0

Brincar é coisa séria!

Na semana do brincar, é importante retomar esse assunto tão cotidiano e esquecido. Essa semana temática foi instituída a fim de promover a consciência sobre a importância do brincar para todos os cidadãos.

Brincar é majoritariamente ligada à infância no imaginário social. Ao nos propormos a buscar memórias de nossa infância, é possível lembrar de momentos de brincadeira, cada pessoa dentro do que pôde ter acesso nesse período da vida. Mas nós reconhecemos e entendemos a importância de brincar para as crianças?

Brincar é transformado de verbo em substantivo para que sua complexidade seja compreendida e organizada. Logo, o brincar traz como cerne uma série de questões inerentes ao desenvolvimento infantil pleno.
Cabe destacar que o brincar é uma experiência cindispensável às crianças. Por meio dele, diversas esferas são vivenciadas no desenvolvimento:

Aprendizagem;
Desenvolvimento de Linguagem;
Pensamento;
Socialização;
Interpretação;
Criatividade;
Autoestima.

Dentro da brincadeira, são estabelecidas relações de troca, de afetuosidade e situações em que a tomada de decisão é necessária, bem como momentos que propiciam o desenvolvimento de aprendizagem psicomotora – aquela que diz respeito aos movimentos. Essas experiências se somam e formam construções que se tornam base para que a criança comece a estruturar suas ações e colocações em sociedade ¹. Isso acontece em situações que podem estar no cotidiano e que não envolvem necessariamente o uso de brinquedos caros. É possível expandir vocabulário, aprender a formular frases e entender quando deve agir ou não em brincadeiras de cozinhar, de boneca, de carrinho e de roda, por exemplo. Para todos os gêneros.

Sendo o brincar inegavelmente importante, ele deveria então caber dentro da agenda diária de rotina das crianças? É possível determinar a hora certa para brincar à uma população tão integrada a essa atividade?
De acordo com estudo recente ², quando a criança está brincando, a sensação da passagem de tempo é aumentada e intensa, em relação à percepção adulta. Essa vivência é marcada pelo prazer da repetição.

Ao delimitar períodos específicos para brincar, o adulto está subordinando a criança a regras e percepções que não foram construídas em conjunto com ela. Esse cenário possui um grande potencial de fazer com que as crianças percam seu desejo natural de aprender, além de criar risco para desenvolvimento de acometimentos em saúde mental, como fobia, ansiedade e estresse².

O período da infância deve ser marcado pelas infinitas possibilidades de se fazer descobertas, propiciando as elaborações cognitivas e sociais, essenciais para a formação de um ser humano saudável. O que vem acontecendo é uma constante desapropriação de espaços em que crianças possam estar e viver livremente, brincando.

Considerando esses fatores, é de suma relevância que essa temática esteja em pauta atualmente para que a infância consiga prosseguir de modo pleno, sem restrições que limitem sua vivência. O cuidado com as crianças hoje culmina em construção basal de uma sociedade mais saudável, habilidosa e com distintas possibilidades de ação no futuro.

1- Lira HGL, Lima JS, Santos JPB, Teixeira LM, Lima NAR, Silva ME. Vivenciar o Brincar como Recurso para Humanização Hospitalar em Ala Pediátrica 194. Revist. Port.: Saúde e Sociedade. 2016;1(2): 191-198.
2- Kuhn R, Cunha AC, Costa AR.Sem tempo para brincar: as crianças, os adultos e a tirania dos relógios. Revista Kinesis, ed. 33 vol 1, jan-jul de 2015, Santa Maria.

Anúncios
6

Je ne vois pas la vie en rose*: a descoberta de um lado da França (nada) surpreendente

A história do mundo ocidental vem sendo contada há algumas centenas de anos pela ótica dos europeus e tendo a Europa e, mais recentemente, os Estados Unidos como protagonistas. Somos levados a acreditar que tudo vem de lá: todas as boas ideias, as inovações tecnológicas, a educação e a polidez. Estamos sempre seguindo algum modelo europeu, algum filósofo ou pensador alemão, francês, inglês ou norte-americano. Em geral continua tudo sendo sempre “homem”, “branco”, do norte e do ocidente do globo. Nada disso é novidade, mas, quando se fala de feminismo, não é muito diferente: costumamos acreditar que o feminismo como o conhecemos saiu da cabeça e da luta das mulheres do norte.

Depois que me casei com um francês, visitei algumas vezes a França. Conheci famílias, homens e mulheres franceses. Em geral, gente branca e de classe média. E depois me mudei para a França. Logo tive certeza do que vinha percebendo: a França não é feminista. Como no Brasil, a igualdade entre homens e mulheres está no papel, não na prática. Isso deveria ser óbvio, até porque sabemos que a igualdade real entre homens e mulheres não existe em lugar nenhum. Saber disso, no entanto, não me impedia de achar que aqui as coisas seriam melhores.

A princípio, fiquei incomodada porque ninguém que conheci até agora carrega oficialmente o sobrenome da mãe. Fui procurar a legislação, que data de 2002: sem uma declaração conjunta de mãe e pai escolhendo os dois sobrenomes, quando o pai assume a criança no ato do registro, o sobrenome da criança é, automaticamente, o sobrenome do pai. Antes da lei de 2002, no caso de os pais da criança serem casados, era excluída a hipótese de dar a ela, oficialmente, também o sobrenome da mãe. Descobri também que algumas mulheres aqui sequer sabem que quando se casam não são obrigadas a trocar o sobrenome do pai pelo sobrenome do marido. É isso mesmo, não sabem. Em formulários oficiais muitas vezes ainda se refere ao nome da mulher antes do casamento como nom de jeune fille, algo como sobrenome de moça, apesar de, em 2012, uma circular do primeiro ministro determinar que essa prática deveria desaparecer.

Quando cortei o cabelo curto, perguntaram se meu marido tinha concordado. Uma conhecida me disse que não é legal conversar com amigos homens sobre problemas sexuais dos namorados, eles podem ficar constrangidos. Problema assim só se conversa com mulher. Em uma entrevista de emprego perguntaram se eu tenho ou quero ter filhos. Outra pessoa me disse que uma amiga não usa a bomba de tirar leite materno na frente do namorado porque não é sexy. Esse mesmo namorado não cuida do próprio filho. Quando eu disse que a proibição do uso do burkini nas praias francesas era um absurdo, perguntaram se eu era a favor do véu. Disseram pro meu marido que ele precisa ter um bom emprego e ganhar muito caso ele tenha que me sustentar – e sustentar os filhos que nós provavelmente nem queremos ter. Quando eu disse a um amigo que o feminismo no Brasil parece ocupar, atualmente, um lugar muito mais importante do que o que eu tenho visto na França, ele disse: “porque aqui não tem um estupro a cada 5 segundos!”.  E olha que é só a minha experiência… a lista poderia continuar.

– Mas isso tudo aconteceria no Brasil! – diriam alguns.

– Exatamente.

A questão é que eu esperava outras reações das pessoas, outros questionamentos, uma maneira menos patriarcal de ver o mundo. Esperava porque achava que aqui alguma coisa já tinha mudado. Em tese, é isso que se espera da França… Ou não?

“Na França a igualdade entre homens e mulheres já foi conquistada”. Só que não. Começando pelos salários, as mulheres na França receberam em 2013, em média, 25% menos que os homens. Mesmo depois de comparar a idade de mulheres e homens no mercado de trabalho, trabalho de meio período, etc, restam ainda 10,5% de diferença que não encontra explicação além de pura discriminação sexista. E notem que 62,2% das mulheres assalariadas têm um diploma além do BAC (o exame de entrada no ensino superior), contra 51,7% dos homens.

No mundo empresarial, uma lei de 2011 obriga as empresas de capital aberto a ter pelo menos 40% de administradores de cada sexo. Entretanto, apenas 21 das empresas do CAC 40 respeitam a lei e só 3 têm uma mulher como presidente ou diretora geral. Apesar de serem 47,82% da população ativa, as mulheres compõem apenas 36% dos efetivos dos grandes grupos, são apenas 30% nos cargos de gerência e 11% dos diretores.  Já na imprensa, grandes jornais, como o Le Monde, o Libération ou o Le Figaro, são dirigidos por homens. No rádio, o tempo médio concedido a experts homens é de 20 minutos, contra menos de 1 minuto e meio para experts mulheres. E na academia, mesmo que elas sejam maioria no início dos cursos superiores, só 22,5% dos professores de universidades e 14,8% dos reitores são mulheres. E na política, a França nunca teve uma mulher presidente e teve uma única primeira-ministra por menos de um ano (Edith Cresson, de 15 de maio de 1991 a 2 de abril de 1992). Atualmente, as mulheres representam 26% dos deputados e 27,3% dos senadores. Pode parecer bastante quando comparado ao nosso Congresso, mas ainda está longe da igualdade.

“As mulheres vivem muito melhor na França, por isso se incomodam menos”. Em abril de 2015, um relatório do Alto Conselho pela igualdade entre homens e mulheres revelou que 100% das usuárias de transporte público viveram ao menos uma situação de assédio ou agressão sexuais. Em 2013, um estudo mostrou que 25% das mulheres entre 18 e 29 anos têm medo de andar na rua: os espaços públicos ainda são dominados por homens. E, assim como chez nous, as mulheres francesas ainda se ocupam mais dos filhos e das tarefas de casa: em 2010, 71% das tarefas parentais e 65% das tarefas domésticas foram realizadas por elas. Nas famílias heterossexuais com um filho, 28% das mulheres e 5,9% dos homens trabalham em meio período; com três filhos ou mais, 42,8% das mulheres e 6,7% dos homens.

E chegamos à violência de gênero. Em média, uma mulher é morta a cada 2,5 dias por seu companheiro ou ex-companheiro. Os autores de crimes de violência doméstica são majoritariamente homens: em 2009, 15 349 homens foram condenados por crimes ou delitos contra a companheira ou companheiro, ao passo que 452 mulheres foram condenadas pelos mesmos crimes. Em 2010, 16% das mulheres afirmaram ter sofrido estupro ou tentativa de estupro em algum momento da vida, contra 5% dos homens. E, em 2011, 13 361 homens foram acusados de ter cometido violências sexuais (destas, 6 465 estupros); as mulheres acusadas pela mesma razão foram 274 (por 112 estupros). Entre 2010 e 2012, por ano, 83 000 mulheres foram vítimas de estupro ou tentativa de estupro. Entre elas, 83% conheciam seus agressores e apenas 11% denunciaram. Esse vídeo resume tudo isso muito bem (e tem legendas em português), além de mostrar a análise de uma especialista sobre os papéis de gênero na sociedade francesa.

Mas eu morei na França e achei que era muito melhor!”. A experiência de cada um é importante, claro, mas os dados não mentem. Quero contribuir para desconstruir o mito de que nos países ocidentais a igualdade já foi alcançada e somos nós que não conseguimos chegar lá. A sociedade em que vivia Simone de Beauvoir quando escreveu seu O Segundo Sexo não mudou tanto quanto o esperado em quase 70 anos.

É importante ressaltar que foi a brasileira Bertha Lutz que lutou pra que os direitos da mulher – e não direitos do “homem” como denominação geral – entrassem textualmente na Carta das Nações Unidas, em 1945. Ela e a dominicana Minerva Bernardino foram as únicas entre as mulheres presentes na Conferência de São Francisco a defender os direitos das mulheres. Nós também pensamos e construímos a história, desde muito antes dos europeus chegarem. E hoje precisamos aprender a valorizar as nossas mulheres, as nossas boas ideias, as nossas experiências de luta feminista. É claro que modelos internacionais podem ser estudados e compreendidos, mas é importante levar em conta que a forma como a história é contada pode distorcê-la ao longo dos anos. A América Latina tem alguns dos movimentos de mulheres mais importantes do mundo. É tempo não só de continuar a fazer a nossa própria história, mas também de contá-la a partir da nossa perspectiva.

 

Notas

A maior parte das referências do texto está em francês, pois são dados oficiais do governo ou de estudos feitos na França.

*Não vejo a vida em cor-de-rosa, em português. Referência à música Je vois la vie en rose (Vejo a vida em cor-de-rosa), da célebre cantora francesa Édith Piaf.

0

Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho: o que estes dados podem fazer pelo país?

De acordo com o SINAIT (Sindicato Nacional de Auditores do Trabalho), o Brasil alcança uma média de 700 mil casos de acidentes e adoecimentos ocupacionais, dos quais 3 mil resultam em óbito e mais de 14 mil em incapacitações permanentes. Hoje, os trabalhadores terceirizados representam 80% das vítimas e adoecimentos ocupacionais, ou seja, representam 12,7 milhões de trabalhadores. A aprovação da Lei 13.429/2017 permite a terceirização irrestrita e a prestadora de serviço é a responsável sobre seus direitos trabalhistas e gestão da Saúde e Segurança do Trabalho.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em colaboração com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), lançaram o Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho com o intuito de promover o Trabalho Decente. A OIT denomina Trabalho Decente aquele que converge quatro objetivos estratégicos: liberdade sindical e reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva, eliminação de todas as formas de trabalho forçado, abolição efetiva do trabalho infantil e a eliminação de todas as formas de discriminação no emprego e ocupação.

O Observatório Digital de SST apresenta dados estatísticos de acidentes do trabalho, por exemplo, em sua página inicial há um contador de Total de Gastos da Previdência com Benefícios Acidentários, outro de Dias de Trabalho Perdidos com Afastamentos Previdenciárias, Acidentômetro (aqueles notificados com CAT) e mais um de Mortes Acidentárias Notificadas. Com a interface facilitada, a pesquisa pode ser realizada a partir das Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT) ou pelo Afastamento INSS, filtrando por estado, ano e especificações de cada caso. Os dados auxiliam no debate e na orientação de políticas públicas de prevenção a acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.

Os números altos podem assustar e o empregador pode tender a não fazer a comunicação do acidente do trabalho, talvez por desconhecer a obrigatoriedade de abertura da CAT por não considerar a ocorrência como acidente de trabalho, ou até mesmo como uma forma de “pedalar” os encargos trabalhistas que podem ser gerados. Porém, o empregador deve observar as normas básicas de saúde, higiene e segurança do trabalho, sendo a integridade física do trabalhador assegurada pela Constituição.

O objetivo do lançamento do Observatório, no dia 28 de abril, é informar, de modo a contribuir com novas iniciativas mais eficazes nas ações dos setores interessados. O futuro da plataforma é detalhar ainda mais o impacto dos acidentes e doenças para a economia, atividade produtiva e desenvolvimento humano. E, a partir dos resultados, fomentar soluções a fim de gerir a saúde e segurança do trabalhador de forma mais contundente, e não apenas relativizar a legislação e contorná-la para evitar as investigações e apuração dos dados.

Link Observatório: https://observatoriosst.mpt.mp.br/

FONTE:

Organização Internacional do Trabalho

“O massacre continua com milhares de vidas sendo ceifadas”. SINAT

 

11

Afinal, segundo os linguistas, pode tudo?

Popularmente quase não se sabe sobre Linguística. Entretanto, em todas as ocasiões em que surgiu algum debate público relativo aos usos da língua e algum linguista se pronunciou contrapondo-se à percepção de língua como algo que pode ser classificado como “certo” ou “errado”, a discussão tendeu a se tornar uma confusão cheia de acusações que pretendiam encerrar o debate desqualificando os linguistas enquanto “pessoas sem critério”, “deselegantes” e que “querem acabar com a língua”. Os linguistas seriam, de acordo com essa concepção, verdadeiros inimigos de Camões e da “verdadeira língua portuguesa”.

Apesar de ser muito acusada por leigos de ser uma propagadora do “politicamente correto”, a Linguística na verdade é uma ciência que se propõe a observar, descrever e analisar a linguagem humana.  Nesse sentido, se diferencia da doutrina gramatical tradicional porque, assim como é próprio das ciências, se preocupa especialmente com o estudo dos fatos (linguísticos, nesse caso) e não com a prescrição de normas. Desse modo, dentre outras coisas, interessa a um linguista como a língua, enquanto objeto de estudo, se desenvolve em determinados períodos de tempo, localizações e demais contextos. Embora diversas áreas da Linguística se dediquem também aos aspectos sociais referentes à produção linguística, não interessa ao linguista separar os dados linguísticos entre moralmente bons ou ruins, pois o funcionamento da linguagem é descrito a partir dos fatos linguísticos, que não são essencialmente bons ou ruins. Ou seja, a Linguística se ocupa do estudo da língua tal qual ela efetivamente ocorre e não com meras prescrições sem nenhuma base nos dados linguísticos.

A imagem simbolizando a relação entre as línguas de algumas famílias linguísticas ilustra que a mudança e variação linguística foram fundamentais para o surgimento das línguas faladas na atualidade, advindas de outras línguas.

linguistica arvore.jpeg

Fonte: The Guardian Education

Assim como um cientista que descreve o funcionamento de moléculas não deve ser guiado pelo que considera bonito, feio, elegante ou deselegante para reconhecer determinado fenômeno molecular como legítimo, um linguista deve se dedicar ao estudo do funcionamento da língua/linguagem tal qual ela acontece, de modo que apenas seria “ilegítimo” aquilo que não acontece na língua. Contudo, distintamente das moléculas invisíveis aos olhos humanos, a língua é material perceptível a todos os falantes. Todos nós desde os primeiros anos de vida estabelecemos com ela uma relação de construção da nossa identidade e emitimos opiniões sobre suas diferentes formas (chamamos na Linguística essas “opiniões” de “discurso metalinguístico”). Por outro lado, ao mesmo tempo em que reconhecemos essa relação íntima que temos com ela, alguns de nós passam a vida toda perseguindo um ideal de língua que se considera “correto”. Esse ideal se baseia, em linhas gerais, no imaginário popular proveniente das gramáticas tradicionais. Boa parte da doutrina gramatical tradicional se baseia na prescrição e não na descrição da linguagem. Dito de outra maneira, ela funciona como um guia de etiqueta que indica quais formas devem ser utilizadas, tendo por base determinado sistema de crenças que as definem como “elegantes” ou “corretas”. Além disso, parte dessas gramáticas se baseia em exemplos retirados da literatura clássica, cheia de palavras e construções gramaticais já bastante atípicas atualmente (chamamos a isso de “arcaísmo”). Nesse sentido, poderíamos dizer que ela funcionaria como um guia de etiqueta do século XIX, cheio de regras que nem nos ambientes mais eruditos da atualidade são completamente adequadas.

Justiça seja feita, hoje em dia existem diversas gramáticas normativas desenvolvidas com maior rigor e preocupação com as ciências da linguagem. Por meio de uma breve averiguada em algumas boas gramáticas contemporâneas é possível localizar discussões sobre o funcionamento das línguas e comentários sobre os diversos usos possíveis de determinadas categorias gramaticais. Desse modo, por vezes, a discussão sobre o uso “correto” ou “incorreto” da linguagem se dá em um nível tamanho de imaginação e mera reprodução de opinião que sequer se discute propriamente as gramáticas normativas mais embasadas cientificamente.

Além disso, as crenças e atitudes dos falantes a respeito da língua são sempre influenciadas por fatores políticos e ideológicos existentes na sociedade a que pertencem. No artigo “Como o brasileiro acha que fala? Desafios e propostas para a caracterização do ‘português brasileiro’”, Feitag et.al (2015) analisam diversas piadas a respeito de diferentes variedades da língua (a que popularmente nos referimos como “sotaques”) buscando compreender em que nível da gramática se encontram os elementos linguísticos identificados pelos falantes que são utilizados para caracterizar as diferentes variedades. A escolha por analisar o imaginário linguístico dos falantes por meio das piadas se deu, pois:

As piadas são […] quase sempre veículo de um discurso proibido, subterrâneo, não oficial, que não se manifestaria, talvez, através de outras formas de coleta de dados, como entrevistas. Outra face da mesma característica é que as piadas veiculam discursos não explicitados correntemente (ou, pelo menos, pouco oficiais) (POSSENTI, 1998, 26, apud FREITAG et al., 2015).

Desse modo, a análise de piadas sobre variedades linguísticas permite a observação dos traços linguísticos apresentados como modos de caracterização do grupo social (falante daquela variedade) alvo da piada. Em linhas gerais, o estudo demonstrou que diversas características linguísticas utilizadas na construção dessas representações não coincidem com aquelas sistematizadas pelos estudos de descrição linguística. Alguns exemplos de construção desses imaginários nas piadas são a caracterização da fala mineira pelas haplologias (tais como em “friozin” e “gostosin”), o que encontra respaldo em estudos descritivos, embora na realidade apenas ocorram em algumas regiões do estado de Minas Gerais. Já outros fenômenos linguísticos marcados ortograficamente na piada não são “exclusividade do falar mineiro, como a redução nos gerúndios (“contano”), o rotacismo (“carção”), vocalização (“muié), a concordância com marcas não explícitas (“as muié”) e a queda de segmento final em infinitivos (“dizê”)” (FREITAG et al., 2015, p.13). Estes fenômenos ocorrem no falar de diversas regionalidades e é presente inclusive na fala de pessoas com alto nível de escolarização.

Outro exemplo é a caracterização do falar baiano pelo uso de vocativos, como “ô mãinha”, “ô minha mãe”, “meu dengo”, “meu rei”, “meu cheiro”. No nível sintático, utiliza-se a forma imperativa para um ato de fala não declarativo, como em “traga” e o uso da posposição da negação, como “foi não”, “percebeu não”, “diz não”. No entanto, estes traços ocorrem no falar da região nordeste como um todo e não enquanto uma característica particular do falar da Bahia (GORSKI e COELHO 2010, 77, apud FREITAG et al., 2015.

Estudos como esse são de fundamental importância para evidenciar como atitudes e julgamentos linguísticos atuam na construção das noções de língua e identidade, demonstrando que valores de diferentes naturezas constituem a compreensão do falante a respeito das variedades linguísticas. Dessa forma, respondendo à pergunta do título do texto, não. Segundo os linguistas, não pode tudo. O que linguistas fazem é descrever como a língua existe e essa existência está necessariamente condicionada ao uso dos falantes. A língua é muito mais complexa do que as noções de “certo” ou “errado” e o processo de mudança linguística só se encerra quando os falantes deixam de existir e essa língua se torna, consequentemente, uma língua morta. Quando um linguista diz que determinada maneira de se falar não está incorreta, ele não está dizendo que todos devem agora falar daquela forma, mas sim que aquela é apenas mais uma maneira de se falar existente que é suportada pela estrutura da língua e não carrega nada em si que a torne mais ou menos correta, mas sim mais ou menos adequada a depender do contexto de uso.

Referências

BAGNO, M.; LAGARES, C. X. Políticas da norma e conflitos linguísticos. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

CORTEZ, S.; XAVIER, C., X. (Orgs). Conversas com linguistas: virtudes e controvérsias da Linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

FREITAG, R. M. K.; SEVERO, C. G; ROST-SCHINHELOTTO; C. A.; TAVARES, M. A. Como o brasileiro acha que fala? Desafios e propostas para a caracterização do “português brasileiro”. Signo y Seña, número 28, dezembro de 2015, pp. 65-87. Disponível em: <http://revistas.filo.uba.ar/index.php/sys/article/view/263/228>. Acesso em: 5 maio 2017.

0

Reação em cadeia: como o comportamento humano pode influenciar a evolução em outras espécies.

Quando falamos de evolução humana frequentemente pensamos nas mudanças sociais pelas quais os hominídeos passaram até os dias atuais. Essas mudanças foram balizadas por novidades e descobertas, das quais lembramos principalmente do uso de ferramentas, do cultivo e da domesticação de animais. Mas será que foi só até aí que a evolução humana teve reflexo? É razoável se pensar que o raio de ação do comportamento humano pode ser muito mais amplo do que formas de vida diretamente ligadas a elas, com consequências nem sempre triviais.

            Está difícil imaginar? Vamos a um exemplo muito rápido: com a seleção sexual, machos de algumas espécies desenvolveram um tipo de exibição: Partes com crescimento alométrico (em que partes corporais tem um crescimento mais acentuado do que o restante do corpo), como é o caso de chifres em alces e outros cervídeos (Corças, Renas e Veados). Veja, para esses animais, quanto maior o chifre exibido, maior a chance de conseguir uma fêmea, se reproduzir e deixar descendentes portando seus genes. No entanto, com a difusão da caça pela espécie humana, a pressão seletiva foi direcionada para que esses chifres ficassem cada vez menores, uma vez que os maiores eram facilmente visualizados numa campina, além de serem troféus melhores para caçadores. Assim, machos com chifres maiores eram mais caçados, sobrando os genes dos menores chifres para os descendentes da população.

            Pensando nessa e em outras características afetadas por impactos causados por hominídeos, Alexis Sullivan, pesquisadora da Universidade da Pennsylvania, com a ajuda de outros dois colaboradores, compilou o que chamaram de “características evolutivas influenciadas por humanos” direta ou indiretamente, através da revisão de diversos artigos que apontavam atividades humanas como fortes influenciadoras de mudanças em características morfológicas de espécies silvestres. Para esse agrupamento de artigos, foram consideradas nove categorias relativas ao tipo de influência humana: coleta de troféus (chifres, cristas e sabres para decoração, por exemplo), animais capturados com rede ou armadilhas, animais impactados por modificação de habitat, animais passíveis de pesca, animais caçados, organismos atingidos por translocação (do habitat natural para outro habitat), colheita de plantas, colheita de invertebrados e animais e plantas atingidos por defaunação.

            Os exemplos selecionados para demonstrar a influência humana incluem invertebrados marinhos comestíveis (Lagostas, mexilhões), o elefante africano pelo marfim de suas presas, entre outros animais de consumo ou impactados por atividade indireta. O que mais chama atenção, na realidade, é o curto espaço de tempo necessário para a ocorrência de modificações extremamente importantes: a massa corporal média dos peixes salmão e bodião-da-califórnia, por exemplo, sofreu um decréscimo de 26% e 41%, respectivamente, em menos de trinta anos.

            Além de apresentar características fenotípicas e comportamentais interessantes, o estudo levanta um ponto muito importante sobre a relação entre ciência e medidas ambientais. A relação do homem com o meio em que vive ultrapassa níveis rasos de influência e deve ser abordada como uma rede complexa, e não como uma relação bilateral de simples causa e consequência. Daí a importância de conhecimento e corpo técnico para evitar resultados catastróficos da ação desenfreada dos homens sobre a natureza.

            O artigo, em formato de revisão, foi publicado por uma divisão da revista Nature e é 100% open access* (olha que legal!), traz inúmeras referências de casos como esses e ótimas reflexões.

* Artigos liberados para leitura sem pagamento para assinatura da revista.

Referência:

Sullivan, Alexis P., Douglas W. Bird, and George H. Perry. “Human behaviour as a long-term ecological driver of non-human evolution.” Nature Ecology & Evolution 1 (2017): 0065.

Pode ser acessado aqui: http://www.nature.com/articles/s41559-016-0065

0

O que faz nos seus tempos livres? Trabalho invisível e não remunerado.

A mulher trabalha a tempo inteiro – cerca de 8h35m por dia – chega a casa, e de imediato assume funções na segunda jornada laboral como sócia-fundadora e Directora Geral da empresa Família & Lar. A este seu segundo ofício dedica mais 6h12m, reservando 3h06m para prestar cuidados a crianças ou outros membros da família e 3h06m em tarefas domésticas. O seu sócio, homem de barba rija, igualmente fundador, trabalha também a tempo inteiro – cerca de 9h02m – mas, no que diz respeito à Família & Lar, que os dois fundaram, dedica-lhe apenas 4h08m, sendo que 1h54m destina-se às tarefas domésticas e 2h14m à prestação de cuidados a crianças ou outros membros familiares. Fazendo contas, o homem dedica menos 2h04m a este projecto que ambos construíram e ainda escolhe as tarefas: faz compras, paga contas, resolve questões de seguros e faz reparações domésticas, enquanto a mulher limpa a casa, prepara refeições, cuida da roupa e assegura o bem-estar de todas as crianças, principalmente nos primeiros meses de vida. É natural, não é? Afinal, ela é que é a Directora Geral e principal responsável pela produção do trabalho doméstico, apesar de nunca ninguém lhe ter perguntado se ambicionava esse cargo, que conseguiu única e simplesmente porque nasceu mulher, e que a obriga a trabalhar (somando as horas dos seus dois trabalhos), por dia, mais 1h13m do que os homens e a não ter tempo para fazer as coisas que realmente gosta, como ler um bom livro, ver um belo de um filme ou simplesmente ficar de papo para o ar. [1, 2 ]

O direito à igualdade entre homens e mulheres, que tantas organizações nacionais e internacionais já defendem é, mais uma vez, alienado. A igualdade no espaço público só é possível com a igualdade no espaço privado. Basta pensar que o trabalho de âmbito público é remunerado e o trabalho de âmbito privado não o é, pelo que a discrepância na distribuição de trabalho a que se faz referência, condiciona oportunidades, rendimentos e poderes. Então, porque é que é que as mulheres não fazem como os homens? Porque é que quando tiveram acesso ao mercado de trabalho não abandonaram as tarefas domésticas? Porque só as privilegiadas o podem fazer. E, quando essas o fazem, têm que pagar a outras mulheres para que estas façam todas as tarefas que deixaram por fazer, porque têm que ser feitas. Mulheres que assumem o cargo de empregadas domésticas na Família & Lar das outras e outros e quando chegam às suas casas, têm uma média de 6 horas no cargo de Directora Geral e principal responsável pela produção do trabalho doméstico para cumprir na sua própria Família & Lar, cargo que afinal, lhes é “natural e inato”. Uma roda gigante que apanha sempre mulheres, por muito que elas queiram resistir. Na realidade, esta sociedade patriarcal capitalista, por um lado, pouco ou nada fez e/ou faz para educar os homens, retirando do seu vocabulário a palavra “ajudar” sempre que o assunto é trabalho doméstico, substituindo-a por “divisão de tarefas”; por outro, nunca se esforçou para dar visibilidade ao trabalho doméstico, que não se inserindo na economia de produção, faz parte de uma “economia do cuidado” que, no fundo, é a peça imprescindível da economia de produção. Confusas e confusos? Não têm que estar, pensem: como poderiam ir para o mundo do trabalho produzir os bens e serviços que tanta falta fazem ao capitalismo, se não houvesse alguém que tratasse da vossa roupa, da vossa alimentação, da limpeza do lugar onde descansam e acima de tudo, da educação, saúde e segurança dos vossos filhos? Seria muito difícil, para não dizer impossível, por isso é que se defende a necessidade premente de atribuir um valor económico ao trabalho doméstico que conste nos cálculos do PIB, que além do mais, é a única forma de garantir dados estatísticos reais da economia de um país. Falar em direitos das trabalhadoras domésticas é quimérico: como este trabalho é invisível, finge-se que não existe ou que não é trabalho, mas sim actividades recreativas e prazerosas que todas as mulheres fazem sem lhes custar nada, o que é excelente e dá imenso jeito, porque assim vai-se adiando a discussão dos direitos laborais, tais como protecção na doença e acidentes de trabalho e contagem do tempo para efeitos de reforma. [3, 4]

Sair para a rua para reivindicar todos estes direitos e uma remuneração justa para, pelo menos, aquelas mulheres que apenas trabalham nas suas próprias casas e por isso se encontram dependentes dos companheiros, vai levar mais uma vez a que sejamos apelidadas de “loucas”, “exageradas”, “radicais” e “desequilibradas que nunca se encontram satisfeitas e que só estão bem a fazer exigências para chamar a atenção”. Já estamos habituadas! Foi assim com todos os outros direitos conquistados até aos dias de hoje. Nunca nada nos foi dado de bandeja, nem sequer uma maçã nos Jardins do Éden.

[1] Nota: Os dados sobre o número de horas dedicados ao trabalho referem-se a Portugal.

[2] http://www.cesis.org/admin/modulo_projects/upload/files/inut_livro.pdf

[3] http://mercedesdalessandro.com/noesamor/

[4]http://www.cesis.org/admin/modulo_projects/upload/files/conferencia_final_do_projeto_inut-conclusoes_recomendacoes.pdf

6

Entenda a nova arma da engenharia genética: CRISPR/Cas9 e a polêmica envolvida

Imagina poder “consertar” doenças genéticas, editando o DNA? O que era um sonho da engenharia genética, hoje é realidade.

Apontado pelos pesquisadores especializados em terapia gênica como o substituto de diversas nanoparticulas para a entrega de gene, o CRISPR/Cas9 permite que genomas sejam modificados com uma precisão nunca antes atingida, além de eficiência. Testes com o CRISPR/Cas9 criaram macacos com mutações programadas e também evitaram infecção do HIV em células humanas. Cientistas chineses já afirmaram que aplicaram a técnica em embriões humanos, e observaram que o CRISPR/Cas9 tem capacidade de curar diversas doenças genéticas, tornando bebês a lá “X-men”. Embora ainda as pesquisas envolvendo o CRISPR/Cas9 estejam em fase de teste, resultados preliminares são apontados como o uma esperança para a entrega efetiva de DNAs específicos para as células.

Mas afinal, como funciona o CRISPR/Cas9?

O CRISPR é na verdade um mecanismo de defesa antigo e natural encontrado em diversas bactérias. Esse mecanismo foi descoberto nos meados dos anos 80’s., quando os cientistas, observando o comportamento de bactérias notaram um padrão diferente em alguns dos seus genomas. Uma sequência de DNA poderia ser repetida diversas vezes, com sequências únicas entre as repetições. Essa configuração foi chamada de Clustered Rgularly Interspeced Short Palindromic Repeats (CRISPR) ou em português “agrupados de curtas repetições palindrômicas regularmente interespaçadas.

Juntamente com esse mecanismo de defesa, há um conjunto de enzimas chamadas Cas9 (proteínas associadas à CRISPR), que podem “cortar” precisamente o DNA e eliminar possíveis vírus invasores. Estrategicamente, os genes que codificam para o Cas9 são sempre os que estão próximos às sequências CRISPR. Em outras palavras a enzima Ca9, devidamente manipulada, cortam as bases nitrogenadas de interesse presentes no DNA. Obtendo DNAs específicos e compatíveis para diversas doenças genéticas, consertando erros presentes no genoma.

E a polêmica?

Como toda a técnica revolucionária, a descoberta envolve muito dinheiro e indicação ao prêmio Nobel, além de briga entre grandes universidades. De um lado, estão duas mulheres: a microbiologista Emmanuelle Charpentier, do Instituto Max Planck de Berlim; e a bioquímica Jennifer Doudna, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos. Do outro, está Feng Zhang, do Instituto Broad (também dos Estados Unidos), um órgão de pesquisa ligado à Universidade de Harvard e ao MIT . Os três reivindicam a autoria da patente do CRISPR/Cas9.

A primeira publicação do CRISPR\Cas9 foi das pesquisadoras na revista Science em 2012, que inventaram a técnica de “edição do genoma”, um processo que despertou grandes esperanças. No entanto, a publicação falava a apenas da técnica utilizada em organismos procariotos como bactérias. Foi o trabalho de Feng Zhang, que explorou o uso da técnica em organismos eucariotos – células humanas – dando um grande salto na pesquisa. Recentemente, a justiça americana deu parecer favorável a Feng Zhang, afirmando que o trabalho das pesquisadoras era limitado ao organismo simples, enquanto o trabalho de Feng expandiu o uso e a aplicabilidade da técnica.

Independente do parecer é notável que o CRISPR\Cas9 seja talvez uma das grandes descobertas dos anos 2000, inspirando novas pesquisas e avanços na área genômica.

Link para entender melhor o processo do CRISPR\Cas9.

“Genome editing with CRISPR\Cas9”. Youtube. (inglês)

Fontes:

“Chinês ganha batalha por patente de técnica inovadora de edição genética”. Porta de notícias G1.

Nature Special on CRISPR. Nature. (inglês)