Como palavras podem “causar” medo?

Há aproximadamente 30 anos, um artista muito famoso cuspiu na bandeira do Brasil durante um show que fazia. Após o ocorrido, várias colunas de jornais avaliaram o fato, dizendo, por exemplo, que foi um absurdo ele ter cuspido na bandeira, o símbolo do nosso país. Mas por que ocorreram tantas críticas diante de um ato em um “pedaço de pano”? Se fosse em outro pano qualquer, haveria tantas críticas assim? Por que nós sentimos raiva ou podemos ficar indignados por algo que aconteceu com um pedaço de pano?

“Por que esse pedaço de pano significa algo”, alguém me diz. Esse pano, com essas cores, com essa configuração impressa (da bandeira), representa a nação brasileira. Cuspir na bandeira nacional é como cuspir em cada um de nós, brasileiros.

Críticas à parte[1], não é impressionante como um símbolo pode gerar tantos sentimentos na gente?! Olhar uma foto pode nos causar o maior prazer; ver a imagem de um bolo pode evocar a famosa “barriga roncando”; ouvir alguém falando mal do artista que mais gostamos pode nos fazer desgostar de uma pessoa, mesmo sem saber quase nada sobre ela…

Que os símbolos, como as palavras, podem nos causar os mais diversos sentimentos (e comportamentos), nós temos inúmeros exemplos, não é mesmo? Mas você já parou para pensar em como é que essas relações podem ser estabelecidas? É sobre isso que o post de hoje vai falar!

Os pesquisadores Dougher, Hamilton, Fink e Harrington realizaram um experimento bastante interessante no ano de 2007 (Estudo 1): eles recrutaram 15 estudantes universitários (8 no grupo experimental, e os demais no controle), que receberam choques (!!!), os quais foram selecionados individualmente, de modo que cada participante indicasse quando um choque era forte e incômodo o suficiente, porém sem causar dor. Os experimentadores mediram a reação galvânica da pele (característica da reação de medo) dos participantes diante do choque escolhido, pois isso seria importante nas próximas etapas do experimento. Em seguida, os participantes do grupo experimental faziam uma tarefa onde aprendiam a relacionar estímulos.

Na tela do computador aparecia, sempre, uma figura sem sentido (entre três) na parte superior, e três círculos idênticos, exceto pelo seu tamanho, na parte inferior: havia sempre um círculo pequeno, um médio e um grande. A figura na parte de cima deveria ser relacionada com uma das três debaixo, de modo que sempre havia uma única resposta correta: a figura 1 deveria ser relacionada ao menor círculo, a figura 2 com o círculo médio e, por fim, a figura 3 combinava com o círculo maior (vide Figura 1). A cada tentativa, o computador avisava os participantes se suas escolhas estavam corretas ou erradas.

1

Figura 1. Esquema mostrando como cada participante deveria responder na tarefa. Retirado de: de Almeida & Perez (2016).

Depois de treinar por um tempo com os círculos – e também com outras formas geométricas (quadrados, retângulos, etc. que sempre variavam somente no tamanho) – os participantes aprenderam a relacionar cada uma das figuras sem sentido com as formas geométricas de tamanhos variados. Isso foi verificado em um teste, no qual três formas geométricas não utilizadas no treino foram empregadas, e os participantes tinham que responder sem obter feedback sobre as escolhas, ou seja, o computador não avisava mais se os participantes acertavam ou não.

Após demonstrar no teste que tinham aprendido a tarefa anterior, uma nova etapa era iniciada: a tarefa agora requeria que os participantes pressionassem a barra de espaço do computador em uma frequência estável quando a figura 2 (relacionada com a forma de tamanho médio) aparecia na tela do computador. Para auxiliar os participantes, um dos experimentadores mostrava como fazer isso: quando a figura 2 aparecia na tela do computador, ele apertava a barra de espaço uma vez a cada segundo, durante 30 segundos. Depois, foi pedido que os participantes fizessem o mesmo, para ver se haviam entendido a tarefa. Por fim, cada participante foi instruído a pressionar a barra de espaço diante de outras figuras também, na frequência que achassem adequada. Vocês imaginam o que aconteceu?

Quando a figura 1 (relacionada com a forma menor) apareceu, todos os participantes pressionaram a barra de espaço em uma frequência menor que a obtida quando a figura 2 aparecia na tela do computador. Do mesmo modo, quando a figura 3 apareceu (relacionada com a figura maior), todos os participantes apertaram a barra de espaço em uma frequência maior que a obtida quando a figura 2 aparecia. Assim, eles passaram a responder a cada uma das figuras sem sentido como se elas significassem o mesmo que as figuras de tamanho pequeno, médio ou grande. Interessante, não? Mas o melhor ainda está por vir!

Vocês lembram que os experimentadores mediram a resposta da pele de cada participante, diante de um choque que era incômodo, mas não doloroso?! Na última fase da pesquisa, os pesquisadores pediram que os participantes se sentassem e olhassem para a tela do computador. Eles foram avisados que figuras apareceriam na tela do computador, e que eles levariam choques. Depois, a figura 2 aparecia na tela do computador, e, em seguida, os participantes levavam o choque “escolhido” previamente. Isso aconteceu seis vezes, e durante todo o tempo, os experimentadores mediam a resposta eletrodermal de cada participante. Em seguida, a figura 1 apareceu na tela do computador, seguida por um choque com a metade da voltagem apresentada no choque “selecionado”. E diante da figura 3, o participante não recebia choque. A resposta eletrodermal foi medida durante todo o tempo. O que vocês imaginam que aconteceu quando a figura 3 apareceu?

Mesmo não tendo recebido choque algum, a resposta eletrodermal obtida após o aparecimento da figura 3 foi MAIOR que a obtida após o aparecimento da figura 2. Então, mesmo sem receber choque, os participantes sentiram um incômodo como se tivessem levado, de fato, um choque, e um choque maior que o obtido anteriormente. Isso aconteceu somente com os participantes do grupo experimental (os participantes do grupo-controle fizeram todas as etapas, menos a tarefa onde aprendiam a relacionar as diferentes formas geométricas com as figuras sem sentido). Impressionante, não???

Uma vez que os participantes aprenderam a relacionar as figuras 1, 2 e 3 com as formas geométricas pequenas, médias e grandes, respectivamente, e que a figura 2 foi pareada com um choque incômodo, as demais figuras também passaram a evocar respostas eletrodermais (caraterísticas de medo) de acordo com o tamanho da forma que foram relacionadas.

Pesquisas semelhantes têm sido feitas nos últimos anos e replicam e ampliam os dados obtidos nessa pesquisa, mostrando, por exemplo, que o mesmo procedimento pode ser utilizado para evocar respostas de dor em símbolos que nunca foram relacionadas com dor diretamente (e.g., Bennett, Meulders, Bayens, & Vlaeyen, 2015).

Esse tipo de estudo, apesar de ser uma pesquisa básica, tem implicações práticas muito importantes: pensem, por exemplo, em quantas pessoas possuem uma fobia e, mesmo passando por tratamentos, não conseguem identificar sua origem. Saber que você tem medo de barata porque um dia uma barata veio voando e pousou no seu braço facilita muito no tratamento, mas, às vezes, temos medo de algo (e.g. palhaço) sem nunca ter passado por uma história “negativa” com ele (e.g., de Almeida & Perez, 2016). Este estudo mostra, portanto, como podemos ter uma reação negativa diante de um estímulo (e.g., símbolo, palavra, objeto, etc.) mesmo sem nunca termos passado por uma situação aversiva com relação a ele, ou seja, como palavras/símbolos podem nos “causar” medo.

Referências

Bennett, M. C., Meulders, A., Bayens, F., & Vlaeyen, J. W. S. (2015). Words putting pain in motion: The generalization of pain-related fear within an artificial stimulus category. Frontiers in Psychology, 6, 520.

de Almeida, J. H., & Perez, W. F. (2016). Paus e pedras podem machucar, mas palavras… também! – Teoria das Molduras Relacionais. In: Soares, P. G., de Almeida, J. H., & Cançado, C. R. X. Experimentos Clássicos em Análise do Comportamento. Brasília: Instituto Walden 4 (pp. 186-204).

Dougher, M. J., Hamilton, D. A., Fink, B. C., & Harrington, J. (2007). Transformation of the discriminative and eliciting functions of generalized relational stimuli. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 88, 179-197. Recuperado de: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1986433/pdf/jeab-88-02-179.pdf

[1] Segue a resposta do artista sobre o incidente: “Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. Não me arrependo. Sabia muito bem o que estava fazendo…. Eu sei muito bem o que é a bandeira do Brasil, me enrolei nela no Rock in Rio junto com uma multidão que acreditava que este país podia realmente mudar. A bandeira de um país é o símbolo da nacionalidade para um povo. Vamos amá-la e respeitá-la no dia em que o que está escrito nela for uma realidade. Por enquanto, estamos esperando”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s