Em que região do nosso cérebro são processados os cálculos matemáticos mais complicados?

Ou de maneira alternativa, para que parte do nosso córtex deveríamos acender uma vela e agradecer quando acertamos aquela integral tripla na prova de Cálculo? Ou ainda, qual parte do cérebro devíamos xingar quando não aprendemos a fórmula de Bhaskara pro vestibular? Essas perguntas pareciam estar em aberto até (quase) agora. E grandes cientistas pareciam divergir em suas apostas sobre essas respostas. Em particular, a grande questão era: será que o circuito cerebral que é ativado enquanto fazemos cálculos é o mesmo circuito ativo durante o uso da linguagem?

Provavelmente já ouvimos algumas vezes que a matemática é uma linguagem. Mas será que o nosso cérebro realmente coloca a matemática junto do português, inglês ou mandarim? O Noam Chomsky* escreveu que “a origem da capacidade matemática está na abstração das operações linguísticas” (em tradução livre). Já o Einstein** disse o seguinte: “palavras e linguagem, sejam escritas ou faladas, não parecem possuir nenhum papel importante nos meus mecanismos de pensamentos <!– [sobre física/matemática]”.

No ano passado um artigo da matemática Marie Amalric (e seu orientador de Doutorado) na revista americana PNAS (Proceedings of National Academy of Science) [1] deu uma resposta bastante elegante a essas perguntas. Utilizando técnicas de imageamento (fMRI) para escanear a atividade cerebral de matemáticos profissionais, os autores mostraram que os processamentos matemáticos de alto nível ocorrem em regiões cerebrais que não se superpõem àquelas responsáveis por processamentos de linguagem verbal (veja a Fig. 1).

Fig1Texto4

Figura 1: Nas regiões em vermelho a ativação é significativamente maior durante tarefas que incluem ouvir ou ler textos do que durante o repouso. Nas regiões amarelas a atividade é maior quando o matemático reflete sobre (A) o significado de uma frase matemática do que o de uma frase não-matemática; (B) o significado de uma frase matemática com sentido do que o de uma frase matemática sem sentido. Reproduzida da Ref. [1].

 

Ao longo do estudo, os voluntários escutaram diversas frases sobre matemática e sobre conhecimentos gerais e deviam decidir se cada uma era verdadeira, falsa, ou sem sentido (ver Fig. 2A).

Exemplos de frases sobre conhecimento geral (não-matemáticas):

  • Verdadeira: Exceto pelo Vaticano, Gibraltar é o menor país do mundo.
  • Falsa: O metrô de Paris foi construído antes do de Istanbul.
  • Sem sentido: Um poeta é predominantemente verde na taxa sobre o metrô.

Exemplo de frases matméticas:

  • Verdadeira: Uma função suave cujas derivadas são todas não-negativas é analítica.
  • Falsa: Uma desigualdade entre duas funçõs permanece válida para suas funções primitivas.
  • Sem sentido: Em médias finitas, a expansão em série das raízes de um mapa holomórfico é reflexiva.

A taxa de acerto entre os matemáticos foi de 63% e 65% para as frases matemáticas e não-matemáticas respectivamente, indicando que a dificuldade das duas tarefas eram similares (ver Fig.2B). Para os não-matemáticos, a taxa de acerto das frases não-matemáticas foi de 64% enquanto para as específicas de matemática, a taxa de acerto foi de 37%.  Note que a taxa de acerto ao acaso quando se tem três opções de resposta (verdadeira, falsa, ou sem sentido) é 33%.

Fig2Texto4

Figura 2: A tarefa consiste em ouvir uma frase, ter um período para refletir sobre o sentido da frase e em seguida apertar um de três botões escolhendo se ela é verdadeira, falsa, ou semsentido. (B) A taxa de acertos dos matemáticos (em preto) e dos não matemáticos (em cinza) quando as frases eram sobre matemática ou conhecimento geral (não-matemática). Reproduzida da Ref. [1].

Os resultados de imageamento cerebral sugerem fortemente que a interpretação de frases sobre matemática avançada (ainda que não falem explicitamente de números ou formas geométricas como nos exemplos acima) requerem o mínimo da utilização de regiões cerebrais responsáveis pela linguagem usual. Mais importante ainda, nos matemáticos, todos os domínios matemáticos testados (algebra, análise, topologia, e geometria) recrutam regiões dos dois hemisférios (regiões prefrontal, parietal e temporal inferior), que são ativadas quando matemáticos ou não-matemáticos manipulam números simples mentalmente, ou realizam tarefas espaciais.

Assim, parece que esses resultados podem nos levar a uma reformulação da frase do Chomsky: “a capacidade matemática está na abstração das operações de reconhecimento numérico ou espacial“.

Além disso, estes resultados podem ajudar a entender outros estudos sobre educação, explicando o motivo da correlação encontrada entre a habilidade de crianças em reconhecer números e tarefas de reconhecimento espacial antes de possuirem linguagem falada e seu posterior desempenho nas disciplinas de matemática na escola. E também podem vir a explicar o porquê de algumas pessoas que possuem afasia (perda da capacidade de compreensão de linguagem) não apresentarem acalculia (incapacidade de fazer contas matemáticas) ou vice-versa.

[1] AMALRIC, Marie; DEHAENE, Stanislas. Origins of the brain networks for advanced mathematics in expert mathematicians. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 113, n. 18, p. 4909-4917, 2016.

*Chomsky é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, ativista político que, de tão importante, tem o dia do seu nascimento comemorado como Natal no filme Capitão Fantástico.

** Como física eu aceito fácil que você não conheça o Chomsky, mas o Einstein…. Hmmmmm … é aquele mesmo com a língua pra fora.

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Um comentário sobre “Em que região do nosso cérebro são processados os cálculos matemáticos mais complicados?

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