Vírus, bactérias e Chuck Norris: O que eles tem em comum?

     Resistir ao tempo e a condições adversas são habilidades de diversos vírus e bactérias (e Chuck Norris, claro. No caso é o tempo que resiste a ele). Alguns desses micro-organismos são resistentes ao congelamento, calor, seca, falta de nutrientes, etc. O que acontece quando esses micro-organismos são reativados? No caso da península siberiana de Yamal, uma bactéria reativada causou uma epidemia de Anthrax. Em 2016, um garoto de 12 anos morreu e mais de 20 pessoas foram hospitalizadas infectadas pela bactéria. A doença era considerada erradicada e há 75 anos não haviam casos de Anthrax registrados na região.

O que pode ter acontecido?

     A bactéria responsável pelo Anthrax, Bacillus anthracis, é capaz de formar endósporos (estrutura de algumas bactérias que proporcionam resistência e sobrevivência em meio a algum stress ambiental como frio ou calor excessivos, falta de nutrientes ou água, por exemplo), podendo ficar inerte por anos. Como os endósporos geralmente ficam no solo é comum que animais herbívoros ingiram esses esporos e, dessa maneira, forneçam um ambiente propício para a bactéria continuar seu ciclo de desenvolvimento. Depois que o endósporo é ingerido, o B. anthracis sai do período de latência, se multiplica e acaba causando a morte do animal. Nesse momento, a bactéria pode formar mais endósporos ou, caso as condições estejam favoráveis, infectar outros animais, inclusive o homem. Então, uma possível explicação para o que aconteceu em Yamal é que, em 2016, com a forte onda de calor que assolou a região, com temperaturas chegando a 35ºC, parte do solo, permanentemente congelado, descongelou, expondo animais mortos, principalmente renas (animais herbívoros que são a principal fonte de renda da região).  Possivelmente, há mais de 75 anos, uma dessas renas morreu infectada por Anthrax e ficou congelada no solo até o verão de 2016. A bactéria formou endósporos para resistir ao congelamento e, quando as condições se tornaram favoráveis novamente, ela pode se multiplicar e acabou por infectar uma parcela da população de Yamal.

Não são casos isolados

     Talvez você ache incrível que um organismo consiga resistir por quase 100 anos latente e após todo esse tempo continuar o seu ciclo. É realmente incrível, mas acreditem: 100 anos é relativamente pouco tempo para vírus e bactérias permanecerem em estado letárgico. Em 2014, Matthieu Legendre, pesquisador da Universidade Aix-Marseille na França, e colaboradores conseguiram reativar um vírus congelado há mais de 30 mil anos e, em 2007, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova Jersey e da Universidade de Boston obtiveram resultados positivos em testes de atividade metabólica de micro-organismos congelados em camadas de gelo datadas de 100 mil até oito milhões de anos atrás.

     Existem ainda outros exemplos de viabilidade de micro-organismos “adormecidos” não só no gelo, mas em diversos outros ambientes. Em 2017, Penelope Boston, astrobióloga da NASA, conseguiu reativar micro-organismos enclausurados dentro de cristais formados em uma caverna no México entre 50 mil e 10 mil anos atrás. O mais interessante é que o material genético dos organismos que ela analisou não era relacionado a nenhum outro organismo encontrado em bases de dados científicas. No final de 2016, pesquisadores do Canadá e Estados Unidos publicaram um artigo mostrando o resistoma (coleção de genes de resistência a antibióticos) de uma bactéria encontrada numa caverna no Novo México. Essa caverna e, consequentemente, os micro-organismos encontrados nela, estavam isolados da superfície há quatro milhões de anos. A bactéria em questão, Paenibacillus sp. LC231, mostrou resistência a 26 dos 40 antibióticos testados, incluindo um dos mais novos antibióticos utilizados para infecções resistentes, a daptomicina (nome comercial Cubicin®).

     Diante dos fatos expostos, surgem algumas perguntas: o que aconteceria se organismos desconhecidos entrassem em contato com nosso sistema imunológico? E se antigas bactérias super-resistentes conseguissem transferir os genes de resistência a outras bactérias? E se, simplesmente, esses organismos depois de um longo período ficassem viáveis e aptos a causar infecções e doenças novamente, trazendo epidemias consideradas erradicadas? Certamente essas são algumas questões que podem causar preocupação, mas há muito mais por trás desses estudos. Por exemplo, como uma bactéria que não tem contato com a superfície há quatro milhões de anos poderia apresentar tamanha resistência a antibióticos utilizados hoje em dia? Segundo os pesquisadores, os genes de resistência estavam inseridos no cromossomo da bactéria analisada e não havia sinais de inserções novas de elementos móveis, o que indica que esses genes estão ali há muito tempo. Através de análise filogenética, eles chegaram à conclusão que o fenótipo de resistência a diversas drogas é nativo do gênero Paenibacillus, que incluem uma gama de bactérias que vão desde as patogênicas até as fixadoras de nitrogênio. Possivelmente os mecanismos de resistência desse gênero se desenvolveram por acaso ou para combater inimigos naturais (e não os modernos antibióticos) há mais de quatro milhões de anos.

     A busca e descoberta de organismos extremófilos e altamente resistentes nos traz uma série de informações que podem ser utilizadas em diversas áreas, como meio ambiente (como o caso da onda de calor causada pelo aquecimento global em Yamal) e até astrobiologia, por exemplo. Para Penelope Boston, astrobióloga da NASA, o descobrimento de seres capazes de sobreviver em ambientes, no mínimo, inóspitos reforça a hipótese de que a vida pode não ter começado na Terra, já que alguns desses organismos sobrevivem a ambientes semelhantes aos encontrados em outros planetas e luas.

 

Referências:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s