Vamos todos morrer mesmo

 

“Para morrer basta estar vivo”, “contra a morte não há remédio”, “a única certeza de quem está vivo é a morte”, “contra a boa e a má sorte, só tem poder a morte” estes e muitos outros ditados populares são conhecidíssimos a respeito da morte. Ela que, mesmo sendo um acontecimento natural presente em todos os reinos de seres vivos, causa tanta estranheza e certa curiosidade nos vivos.

Mas quais os fenômenos químicos acontecem no corpo humano depois da morte? Como ela se processa em nosso organismo? Quais são os acontecimentos da cadeia de colapsos que nos levam ao fim dessa vida? Vou tentar falar dessas questões aqui da forma que sempre tento usar pra vários outros assuntos: com leveza, simplicidade e humor. Se você sentir falta do humor, peço perdão pelo vacilo.

Bom, aqui vamos trabalhar com a suposição de um indivíduo que morreu de causas naturais, em temperatura ambiente, em posição convencional e que foi enterrado sob a terra, ok? Sim, temos que adotar um modelo de morto. Porque existem muitos processos diferentes que podem levar a morte mas ia ser um pouco complicado abordar tooodos eles aqui. Mas você sabe que dá pra morrer levando um tiro, uma facada, num acidente de trânsito, devido às complicações de uma doença, andando na rua, se um raio cair na sua cabeça, atropelado por um trem, engolindo uma colmeia de abelhas, tropeçando… Enfim, morrer é mais fácil do que parece.

bumb ways

Fofíssimo game “Dumb ways to die”, uma campanha australiana com o objetivo de reduzir o número de acidentes na rede ferroviária do país que mostra formas idiotas de morrer como atear fogo ao próprio cabelo ou se fantasiando de alce durante a temporada de caça ao alce. [Fonte: http://www.dumbwaystodie.com/]

A terceira margem do rio

O artigo “Determination of Death: A Scientific Perspective on Biological Integration” [1] (em tradução livre “Determinação da Morte: Uma Perspectiva Científica sobre Integração Biológica”) da neurocientista Maureen L. Condic, foi publicado em abril de 2016 e traz a diferença de dois conceitos muito importantes: o que é um ser humano vivo e o que são células humanas viva. Segundo a autora, o que conceitua cada um desses dois estados são a persistência de qualquer forma de função cerebral e a persistência de integração autônoma de funções vitais, respectivamente. Só que aí nós temos um probleminha pois usando APENAS conceitos biológicos qualquer um desses critérios é suficiente para determinar que existe vida em um ser.

Aí o caro leitor está pensando: “ué? então não entendi” e eu vou te explicar. Ou melhor, vou deixar a própria Maureen explicar, ela é especialista nisso.

Embora a comunicação entre células possa fornecer uma resposta biológica coordenada a sinais específicos, ela não suporta a função integrada que é característica de um ser humano vivo. Determinar a perda da função integrada pode ser complicado por intervenções médicas (ou seja, “suporte de vida”) que desacoplam elementos da hierarquia biológica natural subjacentes à nossa compreensão intuitiva da morte.

– Maureen L. Condic (em livre tradução)

Fazendo um ‘ou seja’ do ‘ou seja’, o negócio é o seguinte: para estar vivo é preciso estar vivo. O primeiro vivo é no sentido de esperto e capaz de coordenar as funções e o segundo vivo é de vivo mesmo, o contrário de morto.

Maureen traz também um diagrama muito interessante que vemos aí embaixo:

diagrama2

A integração não é suficiente para a função organizacional humana. No nível mais baixo (azul), as células estão vivas e mostram coordenação (comunicação celular). No próximo nível (laranja), existe um sistema capaz de integração, que, em estágios pós-natais, requer um cérebro. Se a integração for suficiente para sustentar a vida, o sistema funciona como um organismo. No nível mais alto (cinza), o cérebro é capaz de suportar a consciência, a sensibilidade e a racionalidade. [Traduzido e adaptado de Determination of death: A scientific perspective on biological integration]

Aí a gente tem que entender o seguinte. Esse conceito existe e funciona para um organismo complexo como o ser humano. Se você usar como exemplo uma bactéria unicelular, a única coisa que você pode esperar dela é que ela esteja… viva. Então já temos uma primeira informação sobre esse assunto: ter células vivas não significa estar vivo quando falamos de organismos complexos.

A parte que te cabe nesse latifúndio

Enterrar pessoas mortas é um costume que tem registros arqueológicos de 60000 a.C. [2] . No entanto acredita-se que ainda não tinha o sentido respeitoso que tem hoje mas já apresentava a conotação sanitária que tem nos tempos atuais. Vamos entender o que acontece com o seu corpinho logo após a morte, mesmo quando ele já estiver embaixo da terra, com uma bela lápide em cima.

Ou dentro de casulos que viram árvore.

Cremado não. A reação química da cremação é mais simples, é só combustão onde sobram os sais inorgânicos e a parte orgânica se torna gás carbônico e água, se tudo der certo.

Mas uma coisa que eu gosto é de esquemas coloridos e fáceis pra toso mundo entender. O processo da morte, a partir do momento que o seu coração para é esse:

A coagulação sanguínea é um processo bioquímico complexo que é explicado através de uma cascata (sim, cascata) de reações. É chamado de cascata porque é uma… como eu posso explicar? Cascata.

cataratas

– Chegou o fator IX de coagulação!
– AEEEEEEEEE

As reações acontecem em série através de um mecanismo que envolve a combinação de fragmentos celulares (plaquetas) e proteínas (fatores de coagulação).

Já o livor mortis é um processo físico fácil de entender. Você que está lendo este texto está vivo (nada contra os vampiros, acho ótimo) e está com as bochechas coradas e o rosto quentinho. Mas vamos imaginar que você morreu aí sentado na cadeira. Se o seu coração parar de bombear o sangue, a única força a qual ele estará sujeito é a gravidade. Nesse ponto a gravidade é responsável por levar os sangues para as extremidades de baixo do seu corpo, fazendo com que o seu rosto fique pálido. Mas se você, por um acaso, morrer de cabeça pra baixo você vai continuar com o rosto coradinho mas ficará com os pés bem brancos e gelados.

paola

Nessa imagem vemos Paola Bracho curiosa em entender como não entrou em livor mortis já que não tem coração. [Fonte: Frases da Paola Bracho – Paola e um Sorriso vale mais que mil palavras]

Já o rigor mortis envolve processos mais complexos. Quando estamos vivos os nossos músculos se contraem por um processo de gasto/recuperação de energia em condição aeróbica (presença de oxigênio). Mas com a morte o sangue para de circular e levar o oxigênio por onde ele passa, assim ocorre a falência sanguínea. O oxigênio e o controle nervoso/cerebral não chegam mais à musculatura. O músculo passa a utilizar a via anaeróbica, para obter energia para um processo de contração que ocorre de forma desorganizada. Nesse processo há transformação de glicogênio em glicose, e como a glicólise é anaeróbica, gera lactato e verifica-se a queda do pH. Depois do rigor o pH passa a aumentar devido a concentração de outras substâncias liberadas no organismo e chega a fase de pós-rigor, onde o corpo perde a rigidez. Cada fase do processo pode ser vista gráfico:

Rigor mortis

Fases do rigor mortis em bovinos (mas na gente é o mesmo processo) [Fonte: http://lucitojal.blogspot.com.br/2010/04/rigor-mortis-conversao-do-musculo-em.html%5D

Aí vem a fase complicada, porém natural, a decomposição. Bom, seu corpo faliu, suas células morreram, suas linhas de defesa já caíram e uma quantidade enorme de substâncias muito nutritivas estão disponíveis para as bactérias que moram no seu corpo. Essas bactérias são, por assim dizer, muito boas de serviço. Elas tem via de trabalho muito rápidas que conseguem transformar a Lisina (que entre outras coisas auxilia no reparo muscular e reduz os níveis de estresse e ansiedade crônicos [3]) e a Ornitina (que ajuda a estimular o sistema imunológico, tem grande influência na energia corporal e ajuda também na regeneração da célula hepática [4]) em Cadaverina e Putrescina, respectivamente.

cadaverina

Reações de descarboxilação que levam à formação de Cadaverina e Putrescina

Pois é, com esses nomes de irmãs malvadas da Cinderela vocês imaginam o que elas fazem com você, não é? Te fazem feder como um morto. Além disso as bactérias liberam uma grande quantidade de gás metano, que faz o seu corpo inchar muito. Agora sim, você está perfeitamente morto, pronto pra ser figurante em The Walking Dead.

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.

– Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.

E depois?

Aí vai do seu posicionamento religioso e social. Alguns acreditam que não tem nada depois, outros acreditam que existe um lugar onde o espírito vai aprender mais um pouco pra voltar pra Terra depois e outros creem em um grande sono onde ficarão esperando a volta de seu messias. Quanto a isso não temos como garantir, não temos provas científicas para isso.

Mas temos a certeza que ela virá pra todos, ela que iguala ricos e pobres, felizes e infelizes. Como disse Raul: Vem mas demore a chegar. Eu te detesto e amo, morte. Morte, morte, morte que talvez seja o mistério dessa vida…

Referências bibliográficas 

[1] M. L. Condic, “Determination of death: A scientific perspective on biological integration,” in The Journal of Medicine and Philosophy: A Forum for Bioethics and Philosophy of Medicine, 2016, pp. 257-278.

[2] A. Strauss, “Os padrões de sepultamento do sítio arqueológico Lapa do Santo (Holoceno Inicial, Brasil)= The burial patterns in the Archaeological Site of Lapa do Santo (early Holocene, east-central Brazil),” Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, vol. 11, pp. 243-276, 2016.

[3] M. Smriga, S. Ghosh, Y. Mouneimne, P. L. Pellett, and N. S. Scrimshaw, “Lysine fortification reduces anxiety and lessens stress in family members in economically weak communities in Northwest Syria,” Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, vol. 101, pp. 8285-8288, 2004.

[4] D. Russell and S. H. Snyder, “Amine synthesis in rapidly growing tissues: ornithine decarboxylase activity in regenerating rat liver, chick embryo, and various tumors,” Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 60, pp. 1420-1427, 1968.

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