A ciência é patriarcal e deve ser abandonada pelas mulheres?

Embora grande número de estudos tenha sido feito para mostrar que as mulheres não estão à altura dos homens, é surpreendente o quão pouco sabemos acerca dos corpos femininos, quando se trata de manter as mulheres saudáveis” (Schiebinger, 2001, p. 215).

Não é muito incomum encontrar em grupos feministas debates sobre a relação entre dominação masculina e a ciência [1].  Tais debates geralmente se desenvolvem a partir da constatação de que, além do cânone predominantemente masculino, historicamente, a Ciência forneceu ferramentas para justificar a subjugação das mulheres [2] e sua consequente anulação como produtoras de saber. As exceções compostas pelos poucos casos de mulheres cientistas reconhecidas pelo cânone até recentemente só confirmam a regra e conforme vamos avançando nos estudos feministas e na historiografia das ciências, temos tomado conhecimento a respeito de inúmeras mulheres que contribuíram de maneira revolucionária para o desenvolvimento da ciência e que foram apagadas da história, de modo que em diversos casos homens levaram os créditos em seus lugares. O filme Estrelas Além do Tempo e o livro As Cientistas – 50 mulheres cientistas que mudaram o mundo podem ser citados como produções recentes destinadas ao grande público contando um pouco dessa história [3].

Dentre esses debates, por vezes, defende-se a ideia de que as mulheres deveriam renegar a ciência e pautarem-se a partir de outros tipos de saberes. Meu ponto neste texto consiste em apresentar um contraponto a essa visão, ao mesmo tempo em que reconheço os problemas do machismo/patriarcado/da dominação masculina (a denominação pode ser escolhida de acordo com o gosto da/o leitora/o) na ciência.

Meu argumento principal se desenvolve ao redor da ideia de que desconsiderar a ciência enquanto um campo de conhecimento que necessita ser disputado pelas mulheres e transformado por dentro traz perdas para toda a sociedade, mas, acima de tudo, pode custar a vida de várias mulheres.

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Ilustração feita por Juliana Adlyn para o blog

Em seu livro O feminismo mudou a Ciência?, Londa Schiebinger aborda três aspectos principais desse tema: o desenvolvimento histórico das ciências ocidentais, a história de como as noções de feminilidade e masculinidade modelaram os conceitos nos contextos e produções científica e como os papéis de gênero influenciaram não apenas a configuração institucional da ciência, mas o próprio fazer científico. A conclusão óbvia disso é que… *tam tam taaaaaamm*….. a ciência não é neutra!

Nesse sentido, é importante compreender que, para além dos usos da ciência para fins declaradamente higienistas e/ou dominadores conhecidos historicamente, pesquisadores podem ser tendenciosos de maneira inconsciente ou não intencional, mas são influenciados por questões políticas e sociais ao criar suas categorias de análise. Para ilustrar um pouco disso, vou tentar expor resumidamente alguns aspectos da história da medicina e da primatologia explorados pela historiadora da ciência.

Até meados do século XVIII, pesquisadores acreditavam que o corpo feminino era uma versão inferior do corpo masculino, sendo as únicas diferenças entre os corpos femininos e masculinos os aparelhos reprodutivos e a qualidade inferior do feminino (que era entendido como uma espécie de cópia inferior do corpo masculino).  Após esse período, passou-se a considerar a “diferença sexual” não mais como uma questão resumida às genitálias, mas “que envolvia cada fibra do corpo”. Muitas e muitas décadas de pesquisa se seguiram norteadas pela ideia de papéis sexuais. As pesquisas como um todo buscavam encontrar evidências “biológicas” para justificar os papéis de homens e mulheres na sociedade.

Como aponta Londa, “(…) poucos médicos interessavam-se pelas implicações da diferença na assistência à saúde. Na maioria das vezes, o estudo acadêmico de diferenças sexuais era projetado para manter as mulheres em seu lugar”.

No século XIX, em um momento de grandes reivindicações das mulheres estadunidenses para serem admitidas nas universidades, argumentava-se que a ânsia de mulheres em produzir ciência era a forma mais alta de egoísmo e essa atitude poderia  prejudicar a saúde delas de tal forma que seus ovários poderiam atrofiar (!).

A autora nos conta que a história da medicina oscilou nesse sentido entre dois paradigmas. O paradigma da igualdade, que considerava os organismos feminino e masculino iguais, teve como consequência o fato de que certos aspectos da saúde das mulheres fossem pouquíssimo estudados, como, por exemplo, a relação entre tratamento com estrógenos e problemas cardiovasculares. Já o paradigma da diferença radical resultou em considerar sintomas relatados por mulheres como efeitos “psicossomáticos” com muito maior recorrência do que se registram os sintomas relatados por homens (dito em bom português, “mulher é tudo meio doida e paranoica mesmo… homem não, quando relata algo deve ser coisa séria”).

Nos anos que se seguiram a partir de 1980, diversas feministas se dedicaram a estudar e criticar pesquisas médicas que negligenciavam totalmente os corpos femininos, pois se baseavam em grupos controle compostos unicamente por homens (em um deles, por exemplo, foram estudados 22.071 homens e ZERO mulheres). Os resultados dos testes realizados apenas com indivíduos do sexo masculino eram generalizados para toda a população, e, mesmo sem que se soubesse, por exemplo, o efeito de aspirinas em casos de doenças cardíacas no organismo feminino, mulheres passaram a ser orientadas a tomar uma aspirina por dia (tá dando pra sacar o absurdo?). Esse tipo de negligência com o estudo do organismo feminino, tomando o corpo masculino como referência universal, foi e ainda é responsável por danos seríssimos na saúde das mulheres.

Uma pesquisa de 1981 sobre estudos a respeito da saúde das mulheres descobriu que havia duas vezes mais pesquisas sobre mulheres relacionadas ao parto e à criação dos filhos do que outros problemas de saúde. Além disso, apesar do foco na saúde reprodutiva, dos mais de 15 institutos do NIH (Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos) nenhum deles era dedicado à ginecologia e obstetrícia. Dito de outra maneira, temos profissionais dedicados a cuidar da saúde dos bebês, mas não temos profissionais dedicados a cuidar da saúde das mulheres que deram a luz a esses bebês. E mais, a grande maioria dos estudos a respeito da saúde das mulheres naquele momento estava diretamente relacionada à mulher apenas enquanto sujeito que dá a luz, não enquanto um organismo que necessita de cuidados independente de ter (ou querer) ter filhos ou não.

Para ilustrar brevemente como essas questões afetam diretamente a vida das mulheres mesmo em campos distintos da medicina, cito o exemplo da primatologia, um dos poucos campos com predominância de pesquisadoras mulheres. Pesquisas sérias realizadas por cientistas mulheres nesse campo desmistificaram noções que guiavam as pesquisas até então, como a de que machos primatas seriam os dominadores dos bandos, responsáveis pela busca por fêmeas para reprodução. Essas pesquisadoras se propuseram a estudar fêmeas e descobriram uma complexa rede de relações, de modo que as próprias fêmeas possuem um papel ativo na escolha de parceiros sexuais. Dessa forma, por meio de estudos replicáveis, desbancaram a partir da própria primatologia argumentos anteriormente pautados nas sociedades de primatas como justificativa para a dominação masculina nas sociedades humanas.

É relevante ainda mencionar que as mulheres só foram admitidas nas universidades norte-americanas na última década do século XIX. No Brasil, como observa Nilda Marinho, professora da Universidade de Rio de Janeiro:

“Embora o ensino superior estivesse presente desde 1808, com a vinda da família real, somente com a Reforma do Ensino Primário e Secundário do Município da Corte e o Superior em todo o Império – instituída pelo Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, e que ficou conhecida como Reforma Leôncio de Carvalho – a mulher passou a ter esse direito citado. A primeira mulher brasileira a possuir um diploma de ensino superior foi Maria Augusta Generoso Estrela, que se graduou em Medicina no ano de 1882, porém nos Estados Unidos, não no Brasil. Desta forma, em 1887, Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954) se torna a primeira mulher a se graduar no País na Faculdade de Medicina da Bahia.”

Pelo menos até a metade do século XX as mulheres ainda eram declaradamente desencorajadas a tentar carreira de pesquisadoras e mesmo nos dias atuais é possível perceber a relação desproporcional entre mulheres no corpo discente e docente nas universidades, em que, o número de homens como professores é maior e o número de mulheres é maior dentre o corpo discente, evidenciando a evasão das mulheres ao longo dos níveis da carreira acadêmica. Precisamos ampliar o acesso das mulheres ao ensino e à produção de conhecimento em todas suas instâncias e não sermos mais uma voz que as desencoraja a ocupar esse lugar que lhes é negado. #StandWithMalala

Dito rapidamente tudo isso, defendo que a ciência é um campo que deve ser disputado pelas mulheres e que as transformações proporcionadas por pesquisas preocupadas com o questionamento do sujeito universal masculino (geralmente branco e sempre entendido como neutro) são uma relação de ganha-ganha entre o aprimoramento da ciência, que vai aos poucos se reinventado e se libertando de paradigmas limitadores para a própria pesquisa e, para dizer o mínimo, o avanço no alcance de qualidade de vida para as mulheres e seu reconhecimento enquanto sujeitos. No entanto, somando coro à Londa, friso mais uma vez que “a incorporação das mulheres à ciência não pode e não deve ocorrer sem conturbações na ordem vigente, pois demanda profundas mudanças estruturais na cultura, nos métodos e no conteúdo da ciência” (p.37).

Propor o debate e a transformação das epistemologias e metodologias científicas considerando as mulheres enquanto sujeitos é desafiar o status quo. Ser mulher e fazer ciência é desobedecer! ❤

 Agradeço às meninas que gentilmente sugeriram temas para os textos desta coluna, especialmente à Aline Couto, por ter sugerido o tema da vez. Agradeço também à ilustradora Juliana Adlyn pela sensibilidade e por ter concedido a mim a honra de ter uma de suas artes cocriando os sentidos do texto 🙂

Referências

SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência. Bauru: Edusc, 2001.

Pesquisa analisa a trajetória de inserção das mulheres no ensino superior. Disponível em: <http://www.faperj.br/?id=2748.2.6&gt;. Acesso em: 14 jun 2017.

O feminismo mudou a ciência. Mudará ele a Análise do Comportamento? Disponível em: <http://www.comportese.com/2016/06/o-feminismo-mudou-a-ciencia&gt;. Acesso em: 14 jun 2017.

[1]                      O mais adequado aqui seria falar em “Ciência(s)”, mas para deixar o texto visualmente mais limpo e fluído, optei por usar o termo desta forma. De todo modo, considero “Ciência” o denominador de um campo múltiplo.

[2]                      Cabe dizer que, diferentemente do que os discursos de subjugação feminina propagavam (e ainda propagam), não existe qualquer coisa parecida com uma mulher universal. Existem sim mulheres que vieram de diferentes classes, raças, orientações sexuais, gerações e países, com histórias e repertórios dos mais diversos.

[3]                      Como mostra o filme mencionado, essa problemática toda ganha novas nuances quando interseccionada com outras questões negligenciadas pela ciência, como etnia.

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