Quando devemos parar de amamentar? A pergunta sem resposta.

Quando devo parar de amamentar meu filho? Esse questionamento parece estar trazendo muita inseguranças nos dias de hoje. O “direito“ de opinar sobre o corpo da mulher e suas decisões é muito difundido em nossa sociedade. Aparentemente esse comportamento tem sido reforçado com as mídias e o acesso à internet. Essas ferramentas permitem que a pessoa sinta mais segurança para dar sua opinião e seu comportamento é reforçado por outras vozes que também se sentiram encorajadas pela invisibilidade. Dessa forma, parece que as mulheres acabam mais atingidas agora já que qualquer um na rua se sente encorajado em coagir as mulheres. Essa sensação de ter direito sobre o corpo do outro é ainda maior quando este outro, além de mulher, é mãe. A mãe é vista como uma mulher que está “depositphotos_95943934-stock-photo-two-crab-eating-macaques-nursing.jpgcumprindo com seu papel biológico” de gestora e cuidadora deixando de ser uma pessoa para doar-se ao filho. Esta visão equivocada encoraja as pessoas de agir em prol do bebê e assim, bravejar suas meias verdades contra a mãe em “defesa” deste ser indefeso.

Para além do contexto social, o conflito entre amamentar e deixar de amamentar é uma questão biológica muito importante para a mãe-mamífero. De um lado é vantajoso amamentar o máximo de tempo possível, aumentando as chances de seu filhote sobreviver; por outro lado, amamentar é um superinvestimento. A amamentação é vantajosa para o infante porque fornece toda a energia e requerimentos nutricionais necessários, além de ajudar no sistema imunológico, por exemplo. Contudo, mesmo para os infantes em determinado momento a amamentação oferece desvantagens, pois estes crescem e suas necessidades metabólicas não podem mais ser supridas exclusivamente pelo conteúdo do leite. Essa transição também oferece riscos para o infante porque o expõe a patologias e o deixa mais vulnerável à sazonalidade de recursos alimentares. Para a mãe, a amamentação representa um custo energético muito grande, uma vez que suas necessidades nutricionais podem ser até quadruplicadas quando lactando!

Dessa forma, a decisão sobre o momento de desmame pode influenciar na saúde e na sobrevivência de ambos: filhote e mãe. Agora é fácil entender porque o tempo de desmame é muito importante.

Colocando dessa forma, parece que esta decisão deve ser tomada depois de muito estudo e muito tempo no Google, mas então como escolhíamos o momento de desmame antes da existência do Facebook?

Na nossa última postagemmacaco-do-bebê-da-amamentação-da-mãe-64176797.jpg comentamos sobre como os estudos com nossos parentes mais próximos, os primatas não humanos, podem nos oferecer pistas. Hoje, vamos falar dos estudos com fósseis de hominídeos e ossos de humanos modernos).

Apesar do estudo de espécies filogeneticamente próximas ser bastante elucidativo, estudar a própria espécie é muito importante, principalmente quanto à características exclusivas. Uma característica única dos humanos, é que o infante desmama mesmo antes de ser independente na alimentação. Esta característica tem grandes implicações: 1) precisamos de maior tempo para desenvolvimento e dessa forma a idade da nossa primeira reprodução é tardia em relação aos demais primatas, 2) o intervalo de tempo entre os filhotes é menor, visto que ao desmamarmos um filhote podemos entrar no novo ciclo reprodutivos e 3) essa necessidade de cuidado por longo período do filhote poderia ser uma das pressões evolutivas para a menopausa.

Uma forma de acessar informações sobre o desmame em hominídeos e humanos modernos, seria estudando a variação química e de isótopo de cálcio no esmalte e dentina dos dentes. Contudo, outras fontes alimentares também contêm alto teor de cálcio como o leite de outros animais. Logo, esse método não é eficiente se formos tentar acessar a idade de desmame em sociedades onde já havia a domesticação de animais como a vaca, porque não seria possível identificar quando a mãe parou de amamentar e quando começou a incluir derivados de leite na dieta do seu filho.

Tacail e colaboradores do Laboratório de Geologia em Leyon, França conseguiram desenvolver um método para diferenciar o isótopo de cálcio humano de demais animais. Este estudo testou com humanos modernos, viventes e que, portanto, sabe-se quando desmamou, se a concentração de isótopo de cálcio humano (δ44/42Ca) seria confiável para usarmos nos fósseis e dentes de humanos de populações antepassadas.

Agora que temos o método, esperamos ansiosamente pelos estudos que nos mostrarão como as mulheres, mães, hominídeos e humanos modernos (mas de tempos antigos) lidaram com essa difícil decisão de quando desmamar.

Independente desses resultados, uma coisa já sabemos: as mulheres e sim, as mães devem ter liberdade e apoio nas decisões que tomam pelo próprio corpo.

PARA SABER MAIS

Tacail, Thivichon-Prince, Martin, Charles, Viriot & Balter (2017). Assessing human weaning practices with calcium isotopes in tooth enamel. PNAS 24(114) 6268-6273 doi/10.1073/pnas.1704412114

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