Amazônia: manejo e domesticação começaram com os povos pré-colombianos

Quando pensamos na Floresta Amazônica, lembramos sempre do desmatamento desenfreado que ela vem sofrendo ao longo das décadas, mas raramente pensamos nos impactos que as populações locais causaram neste ecossistema. Pensamos na subsistência, na caça e coleta, mas sequer pensamos que essas populações possam ter realizado o manejo das áreas que ocuparam conforme seus desejos e necessidades.

Um estudo publicado recentemente na revista Science nos mostra que a biodiversidade amazônica está fortemente relacionada à ocupação humana desde tempos pré-colombianos. A equipe multidisciplinar, composta por 152 pesquisadores de todo o mundo, utilizou dados botânicos e arqueológicos levantados ao longo de décadas para determinar se a Amazônia é uma floresta intocada ou se foi modificada por seus habitantes.

Liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a pesquisa cruzou informações sobre sítios arqueológicos e inventários botânicos da Bacia Amazônica. O resultado encontrado é que existe uma relação entre a maior presença de espécies domesticadas e a proximidade com sítios arqueológicos.

A domesticação de plantas acontece quando o esforço humano é capaz de se sobrepor às pressões ecológicas do ambiente, com o intuito de usufruir dos recursos naturais conforme sua necessidade, causando assim grandes alterações em ecossistemas, nas escalas local e global. Alguns indivíduos de cada espécie são escolhidos para a domesticação e geralmente são aqueles que possuem características desejáveis, como frutos de maior tamanho ou frutos mais saborosos, por exemplo. Essa escolha representa apenas uma pequena parte da diversidade genética encontrada naturalmente na espécie e gera o que conhecemos como “efeito fundador”. Com o passar do tempo, a população domesticada é transportada pelos povos da região estudada para outros locais, aumentando a sua ocorrência de maneira artificial.

Os pesquisadores constataram que 85 espécies de árvores da região amazônica foram completa ou parcialmente domesticadas, sendo que 20 delas são encontradas até cinco vezes mais do que o esperado para espécies hiperdominantes. Além disso, a riqueza e abundância dessas espécies estão relacionadas a sítios arqueológicos e também margens de rios, sendo ainda maiores quanto maior a proximidade aos locais habitados. Outro dado interessante é o fato de que os maiores esforços de manejo foram direcionados às espécies que já se apresentavam em condições de hiperdominância, aumentando ainda mais sua presença, com um esforço menor direcionado à domesticação de espécies mais raras, mas que eram importantes para os povoados, fosse para alimentação ou uso medicinal.

Você pode se perguntar como é possível saber que humanos causaram esse tipo de impacto na floresta. Os pesquisadores deste estudo fizeram a mesma pergunta, e utilizaram a composição arbórea e as necessidades ecológicas de cada espécie para chegar a uma conclusão. Por exigirem condições ambientais diferentes, é muito improvável que aquelas 20 espécies hiperdominantes ocorressem em locais tão diferentes da floresta amazônica de maneira aleatória. Assim, a explicação que sobra é a de que tenham sido introduzidas e cultivadas pelos povos da região estudada ao longo do tempo. Esses resultados modificam a ideia de que a Amazônia é em grande parte uma floresta intocada. Neste sentido, ela foi e continua sendo manejada e moldada conforme as necessidades das pessoas que vivem naquele ambiente, mostrando que o ecossistema é bastante dinâmico.

O legado desse estudo é evidenciar que embora saibamos muito sobre a Amazônia, ainda há muito que ser estudado. Estima-se que existam 16 mil espécies arbóreas, mas apenas cinco mil delas foram identificadas, e pouco se sabe sobre a história humana nessas florestas. Há locais ainda inexplorados, que certamente guardam muitas descobertas que nos ajudarão a compreender melhor de que maneira a ocupação humana aconteceu e como isso impactou este ecossistema.

Para saber mais:

Artigo original (em inglês) Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition. C. Levis et al, 2017 http://science.sciencemag.org/content/355/6328/925.full

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Um comentário sobre “Amazônia: manejo e domesticação começaram com os povos pré-colombianos

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