Mexeu com uma, mexeu com todas!

“Outra vez na rua!”, ouviu-se da boca de um “varão assinalado” quando começamos a ocupar a Praça dos Leões, no Porto. Sim, outra vez e todas as vezes que forem necessárias até conseguirmos um espaço público seguro, porque a rua também é nossa. A prova disso é que quando o Colectivo Feminista do Porto e a rede de activistas Parar o machismo, Construir a igualdade lançaram o repto “Mexeu com uma, mexeu com todas” num evento criado nas redes sociais para protestar contra a cultura da violação (no dia de ontem, 25 de Maio), juntaram-se logo mais quatro cidades (Lisboa, Braga, Coimbra e Faro) e mais de quarenta associações, como a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, as Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia, a AEFLUP – Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e o blog Cientistas Feministas [1,2,3,4,5].

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Concentração em Coimbra. Foto: Marcela Uchôa

Em Portugal, este é um assunto que se encontra na ordem do dia, porque durante a Queima das Fitas no Porto [6], dentro de um autocarro, foi captado um vídeo que evidencia um abuso sexual sobre uma jovem. Esse vídeo foi divulgado em várias redes sociais e até meios de comunicação social, sem o conhecimento e consentimento da vitima. Tal como foi defendido pela organização do evento, no manifesto que apresentou, essa cultura da violação “ao invés de defender e proteger as vítimas, culpabiliza-as, trazendo para a discussão a forma como as mulheres se vestem, os locais que frequentam, as horas a que o abuso ocorre e o estado de lucidez da vítima e/ou do agressor como argumentos aceitáveis para o desagravo de um comportamento que é crime. Esta cultura tolhe a liberdade das mulheres, porque faz recair sobre elas a responsabilidade de não serem agredidas.”

Foi para dizer um “Basta!” a esse status quo que ontem saímos às ruas e ocupamos as praças de cinco cidades. Foi para transmitir mensagens, por um lado, de sororidade (“Por mim, por ti, por nós e pelas outras”, “Uma por todas e todas por nós” e “ReSister”) e, por outro, de revolta (“Não é não!”, “A tua mão no meu cu, o meu punho na tua cara!” ou “Nem mais uma!”)

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Concentração no Porto. Foto: Helena Ferreira

Para Sara Leão, do Colectivo Feminista do Porto, essas acções são importantes porque “é preciso visibilizar a gravidade e inadmissibilidade desta cultura da violação: a normalização do assédio de rua, a culpabilização das mulheres pelas agressões de que são alvo, a desresponsabilização das instituições”. E acrescenta que “ainda há tanto, tanto para fazer e onde actuar. É preciso que as mulheres tomem o espaço público, se auto-organizem, se façam ouvir e juntas construam um espaço mais seguro e mais solidário”.

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Concentração no Porto. Foto: Nuno Fangueiro

Andrea Peniche, da rede de activistas Parar o machismo, Construir a igualdade, defende que, apesar de tudo, a sociedade machista portuguesa “felizmente, está a mudar. E acho que está a mudar precisamente porque cada vez se cala menos, cada vez se aceita menos e, cada vez mais, nós transformamos a rua em espaço de reivindicação e de conquistas”. Conforme defende a Andrea, o sentido da mobilização e do combate quotidiano é transformar a sociedade. Ela reitera: “Eu não quero isto para o meu filho, não quero isto para as filhas dos outros e lamento que a geração da minha mãe tenha passado por tudo isto. Na minha geração já é diferente e, com franqueza, espero que a próxima geração seja uma geração mais livre do que a minha”. [7]

Aida Suárez Gutierrez, do Colectivo Feminista do Porto, explica que é necessário clarificar que “não saímos à rua por um acto isolado, como se ouve pelas esquinas quando ocupamos as ruas. Não saímos à rua por capricho, como comentam desvalorizando a nossa voz quando gritamos bem alto no coração de cinco cidades.” Até porque segundo esta activista “actos isolados temos todos os dias e só não vê quem não quer ver e é por acontecerem todos os dias que esta é a terceira vez que as mulheres ocupam as ruas, ocupam espaço público, exigindo que seja um espaço seguro e livre”.

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Concentração em Lisboa. Foto: Daniel Cardoso

E termina reiterando que “não queremos um mundo onde alienar estes direitos seja normalizado e legitimado, não queremos uma sociedade onde nos são pedidas explicações quando reivindicamos os nossos direitos, não queremos uma sociedade onde nos responsabilizam quando o namorado nos agride psicologicamente, quando o marido nos bate e nos mata, quando o patrão nos ameaça com despedir-nos se não vamos para a cama com ele, quando um homem (conhecido ou não) acha que nos pode violar porque estamos a dançar, beber uns copos e divertir-nos numa festa à noite, quando responsabilizam a mãe porque o filho é um machista, quando desconhecidos fazem comentários desagradáveis por caminharmos pela rua seguras e de saia curta. É por estes e por todos os actos isolados de violência e discriminação machista que saímos à rua hoje e sempre que seja necessário”.

Mexeu com uma, mexeu com todas!

[1] https://www.facebook.com/events/1369724763082841/

[2] https://www.facebook.com/events/1317753578342672/

[3] https://www.facebook.com/events/1360704530681446/

[4]https://www.facebook.com/events/130725790816089/?acontext=%7B%22action_history%22%3A%22null%22%7D

[5]https://www.facebook.com/events/821130118036399/?acontext=%7B%22ref%22%3A%223%22%2C%22ref_newsfeed_story_type%22%3A%22regular%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D

[6] Festa de fim de curso dos estudantes universitários.

[7] https://www.facebook.com/antena1/videos/10155075524060659/

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