Soldados negros no Caribe inglês

     Faz tempo que historiadores dos impérios espanhol e francês nas Américas escrevem sobre a participação de afrodescendentes nos exércitos coloniais. Sabe-se, por exemplo, que os espanhóis fomentaram milícias de “pardos y morenos” em várias de suas colônias, notadamente nas do Caribe, onde a população afrodescendente era expressiva. Igualmente, nas colônias francesas, homens livres de cor compunham a quase totalidade da polícia e exército coloniais. Durante as guerras de independência na América espanhola, homens escravizados foram recrutados tanto por revolucionários quanto por monarquistas para lutarem, em um e outro lado dos confrontos, em troca de liberdade. Também no império do Brasil a liberdade a escravos e a indenização a seus antigos senhores foi utilizada como tática para arregimentar homens para lutar na Guerra do Paraguai. [i] Já para o caso do império britânico, pouco ou quase nada se tinha escrito sobre o assunto – até agora.

     No artigo “‘Of equal or of more service’: black soldiers and the British Empire in the mid-eighteenth-century Caribbean”, publicado em novembro último na revista Slavery & Abolition, Maria Alessandra Bollettino oferece uma análise detalhada acerca da participação de afrodescendentes—escravizados, libertos e livres—no exército colonial britânico durante as guerras caribenhas do século XVIII.[ii] Mais especificamente, Bollettino examina dois conflitos que tiveram lugar na primeira metade do século XVIII: a Guerra da Orelha de Jenkins (1739-1748) e a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), para provar que, desde o início dos setecentos, colonos ingleses no Caribe reconheceram as vantagens em utilizar soldados negros em suas empreitadas imperiais. A maior parte dos estudiosos acreditava que os colonos ingleses das ilhas caribenhas eram mais céticos do que os espanhóis, franceses e portugueses quando se tratava de armar a população escravizada; a narrativa dominante era que, antes das revoluções Estadunidense e Francesa—portanto, antes dos anos 1770—, os britânicos apenas armaram a população afrodescendente em momentos críticos e emergenciais.

     Segundo a autora, esse consenso historiográfico deriva de uma interpretação equivocada que adotou a visão dos senhores de escravos do que viria a ser o Sul dos Estados Unidos e, de forma acrítica, a trasladou para o resto do império britânico. Esses senhores eram notadamente contrários à ideia de armar escravos, a quem descreviam como inimigos internos, e, segundo Bollettino, essa retórica foi utilizada por outros historiadores no passado para explicar a ausência de milícias organizadas nas colônias inglesas de modo geral, tanto na América do Norte quanto no Caribe, o que contrastava com as espanholas e francesas, nas quais, conforme se mencionou acima, milícias e tropas regulares compostas por afrodescendentes eram mais a norma do que a exceção.

    Utilizando diários de oficiais militares e correspondência de governadores e secretários de estado, a pesquisadora narra como os britânicos reconheceram a necessidade de engrossar seu contingente com soldados negros ao serem confrontados com derrotas para rivais franceses e espanhóis que utilizavam não-brancos em suas forças defensivas. Em campanhas importantes durante a Guerra da Orelha de Jenkins, tais como as ofensivas contra a Martinica (francesa) e Cartagena (espanhola), as tropas tradicionais inglesas saíram perdendo. Gradualmente, tanto pelo número escasso de soldados brancos, quanto pelo “aprendizado” adquirido nesses confrontos, oficiais ingleses começaram a recrutar afrodescendentes livres ou libertos, e os governantes passaram a solicitar que senhores cedessem ou emprestassem seus escravos para batalhas. Já durante a Guerra dos Sete Anos, soldados negros foram essenciais para o sucesso de campanhas importantes, como a ocupação e conquista de Havana em 1762.[iii]

     A pesquisa revela que, ao contrário do que a historiografia pressupunha, governantes e súditos britânicos não evitaram que a população afrodescendente pegasse em armas antes da segunda metade do século XVIII. Pelo contrário, os resultados apontam para o reconhecimento da utilidade e importância de armar essa população para o sucesso das guerras imperiais que dominaram o início dos setecentos. E revela, inclusive, um esforço deliberado para fazê-lo. Consequentemente, Bollettino desaconselha tomar a opinião de um grupo específico de súditos escravistas ingleses (no caso, senhores da Virgínia e da Carolina do Sul) como representativa dos senhores ingleses no império de modo geral. Aliás, a historiadora conclui que um ajuste espacial e temporal faz-se necessário para entender a incorporação de afrodescendentes nas tropas coloniais britânicas: olhar para o Caribe da primeira metade do século XVIII, e não para a Guerra de Independência Estadunidense na segunda metade do mesmo.

Referências:

[i]Para o caso espanhol, veja-se: Jane Landers, “Transforming Bondsmen into Vassals: Arming Slaves in Colonial Spanish America”, in: Christopher L. Brown, Philip D. Morgan (eds.) Arming Slaves from Classical Times to the Modern Age. New Haven: Yale University Press, 2006; Ben Vinson, Bearing Arms for His Majesty: The Free-Colored Militia in Colonial Mexico. Stanford: Stanford University Press, 2002; BLANCHARD, Peter. Under the Flags of Freedom: slave soldiers and the wars of independence in Spanish South America. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2008.   Para o caso francês: DUBOIS, Laurent. “Citizen Soldiers: Emancipation and Military Service in the Revolutionary French Caribbean”. IN: Arming Slaves from Classical Times to the Modern Age; GARRIGUS, John, Before Haiti: Race and Citizenship in French Saint Domingue. New York: Palgrave Macmillan, 2006. Para o império do Brasil: SALLES, Ricardo, Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; MOREIRA, Paulo Roberto Moreira, Voluntários Negros da Pátria: O recrutamento de escravos e libertos na Guerra do Paraguai. In: POSSAMAI, Paulo Cesar. Gente de guerra e fronteira. Pelotas: Aires, UFPEL, 2010; Maria Odila Silva Dias, André Rebouças Diário. A Guerra do Paraguai (1866). São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros da USP, 1973.

[ii]Maria Alessandra Bollettino (2016): “‘Of equal or of more service’: black soldiers and the British Empire in the mid-eighteenth-century Caribbean”. IN: Slavery & Abolition, 2016. DOI: 10.1080/0144039X.2016.1251057 Última consulta em 18/abril/2017.

[iii]Sobre a ocupação inglesa de Havana, veja-se também: PARCERO TORRE, Celia. La pérdida de La Habana y las reformas borbónicas en Cuba (1760-1773). Valladolid: Consejería de Educación y Cultura, 1998; HART, Francis R. The Siege of Havana, 1762. Cranbury: Scholar’s Bookshelf, 2005; VÁZQUEZ CIENFUEGOS, Sigfrido. “La Habana británica: Once meses claves em la historia de Cuba.” IN: MARTÍN ACOSTA, Emelina; PARCERO TORRE, Celia; SAGARRA GAMAZO, Adelaida, (Coords), Metodología y nuevas líneas de investigación de la Historia de América. Universidad de Burgos, 2001, pp. 131-147. Disponível online em: http://digital.csic.es/bitstream/10261/18230/1/La%20Habana%20Brit%C3%A1nica.pdf

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s