Igualdade de gênero na ciência brasileira

Texto escrito em colaboração com @pedroivo000

Recentemente foi publicada uma reportagem na Forbes com o título “Surprising New Study: Brazil Now A Global Leader In Gender Equality In Science” [1] (“Surpreendente novo estudo: Brasil é um líder mundial em igualdade de gêneros em Ciência”, tradução livre), que afirma que o Brasil é um líder em igualdade de gêneros na produção científica do país, já que 49% das publicações científicas brasileiras entre 2011 e 2015 são de autoras femininas. A reportagem se baseia em um relatório intitulado “Gender in the Global Research Landscape” (“Gênero no Cenário Científico Mundial”, tradução livre) [2] publicado pela editora Elsevier, uma das maiores provedoras de publicações científicas do mundo. O relatório é uma extensa análise do estado da igualdade de gêneros na pesquisa científica mundial nas últimas décadas, baseado no banco de dados Scopus, que possui mais de 55 milhões de publicações com respectivas informações sobre os autores de cada publicação. Apesar de um dos resultados principais da pesquisa já ter sido apresentado na reportagem da Forbes, gostaríamos de discutir o relatório da Elsevier mais a fundo, já que levar em consideração apenas a proporção total de publicações científicas do gênero feminino para concluir que realmente existe igualdade de gêneros na pesquisa brasileira pode acabar escondendo desigualdades históricas em algumas áreas de pesquisa.

O Brasil está atualmente na décima quarta posição em número de publicações científicas de acordo com a SCImago Journal & Country Rank [3]. Para se ter uma ideia melhor da contribuição científica brasileira, é interessante olhar as áreas nas quais o Brasil possui maior produção. De acordo com o banco de dados Scopus, as áreas de Saúde e Ciências Biológicas são as áreas que possuem mais publicações no Brasil (Figura 1). Além disso, essas áreas são as que a pesquisa brasileira possui mais impacto, se levarmos em consideração o Index-H, uma medida do impacto de um determinado artigo científico ou pesquisador. O Index-H é calculado a partir do número de citações de um artigo, ou seja, quanto mais citações, maior o valor do Index-H e, por consequência, maior o impacto da pesquisa. Como podemos ver na Figura 2, publicações brasileiras em Medicina e Ciências Biológicas possuem maior impacto do que publicações em Engenharia e outras áreas (o h-index no gráfico é representado pelo diâmetro dos círculos). Em média, os artigos científicos do Brasil são citados 8.96 vezes por artigo, o que corresponde a mais da metade (53.75%) da produção científica da América Latina mas somente 2.37% da produção científica mundial.

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Figura 1. Total de publicações científicas em algumas áreas no Brasil em 2000 e 2015. Medicina e Ciências Biológicas são as áreas que o Brasil mais publicou em 2015, e o número de publicações teve um aumento de mais de 300% e 500% respectivamente, entre 2000 e 2015. Dados do Scopus.

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Figura 2. Visão detalhada das publicações em subáreas da Medicina, Ciências Biológics e ds Agricultura, Engenharia e Física. o diâmetro dos círculos represdnta o Index-H, uma medida de impacto de publicações científicas. No eixo vertical temos o número de citações por artigo. É possível ver que publicações em Medicina possuem um alto percentual de citações, mesmo que a produção científica em algumas subáreas, como a Oncologia, não seja muito alta. Dados do Scopus.

Quantificando a contribuição de cada gênero no total de publicações científicas no Brasil, o relatório da Elsevier constatou que, assim como já foi discutido na reportagem da Forbes, 49% das publicações brasileiras são de pesquisadoras femininas, como podemos ver na Figura 3. Quando comparamos a distribuição de gêneros entres as diferentes áreas de pesquisa no Scopus, vemos que a maioria  dos pesquisadores do gênero feminino estão presentes em Medicina e Ciências Biológicas, enquanto Engenharia e Ciências da Terra e Exatas são campos predominantemente masculinos (Figura 4).

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Figura 3. Proporção total de mulheres e homens entre os autores de artigos científicos presentes no Scopus. O Brasil está na frente dos Estados Unidos e da União Europeia no número de pesquisadoras que publicaram entre 2011 e 2015, o que corresponde a um aumento de 11% no número de autoras brasileiras entre 1996 e 2000.

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Figura 4. Proporção de cada gênero em publicações em diferentes áreas do conhecimento presentes no Scopus. Medicina e Ciências Biológicas são áreas predominantemente representadas por autoras do gênero feminino, enquanto Engenharia e Ciências da Terra e Exatas são áreas predominantemente representadas por autores do gênero masculino.

Historicamente, Ciências Exatas, da Terra e Engenharia são áreas dominadas pelo gênero masculino. Segundo os dados dos pesquisadores registrados na plataforma Lattes, um registro online de pesquisadores e grupos de pesquisa brasileiros mantido pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) [5,6], cerca de 70% dos doutores em Engenharia e 60% dos doutores em Ciências Exatas e da Terra são homens, independente da faixa etária (Figura 5). Por outro lado, mais da metade dos doutores entre 25-65 anos em Ciências Biológicas e Saúde são do gênero feminino. Além disso, 49% das recém-formados doutoras em 2016 (doutoras com idade entre 25-29 anos) são de Ciências Biológicas ou de Saúde, enquanto 44% dos doutores homens recém-formados são de Engenharia ou Ciências Exatas e da Terra.

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Figura 5. Proporção de doutores em diferentes áreas do conhecimento por gênero e faixa etária, de acordo com dados dos currículos presentes atualmente na Plataforma Lattes.

Estereótipos sociais sobre o papel das mulheres e dos homens na sociedade e quais as áreas que homens ou mulheres têm mais chances de sucesso devido a “características e qualidades inerentes” a um determinado gênero tem um papel fundamental na criação e perpetuação da disparidade de gênero na pesquisa brasileira. As chances de uma menina se tornar uma Engenheira ou uma Física no futuro são menores se ela crescer ouvindo comentários negativos sobre a habilidade matemática das mulheres, quando comparadas às chances de uma outra criança, que cresceu em um ambiente sem a presença desses estereótipos negativos [7]. A educação tem um papel crucial na diminuição da desigualdade de gêneros no Brasil nas áreas de Engenharia e Ciências Exatas. A presença de mulheres em profissões de tecnologia na mídia e em filmes também é um fator que pode influenciar na formação de futuras cientistas, como explicado em uma pesquisa do Google [8]. Precisamos lutar para que a sociedade veja que não existe nenhuma razão biológica para uma melhor performance ou preferência de um gênero em uma determinada área de pesquisa, mas sim razões culturais e sociais para este problema.

Mesmo que ainda se observe uma disparidade de gêneros em algumas áreas, há notícias boas: o número de pesquisadoras mulheres ativas em campos majoritariamente masculinos vem aumentando no decorrer dos últimos anos. Segundo o relatório da Elsevier, um aumento de 22% no número de publicações de autoras femininas em Engenharia ocorreu entre 2011 e 2015. São inúmeros fatores que podem ter contribuído para isso, mas a mudança no pensamento e no comportamento da sociedade em relação às habilidades das mulheres em diferentes profissões é essencial para o futuro da ciência.

Referências

  1. https://www.forbes.com/sites/shannonsims/2017/03/08/surprising-new-study-brazil-now-a-global-leader-in-gender-equality-in-science/#5e92b1626f44
  2. https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf
  3. http://www.scimagojr.com/countryrank.php
  4. https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/2016/world-ranking#!/page/0/length/25/locations/BR/sort_by/scores_overall/sort_order/asc/cols/stats
  5. http://plataformalattes.com.br/
  6. http://estatico.cnpq.br/painelLattes/sexofaixaetaria/
  7. American Association of University Women. Why So Few? Women in Science, Technology, Engineering and Mathematics. 2010 (https://www.aauw.org/files/2013/02/Why-So-Few-Women-in-Science-Technology-Engineering-and-Mathematics.pdf)
  8. https://www.google.com/intl/en/about/main/gender-equality-films/
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