Novas evidências fósseis: A vida na Terra começando mais cedo

A origem da vida na Terra é um assunto que sempre desperta muito interesse, mas também gera bastante polêmica. Exatamente como e quando a vida surgiu neste planeta são perguntas que ainda intrigam cientistas, que seguem buscando no registro fóssil informações que esclareçam essas questões. Estima-se que o Universo tenha 13,7 bilhões (bi) de anos e a Terra 4,5 bi de anos, com a vida surgindo em algum momento entre 3,5 e 3,8 bi de anos. Diferentemente da escala histórica, usada para contar o tempo do surgimento da humanidade até os dias de hoje (alguns milhares de anos), o tempo geológico é usado quando falamos do processo de surgimento da Terra e as transformações que aqui ocorreram, e a contagem é feita em milhões e bilhões de anos.

Uma descoberta recente, feita por pesquisadores da University College London, indica que a origem da vida pode ter ocorrido entre 3,77 e 4,28 bi de anos, pouco tempo depois da formação de nosso planeta. O material estudado tem origem no Cinturão Supracrustal de Nuvvuagittuq (chamado em inglês de NSB), localizado em Quebec, no Canadá (Figura 1). Esse cinturão era parte do solo oceânico quando a Terra ainda estava em formação. Rochas do local, com idade estimada em 4,28 bi de anos, foram coletadas e analisadas em laboratório, utilizando técnicas de microscopia, espectroscopia e espectrometria a fim de analisar idade, composição e resquícios fósseis deixados pelos possíveis micro-organismos que ali viveram.

Localização NSB Canadá

Figura 1: Localização do Cinturão Supracrustal de Nuvvuagittuq, à beira da Baía de Hudson, norte da província de Quebec (Google Maps).

Se fósseis de grandes organismos às vezes já são difíceis de encontrar e estudar, imaginem só os fósseis de micro-organismos, chamados de microfósseis. Eles são bem pequenos, com um décimo da circunferência de um fio de cabelo humano. Dessa forma, para saber se um micro-organismo qualquer viveu em um dado local, é necessário verificar a presença de rastros deixados por eles. Assim, os pesquisadores procuram por impressões deixadas nas rochas pelas células, por isótopos de carbono e também pelas alterações químicas da rocha, ocasionadas pelo metabolismo celular. Além disso, à medida que a célula cresce e se movimenta, deixa marcas na forma de pequenos filamentos, tubos, e diversos outros formatos. A polêmica é que muitos desses registros podem ser ocasionados por processos abióticos, como a intensa metamorfose sofrida pelas rochas durante bilhões de anos. Por este motivo, é bastante difícil provar a origem biológica de tais marcas, mas não impossível.

Para responder esta questão, os cientistas compararam esses fósseis com outros já encontrados em formações com idade semelhante à NSB, e também com micro-organismos que vivem em fontes hidrotermais no fundo dos oceanos nos dias de hoje. É esperado que, pela semelhança dos ambientes, como o tipo de formação rochosa e temperatura, o metabolismo dos microfósseis e dos organismos atuais também seja semelhante. Isso fornece um padrão para que os pesquisadores possam confirmar ou refutar a origem biológica dos microfósseis. As semelhanças encontradas (Figura 2) permitiu que os cientistas concluíssem que o material encontrado tem origem biológica, indicando que a vida pode ter começado na Terra muito antes de 3,77 bi de anos e talvez muito próximo a 4,28 bi de anos, em regiões próximas a fontes hidrotermais nos oceanos.

microfósseis

Figura 2: Filamentos e tubos (microfósseis) encontrados no Cinturão Supracrustal de Nuvvuagittuq (à esquerda) comparados aos microfósseis encontrados na formação de Løkken na Noruega (à direita). Fotos retiradas do artigo original.

Essa descoberta, embora não coloque certeza na origem da vida em nosso planeta, certamente ajudará em futuras missões que tenham como objetivo encontrar vida em outros planetas, colaborando com a expansão do nosso conhecimento sobre a vida e o universo.

 

Para saber mais:

Artigo original (em inglês) Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Matthew S. Dodd, Dominic Papineau, Tor Grenne, John F. Slack, Martin Rittner, Franco Pirajno, Jonathan O’Neil, Crispin T. S. Little.

http://www.nature.com/nature/journal/v543/n7643/full/nature21377.html

Livro sobre astrobiologia (em português) compilado e disponibilizado pela USP (download gratuito) http://www.tikinet.com.br/iag/

Espectroscopia http://astro.if.ufrgs.br/rad/espec/espec.htm

Espectrometria https://pt.wikipedia.org/wiki/Espectrometria_de_massa

Microscopia http://ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla/index.php/noticias/adotepauta/618-microscopia

 

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Um comentário sobre “Novas evidências fósseis: A vida na Terra começando mais cedo

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