Em nome de Alan

aylan

Mural em homenagem ao menino Alan realizado pelos artistas Oguz Sen e Justus Becker. Frankfurt, Alemanha (2016). Fonte: http://bit.ly/2nhZiQ4

Em 2015, a foto de Alan Kurdi, de apenas três anos de idade, às margens do Mediterrâneo tornou-se “símbolo da tragédia dos refugiados sírios”, para citar uma reportagem do The Guardian. Em seu nome e de seus conterrâneos, muitas reportagens foram escritas. Essa semana, um artigo publicado na Vogue confirma que o tema dos refugiados está na moda, literalmente.
Para Rosi Braidotti (2002): “o estado de crise tem se tornado o modus vivendi dos filósofos ocidentais: nós nos comprazemos com isto, escrevemos interminavelmente sobre isso, e se a crise não existisse, provavelmente teríamos que inventá-la” (Op. Cit., p. 3). Pensar a dita “crise” dos refugiados desde uma perspectiva crítica, portanto, constitui um dos maiores desafios de nosso tempo.
Assim faz, por exemplo, Chiara Pussetti (2017) em artigo publicado recentemente acerca dos “paradoxos do assistencialismo e os mártires do Mediterrâneo”. Como síntese das mais terríveis estatísticas, ela afirma que: “Nos últimos seis anos, mais de quarenta mil pessoas perderam a vida tentando chegar às costas europeias: destas, mais de metade foram deixadas no fundo do mar” (Op. Cit., p. 264).
As proporções desse cemitério de pessoas não-identificadas também soam alarmantes em outros setores, como entre a sociedade civil. Dentre esta última, a organização UNITED – European Network against nationalism, racism, fascism and in support of migrants and refugees destaca-se pelo pioneirismo em organizar, desde 1993, uma lista das pessoas que vieram a óbito no decurso migratório para o continente europeu.
Como seria possível imaginar, a maioria dos mortos por afogamento nessa lista não pôde ser identificada. A identificação do nome é basilar do princípio da dignidade humana, como lembra C. Pussetti (2017): “Quando a história é esquecida, a biografia e a identidade individual são negadas, o que resta é o corpo. Corpos (…) que, (…), podemos esquecer no fundo do mar, sem uma sepultura digna, onde alguém os possa chorar.” (Idem ibidem).
Alan Kurdi é o outro extremo dessa tendência e se parece muito, portanto, com o “célebre” naufrágio de Lampedusa (2013), quando:

“O Primeiro Ministro Italiano Enrico Letta decidiu honrar as vítimas com pomposos funerais de Estado e concedeu, aos defuntos, a glória da cidadania italiana honorária, (…). Os que sobreviveram a esta terrível odisseia ficaram fechados nos campos, segregados em asilos, limbos entre prisão e hospital nos confins do estado-nação, à espera de serem expulsos do país. A lei italiana concedeu direitos aos corpos, mas não aos sujeitos destes corpos.” (PUSSETTI, Op. Cit., p. 266, grifo meu).

Atualmente, das 34 mil pessoas que se deslocam forçosamente a cada dia, oito perecem no trajeto para países ditos ‘mais desenvolvidos’. Tristemente, escreve-se mais a respeito desses mortos do que das razões subjacentes a esse deslocamento dos vivos, quando um fato é cada vez mais notável: a guerra não tem geração espontânea, e onde quer que ela ocorra, sempre há alguém lucrando com isso.


Bibliografia

BRAIDOTTI, Rosi. Diferença, Diversidade e Subjetividade Nômade. Tr. Br. Roberta Barbosa, 2002.

PUSSETTI, Chiara. “O silêncio dos inocentes”. Os paradoxos do assistencialismo e os mártires do Mediterrâneo. IN: Interface (Botucatu). 2017; pp. 21(61):263-72. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/icse/v21n61/1414-3283-icse-21-61-0263.pdf> [22 mar 17]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s