esperando que a divulgação do risco genético motive a mudança comportamental; 3) os fatores de estilo de vida podem sim modificar poderosamente o risco cardiovascular, independentemente do perfil de risco genético do paciente, ao contrário da visão determinística e de falta de controle sobre a capacidade de melhorar os fatores de risco adotada por muitas pessoas.

Para resumir, independente do risco genético, ter um estilo de vida saudável diminui o risco de doença coronariana. Ou seja, somos donos do nosso próprio destino!

 

* Mutação em que, uma única base no DNA difere da base usual na mesma posição. Os SNPs são o marcador de escolha na análise genética e também são úteis na localização de genes associados a doenças2.

 

Referências

1) Khera et al. Genetic Risk, Adherence to a Healthy Lifestyle, and Coronary Disease. N Engl J Med 2016;375:2349-58. doi: 10.1056/NEJMoa1605086

2) Seal et al. Tools, resources and databases for SNPs and indels in sequences: a review. Int J Bioinform Res Appl. 2014;10(3):264-96. doi: 10.1504/IJBRA.2014.060762.

3) The International HapMap Consortium. Nature 426, 789-796 (18 December 2003)

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