Um novo despertar: Febre amarela

Um pouco sobre a doença

A febre amarela é uma doença infecciosa não contagiosa transmitida por mosquitos dos gêneros Aedes e Haemagogus. Epidemias históricas dessa doença ocorreram entre os séculos 18 e 20 em diversos países da África, Europa e Américas [1].

Essa doença pode se manifestar de duas formas: febre amarela silvestre e urbana. A forma silvestre é transmitida nas florestas por mosquitos silvestres do gênero: Haemagogus, que picam macacos suscetíveis que desenvolvem a doença, sendo, nesse cenário, o homem um hospedeiro acidental. A forma urbana da doença é transmitida dentro de cidades, mosquitos infectados picam homens suscetíveis, que por sua vez desenvolvem a doença e podem transmiti-la para outro mosquito Aedes aegypti, que é um excelente vetor do vírus que causa a febre amarela [2]. Com a introdução da vacina da febre amarela no final dos anos 1930 e com as campanhas de erradicação do Aedes aegypti, epidemias urbanas da doença caíram substancialmente e os surtos ficaram confinados às áreas silvestres, onde o principal vetor é o mosquito Haemagogus janthinomys.

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Haemagogus janthinomis. Fonte da imagem: J. Stoffer, WRBU (http://wrbu.org/mqID/mq_medspc/AD/HGjan_hab.html)

            Na região Amazônica e em outras áreas endêmicas do Brasil, surtos epizoóticos* da doença são reportados a cada 5 a 7 anos. Essa periodicidade é, provavelmente, devido à renovação de populações de macacos que são essenciais para amplificação do vírus em áreas silvestres [3].

            A febre amarela pode ser introduzida em áreas não endêmicas de duas maneiras. Primeiramente, pessoas no período virêmico ou de incubação da infecção vão a locais com alta densidade de vetores e hospedeiros vertebrados (macacos). Uma vez que o vírus se estabelece no local, a transmissão do vírus via mosquitos explode e infecta macacos sem imunidade natural, resultando em quase a total eliminação das populações de macacos. A outra maneira de introdução da febre amarela é por meio de tráfico ilegal de animais silvestres. Traficantes de animais usam estradas ilegais que geralmente são de difícil acesso, podendo levar à introdução do vírus para novas áreas [1].

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Ciclo da febre amarela em inglês. Fonte da imagem: CDC PHIL (https://phil.cdc.gov/phil/details.asp).

*Doença que afeta muitos animais da mesma espécie em uma mesma área geográfica

Sintomas da doença em humanos

Depois de contraído, o vírus da febre amarela tem um período de incubação de 3 a 6 dias, seguido de infecção. A primeira fase aguda da doença é considerada aguda e caracterizada pelos sintomas: febre, calafrios, dor muscular, dor nas costas, dor de cabeça, perda de apetite e náusea ou vomito. Após a primeira fase, 15% dos infectados entram na segunda fase da doença, considerada tóxica, após 24 horas de remissão. A febre alta retorna e diversos sistemas do corpo são afetados. O paciente apresenta hemorragia, vômito e fezes com sangue e falha renal. Metade dos infectados que entram na fase tóxica da infecção morre em 10 a 14 dias [4].

Como é realizada a prevenção da febre amarela?

            A febre amarela pode ser prevenida de duas maneiras: vacinação e controle de vetores.

            A vacinação é a medida mais importante para prevenir a febre amarela. A vacina é segura, efetiva e provém imunidade dentro de uma semana para 95% dos vacinados. O controle da febre amarela é baseado na prevenção de surtos da doença, quadro que só poderá ser atingido quando a maioria da população estiver vacinada [5].

            Outra maneira de prevenção, tão importante quanto a vacinação, é o controle de mosquitos vetores, principalmente em locais onde a maior parte da população não é vacinada. O controle dos mosquitos se dá principalmente pela eliminação de criadouros e também com uso de inseticidas para adultos e para larvas. Entretanto, em locais com alta densidade de mosquito o uso descontrolado de inseticidas não é recomendado, pois seleciona os mosquitos com resistência [6].

Surto atual da doença

            De dezembro de 2016 até 22 de fevereiro de 2017, 1336 casos de febre amarela, incluindo 215 mortes, foram detectados em seis estados brasileiros: Bahia, Espirito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, São Paulo e Tocantins. Até o momento, 86% dos casos confirmados são homens – grupo de risco – entre 21 e 60 anos. No mesmo período citado, um total de 883 casos epizoóticos da doença foi reportado em macacos. Destes, 337 foram confirmados após análise em laboratório [7].

            A maioria dos casos atuais da doença ocorreu em Minas Gerais e têm preocupado as autoridades de saúde do país. A cobertura vacinal é pequena no Brasil e, devido à proporção do surto, o vírus pode acabar em contato com o vetor urbano da doença. Recentemente, houve no Brasil a distribuição de 11.5 milhões de vacinas e o país está aumentando sua produção. Entretanto, como o processo de produção de vacinas é demorado, há receio de que os estoques sejam insuficientes caso ocorra um pior cenário epidêmico [8].

O último surto de febre amarela silvestre havia ocorrido em 2007 e foi em uma escala muito menor que o surto atual. Todos os surtos da doença que ocorrem no Brasil são silvestres, uma vez que a forma urbana da doença foi extinta em 1942 [8].

Seres humanos não são os únicos que sofrem com a doença: morte de macacos antecede o surto da doença

            Geralmente, o primeiro sinal de casos epizoóticos de febre amarela silvestre é o silêncio nas florestas, devido à morte de macacos que são animais altamente suscetíveis ao vírus. Mortes em massa de macacos que vivem perto de moradias urbanas vêm ocorrendo por todo o Brasil, principalmente em Minas Gerais, Estado em que o desmatamento dividiu as florestas, as transformando em pequenos fragmentos. Como consequência, cada vez mais pessoas vivem perto de locais silvestres e estão suscetíveis às doenças que ali ocorrem [8].

            Em 2008 e 2009 centenas de macacos morreram durante um surto de febre amarela silvestre. Segundo o cientista Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a febre amarela surgiu na África e veio nos navios negreiros pra a América. Por isso os macacos daqui são tão sensíveis à doença: eles não possuem imunidade ao vírus. Como os seres humanos possuem uma história maior de convivência com o vírus, somos mais resistentes a ele, nos tornando os principais responsáveis por espalhar a doença [9].

            Por esse fato, é extremamente importante se proteger contra o vírus da febre amarela! Vacine-se e não negligencie possíveis criadouros de mosquito na sua casa!

bugio          Bugio ruivo. Foto: Everton Gonçalves.

Links interessantes:

http://revistapesquisa.fapesp.br/2009/03/01/na-propria-pele/

http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/02/13/virus-que-causa-febre-amarela-em-sao-paulo-veio-provavelmente-da-amazonia/

Vacine-se!

http://www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/unidades-de-referencia/fa/posto_fad1.htm

Referências

1 Da Costa Vasconcelos PF. Febre amarela. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 2003;36:275–93.

2 Consoli RAGB, Lourenço-de-Oliveira R. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Cad. Saude Publica. Editora FIOCRUZ; 1994.

3 Vasconcelos PF da C. Yellow fever in Brazil: thoughts and hypotheses on the emergence in previously free areas. Rev. Saude Publica. 2010;44:1144–9. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21109907

8 Dyer O. Yellow fever stalks Brazil in Zika’s wake. BMJ. 2017;356:j707. Available from: http://www.bmj.com/lookup/doi/10.1136/bmj.j707

Ref 4-7 e 9 links clicáveis.

 

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4 comentários sobre “Um novo despertar: Febre amarela

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