A Rainha do Carbono: um conto de fadas de luta e sororidade

No dia 20 de fevereiro de 2017 Mildred Dresselhaus respirou pela última vez na superfície do nosso planeta. Ela, conhecida como “rainha do carbono”, morreu aos 86 anos ao lado da família, na cidade de Boston. Mas nesse texto não quero lamentar a morte e sim celebrar a vida e a carreira dessa deusa maravilhosa.

“Mildred S. Dresselhaus, célebre e amada professora do MIT, cuja pesquisa ajudou a desvendar os mistérios do carbono, o mais fundamental dos elementos orgânicos – que lhe valeu o apelido de “rainha da ciência do carbono” – morreu aos 86 anos.”

– Massachusetts Institute of Technology (MIT) News

Tudo começou há um tempo atrás, na ilha do sol no Bronx

Eu poderia começar essa parte com “Mildred nasceu em 1930 no Bronx em Nova Iorque. Era filha de imigrantes poloneses que viajaram para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades” mas eu vou começar com: não estava sendo fácil pra nossa princesa.

Em 1930 o bicho estava pegando MESMO nos Estados Unidos porque era o início da Grande Depressão. E nossa heroína não começou a vida estudando em grandes escolas, ok? Ela estudou em escolas simples, de bairro mesmo, talvez com pichações de “Mary, I love you” de corretivo branco nas paredes do banheiro (só que em 1940 ainda não existia corretivo. O corretivo líquido foi inventado em 1951 por uma secretária norte americana chamada Bette Graham que não curtia muito aquele negócio de lápis-borracha).

O irmão de Mildred recebeu uma bolsa de estudos para uma escola de música e ela pensou  “O QUÊ?! Como assim ele vai estudar mais que eu?!”. Aí ela estudou muito e conseguiu uma bolsa de estudos aos 13 anos na “Hunter College High School for girls” que era, como dizemos hoje em dia, TOP. Faustop talvez. Topster, eu diria.

livro do ano

Livro do ano de Mildred Spiewak: 
Qualquer equação ela pode solucionar
Todos os problemas ela pode resolver
Mildred iguala cérebro e diversão
Em matemática e ciência, ela é inigualável
(uma querida, né? Queria que ela fosse minha amiga)

Ela estudava muito, muito mesmo. Dava aulas particulares para as alunas ricas, etc. Mas vocês imaginem que, se em 2017 a gente tem que enfrentar esse mar de chorume, em meados dos anos 1940 a vida de uma moça pobre e imigrante não era fácil. Os professores falaram com Mildred “nossa, você é tão inteligente, se continuar assim pode ATÉ conseguir trabalhar como secretária”. Aí vai chover hater aqui falando que eu tenho alguma coisa contra o emprego de secretária e não é o caso. A questão é que Mildred queria seguir uma carreira diferente, uma carreira na ciência. E se isso é difícil de imaginar pra muitas meninas até hoje… Imagina naquela época.

                Mas como todas as princesas têm uma fada madrinha, a nossa não poderia ser diferente.  E nessa história a fada madrinha era ninguém menos que Rosalyn Yalow, ganhadora do Nobel de Fisiologia e Medicina pelo desenvolvimento da técnica de radioimunoensaio. E o vestido de baile era um jaleco. E os sapatinhos de cristal eram luvas de segurança. E vocês já entenderam a analogia. Rosalyn, que era física e estudava fenômenos da área médica, percebeu que Mildred era muito talentosa e a incentivou a continuar seus estudos.

Rosalyn Yalow

Rosalyn Yalow torcendo pra nada explodir no laboratório, como todas nós.

(Sabe quando o filme passa um pouco rápido para contar o desenvolvimento da história e não cansar ninguém? Chegou esse momento.)

Mildred se formou em 1951 na Universidade de Hunter com as honras as mais altas possíveis e passou um ano estudando na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

(Aqui vocês imaginem ela bem sorridente com um lenço bonito no pescoço descendo de um avião com óculos de gatinha)

Voltou aos Estados Unidos depois de alguns anos para ganhar seu grau de mestre na Faculdade de Radcliffe em Cambridge, Massachusetts em 1953. Em 1958 obteve seu doutorado Na Universidade de Chicago, Illinois.

(Nessa parte vocês imaginem aí Mildred recebendo diploma atrás de diploma com umas vestes de honra)

Foi no seu doutorado que começou sua pesquisa com supercondutores, um tópico quente na física em Illinois . Essa escolha a conduziu a seu encontro com o físico Gene Dresselhaus, com quem casou em 1958.

(Nessa parte pensem em Mildred trombando com um rapaz alto de óculos nos corredores da universidade e seus livros caindo no chão, ele a ajuda a recolher os livros e eles sorriem um para o outro)

Mas, infelizmente, o chorume dessa história não acabou lá em 1945.

Dois anos depois do casamento, Mildred e Gene foram trabalhar no Laboratório Lincoln do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).  Esse instituto era horrorosamente dominado por homens que achavam que Mildred não ia dar conta do recado. Dessa forma ela acabou estudando um novo campo, a magneto-óptica, em vez de seguir a multidão que investigava os semicondutores. Mildred começou a estudar o – menos competitivo – grafite.

Se você não pode lutar contra eles, faça uma pesquisa muito mais relevante que a deles.

Alguém falou uma vez que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, vocês podem procurar no Google se quiserem. Mas aqui nós sabemos perfeitamente a razão que levou o coração de Mildred pra sua área de estudos. Uma razão que nós conhecemos como:

macho chato

Mas não era um. Era uma cacetada. Um sextilhão. Sabe seu colega de faculdade que falou que mulher tem pouca visão espacial? Sabe aquele  cara que perguntou pro Neil deGrasse Tyson por que existem poucas mulheres da ciência? Pois é. Um departamento cheio desses chorumeiros. Mildred e Gene tiveram quatro filhos e ninguém acreditava que ela, mãe-cientista, seria capaz de guiar uma pesquisa de grande impacto. Dessa forma Mildred focou sua pesquisa no grafite e usou o próprio cabelo pra descer da torre mais alta do castelo mais alto e ganhar o mundo. (Vocês estão cansados das comparações com contos de fadas? Ela é a Rainha do Carbono, não dá pra escapar, ok?)

Todo o descrédito recebido por Mildred acabou quando ela obteve amostras de um novo material de carbono sintético chamado carbono pirolítico. Esse material é semelhante  ao grafite, mas com algumas ligações covalentes entre as suas folhas de grafeno, como resultado de imperfeições na sua produção.

carvão pirolitico
Micrografias de tubos de carvão não-pirolítico e pirolítico respectivamente.

Fonte: Tratamentos para obtenção de TaC em superfície de grafite 

Além de sintetizar o material, ela conseguiu também espectros de alta qualidade e uma compreensão da simetria especial do grafite. Esses avanços fizeram com que Dresselhaus caracterizasse suas estruturas com muito mais precisão do que a havia sido alcançada anteriormente.

O último artigo com a participação de Mildred foi publicado em 25 de janeiro de 2017 e se chama  Electron energy can oscillate near a crystal dislocation em tradução livre: Energia de elétrons podem oscilar perto de uma deslocação (i.e. luxação) de cristal. Neste artigo, Mildred e seus colaboradores tratam de como luxações de cristal governam as propriedades mecânicas plásticas dos materiais e afetam também propriedades elétricas e óticas. Eles apresentam uma teoria de campo quântica unidimensional de uma luxação. Essa teoria possibilita o estudo direto do tempo de relaxação elétron-luxação a partir do cálculo de energia de elétrons, que é redutível a resultados clássicos. Ou seja, como as luxações sofridas por cristais interferem em suas propriedades. Mas o estudo dessas interferências só era possível usando equações e proposições da mecânica quântica e com a teoria de Mildred, a solução pode ser reduzida (entendida) através de proposições da física clássica, o que facilita bastante o estudo.

Continuando a história de nossa heroína e como ela se tornou uma rainha, vamos ao ano de 1966. Naquele ano foi decidido que todos os pesquisadores do Lincoln Lab, onde Mildred e Gene trabalhavam, deveriam começar a trabalhar às oito horas da manhã. E quem criou essa regra, obviamente, não foi uma mãe de sete filhos menores de 7 anos. Mas, felizmente, graças aos estudos com o carbono pirolítico, Mildred se tornava cada vez mais conhecida no meio  acadêmico. Alguns professores e pesquisadores trabalharam à favor de Mildred e ela foi indicada para ao departamento de Engenharia Elétrica do MIT, sob o Fundo Abby Mauze Rockefeller – criado para gerar bolsas para mulheres na ciência e engenharia. Dessa forma Midred foi a primeira mulher a se tornar professora permanente no departamento de engenharia do MIT em 1968.

As jóias da Coroa

mildred-dresselhaus

Mildred sendo fofa mostrando a estrutura de um nanotubo de carbono

                Como as pesquisas de Mildred eram muito relevantes, ela ganhou o apelido carinhoso de Rainha do Carbono. Ela foi, sem dúvida, modelo e mentora para muitas jovens cientistas. Ela se tornou chefe do Centro de Ciência e Engenharia de Materiais do MIT em 1977, tornou-se Professora de Física em 1983 e Professora do Instituto de Física em 1985. Recebeu várias honrarias como a Medalha Nacional de Ciência dos EUA em 1990 e, em 2014, o Presidente Barack Obama conferiu a Mildred a Medalha Presidencial da Liberdade.  Além disso a Professora Dresselhaus serviu como tesoureira da Academia Nacional de Ciências dos EUA, presidente da American Physical Society e da Associação Americana para o Avanço da Ciência.

medalha da liberdade (Mildred Dresselhaus recebe a Medalha Presidencial da Liberdade do Presidente Barack Obama em 2014.)

Mildred Dresselhaus recebendo a Medalha Presidencial da Liberdade do Presidente Barack Obama em 2014 e sendo fofa mais uma vez

Sobre a vida e morte de Mildred o jornal The New York Times escreveu um grade artigo arrematado pela seguinte frase “Ela publicou mais de 1700 artigos científicos, co-escreveu oito livros e reuniu uma pilha de elogios tão gordos quanto um nanotubo é bom” e, mais do que isso, deixou a certeza que o feminismo funciona. A vida dessa pesquisadora nos mostrou que lugar de mulher é onde ela quiser, seja em casa cuidando de quatro filhos ou à frente de um departamento de pesquisa do MIT.   Mildred ensinou, pelo exemplo, que podemos ser mulheres, mães, cientistas e que nada nem ninguém tem direito de encapsular os nossos sonhos.

Referências

  1. IZARIO Fº, H. J. et al . Tratamentos para obtenção de TaC em superfície de grafite. Parte I: Imersão em solução aquosa de TaF7(2-).Cerâmica,  São Paulo ,  v. 47, n. 303, p. 144-148,  Sept.  2001 .   Available from . access on  14  Apr.  2017.  http://dx.doi.org/10.1590/S0366-69132001000300003.
  2. DRESSELHAUS, Mildred S.; MAVROIDES, John G. The fermi surface of graphite.IBM Journal of Research and Development, v. 8, n. 3, p. 262-267, 1964.
  3. LI, Mingda et al. Electron energy can oscillate near a crystal dislocation. New Journal of Physics, v. 19, n. 1, p. 013033, 2017.

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