Mulher pelo Direito ao Conhecimento: A industria das Publicações Científicas e a luta de Alexandra

Atualmente, a lógica capitalista tem influenciado a forma de produção de conhecimento dos cientistas, “publish-or-perish” , em português “publique ou pareça”. As/os cientistas de hoje são avaliados pela quantidade de publicações em revistas científicas. Estas, tem uma nota, que colabora para a avaliação do artigo publicado.

 

Professor McWit, Didn't Publish, So Perished.

Figura 1 : Publish or Perished. Fonte: cartoonstock.com

A publicação é importantíssima para disseminar o conhecimento entre a sociedade que o financiou, além disso, as publicações, influenciam no avanço da carreira de cientistas e ajudam na obtenção de recursos para projetos e eventos, ou seja, dificilmente um grupo de pesquisa terá dinheiro para financiar a sua pesquisa, se não houver uma grande cientista-publicadora entre eles. Logo, cientistas tem carregado consigo uma grande pressão para publicar resultados com uma grande frequência. Fazer ciência não é um conto de fadas , feito por insights. A academia não espera 40 anos para publicar um resultado, por mais relevante que seja, há grandes chances da pesquisadora perder financiamentos ao longo da pesquisa.

Mesmo a sociedade, como um todo, contribuindo financeiramente nas pesquisas do país, nem todo mundo terá acesso aos artigos científicos resultantes.

A industria de publicação tem crescido, mas o processo de publicação em uma revista não é nada glamouroso. Quando uma/um pesquisador vai publicar em alguma revista internacional, isso é cobrado…”ah tá a cientista ganha da revista já que vão publicar o trabalho dele…” NÃO!! A cientista que deve pagar a revista, caso aceitem o seu trabalho, para ser publicado. No Brasil, temos um cenário mais animador, pois a maioria das revistas são de acesso livre e não há taxas para publicar porém as revistas nacionais não tem o mesmo prestígio para a evolução na carreira do que as internacionais.

Beleza, então quando sair, você vai ficar famosa, todo mundo vai ler o seu trabalho…” NÃO!! As Universidades para terem acesso a essas revistas devem pagar uma anuidade (uma assinatura).

Ahh mas deve ser um valor para publicar a revista e tal…” algumas assinaturas custam mais de 5 milhões por ano, para a Universidade.

Mas nem o seu artigo você terá acesso?” terei, se pagar aproximadamente 35 dólares.

Então, no Brasil, a sociedade paga para os cientistas trabalharem, pagam para que a Universidade tenha acesso aos periódicos mas se uma pessoa não estiver ligada a alguma instituição de ensino que tem acesso, ela não terá acesso ao trabalho que ajudou a financiar!

Bem, mas essa revistas tem custo, não existe almoço grátis…” Sim, mas a parte de avaliação dos artigos, que são feito por pesquisadores da área antes de ser publicado, não há repasse de verba algum! Não há uma/um cientista que receba para ajudar nas publicações!

Mas brasileiros são mortos de fome que reclamam de tudo…” Harvard, recentemente, não renovou a assinatura de uma das maiores revistas científicas, justamente devido ao altíssimo valor cobrado. Logo, se países ricos como os EUA tem tido dificuldade para pagar os valores cobrados por revistas científicas, pensem em países pobres que não tem como arcar com essa despesa.

Como países pobres fazem pesquisa?” duas opções: não fazem ou burlam o sistema. Foi assim que aconteceu com a pesquisadora Alexandra Elbakyan, de 28 anos. Alexandra após voltar para o Cazaquistão, depois de um período de estudo em outras partes do mundo, se deparou com a grande barreira de acesso a artigos para dar continuidade ao seu trabalho em neurociência.

No começo, Alexandra, pirateou artigos para si mesma e para colegas pesquisadores. Ela recebeu tantos pedidos que decidiu automatizar o processo, usou suas habilidades de programadora, e fundou o Sci-Hub em 2011, uma plataforma com mais de 60 MILHÕES de artigos, para quem quiser baixar.

O SciHub é conectado a uma base de dados de artigos “roubados”. Caso um usuário solicite um artigo que não está no banco de dados, a Sci-Hub usará senhas de biblioteca que coletou para encontrar o artigo, fornece-o ao pesquisador e, em seguida, despeja-o no banco de dados.

Em 2006, o site teve mais de 75 milhões de downloads pelo mundo, principalmente de países como China , Índia e Irã. Por mais que isso pareça ilegal, muitas pessoas acreditam que os artigos deveriam ser livres para leitura e consultas.

Em 2015, a gigante no mercado de publicação , Elsevier, entrou com um processo contra a Sci-Hub. em um tribunal federal em Nova York, alegando violação de direitos autorais e fraude informática. A empresa disse que Alexandra e outros operavam “uma rede internacional de pirataria e violação de direitos autorais por contornar os meios legais e autorizados de acesso”.

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Figura 2 : Alexandra Elbakyan. Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Elbakyan

 

Alexandra escreveu uma carta para o tribunal dizendo ” se você não enviar dinheiro (para a Elsevier) , você não lerá artigos. No meu site, qualquer pessoa pode ler artigos de graça, e enviar doações se quiserem. Por que Elsevier não pode trabalhar assim, eu me pergunto? “. Um juiz emitiu uma liminar contra SciHub. Elbakyan simplesmente mudou de domínio, mantendo o banco de dados disponível.

Apesar de perder o processo, Alexandra recebeu diversas mensagens de apoio, e alguns suportes financeiros para dar continuidade ao Sci-Hub. Alexandra sente uma responsabilidade moral com os usuários que dependem das publicações disponibilizadas pelo site. Por isso, ela irá manter as atividades do site mesmo com a indústria de publicações tentando derrubar, e garantiu que está instruindo pessoas para poderem manter o site mesmo sem ela.

Toda essa militância de Alexandra a fez uma das 10 pessoas mais importantes do ano de 2016, segundo a revista Nature. Alexandra afirma que “ dividir livros e artigos científicos não deveriam ser ilegal!” “ que todo conteúdo deveria ser copiado sem restrição , mas no caso de educação e pesquisa, as leis de direitos autorais são especialmente danosas”.

Muitos acadêmicos, bibliotecários universitários e defensores de longa data da pesquisa acadêmica aberta estão acompanhando de perto os esforços de Elbakyan. Eles pensam que ela está finalmente dando aos editores seu momento Napster (em alusão ao programa de compartilhamento de dados, como músicas, que foi fundado em 1999) , os obrigando a se modernizar como a indústria da música e do cinema tem feito.

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Figura 3: Plataforma do Sci-Hub.  Fonte: sci-hub.cc

Pela lógica da lei de direitos autorais, os maiores prejudicados seriam os autores, mas uma pesquisa recente feita por bibliotecários da Universidade do Sul da Califórnia e da Universidade Estadual da Califórnia de mais de 250 acadêmicos descobriu que 41% “não se importam” com os direitos autorais e 30% acham que “a informação deve ser livre”.

A história de Alexandra e o Sci-Hub, nos remete a outra história, a de Aaron Swartz. Diferente dela, Aaron, não chegou a compartilhar publicamente todos os milhões de artigos que ele “furtou” da biblioteca JSTOR (sistema online de arquivamento de periódicos acadêmicos dos Estados Unidos) dentro do MIT.

Aaron foi um programador estadunidense, escritor, articulador político, ativista na Internet, co-autor da criação do RSS e um dos fundadores do Reddit. Em 2011, Swartz foi acusado pelo governo dos EUA de crime de invasão de computadores sujeito ao cumprimento de até 35 anos de prisão mais multa de mais de um milhão de dólares , devido ao fato de ter usado formas não convencionais de acesso ao repositório da revista e baixado vários artigos científicos. Ele já havia sido processado antes por publicar gratuitamente informações de domínio público que tinham seu acesso tarifado, logo restrito, mas as acusações foram retiradas.

A condenação levou Aaron a uma depressão profunda e em 2013, ele cometeu suicídio em seu apartamento no Brooklyn. Após a sua morte, a promotoria federal de Boston retirou as acusações contra ele.

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Figura 4 : Aaron Swartz. Fonte:  publico.pt

familiares, a maior decepção no caso do Aaron, foi a posição do MIT, no caso. Várias celebridades da área de tecnologia também quebraram as regras do MIT, porém nunca foram punidos ou denunciados pela instituição. Aparentemente a única diferença no caso de Aaron é que ele quebrou as regras pensando em não ganhar dinheiro com isso.

Como vários meios, as revistas científicas devem se atualizar às novas tecnologias, e é até irônico por parte delas, se recusarem a se adequar aos novos tempos e difundir democraticamente o conhecimento.

Referências e Recomendações: 

[1] https://www.washingtonpost.com/local/this-student-put-50-million-stolen-research-articles-online-and-theyre-free/2016/03/30/7714ffb4-eaf7-11e5-b0fd-073d5930a7b7_story.html?utm_term=.9ad0fcdb20db

[2] http://simetriadegauge.blogspot.com.br/2015/12/um-monstro-que-pega-o-seu-dinheiro-o.html

[3] http://www.nature.com/news/nature-s-10-1.21157

[4] https://www.publico.pt/2013/01/14/tecnologia/noticia/mit-investiga-responsabilidade-na-morte-de-aaron-swartz-1580668

[5] wikipedia.org/

[6] Documentário The Internet’s Own Boy, The Story of Aaron Swartz

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