O obscuro universo sobre o qual todos sabem (#sqn): a hora de parar de amamentar

Tenho diversas amigas que são, ou serão em breve, mães de primeira viagem. Uma delas, dias atrás, dividiu sua mais nova agonia comigo: como e quando desmamar? Deveria ser ativo da parte dela? Deveria esperar pela vontade do bebê, mesmo que seus mamilos doam e que sinta uma urgência em voltar a certas atividades? Como balancear as necessidades da mãe e do filho?

Nessas horas, fica gritante a importância da divulgação científica. Não, não serei mais uma no exército de pessoas donas da razão vociferando regras e verdades às mães. E reconheço os limites da ciência, como deixarei claro. Mas aqui divido o fruto do meu trabalho e de colegas, para que você, mãe, “vá e seja feliz”, como diria o Delegado Nogueira do filme “Lisbela e o Prisioneiro”.

Começo dizendo: mamíferos mamam. E filhotes de mamíferos uma hora param de mamar. 

Pouco se sabe sobre amamentação e isso pode ser um viés histórico devido à maior representatividade de homens na ciência e assim, maiores esforços em estudos que a estes sejam de maior interesse (Shiebinger, 2007). Ainda assim, temos um maior conhecimento de como a amamentação e o desmame acontecem para nós, mamíferos humanos ocidentais e modernos.

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Macaco-prego – Foto por: Sérgio Lopes

 

Chega um momento em que a mãe oferece outros alimentos e começa a impedir que o filho acesse o peito, não só pela necessidade de complementação alimentar por outras fontes, como também por ter que voltar ao trabalho, ou porque o dente do filho já a machuca. E nem sempre o filho reage bem a essa limitação de acesso, isso porque mamar não é importante só para se manter nutrido, também acalma, também estreita laços.

Para os demais mamíferos, esse processo não é tão diferente, principalmente para primatas não humanos, como o chimpanzé. Conforme o filhote cresce, a proporção de energia consumida através da amamentação vai diminuindo. Contudo, existe uma negociação constante entre a mãe e o bebê, assim em humanos. Entre as variáveis que entram nessa conta, podemos destacar a disponibilidade de alimento no ambiente, o “estilo” da mãe e a capacidade do bebê em pedir. Se não há alimentos disponíveis, a mãe amamenta o bebê por mais tempo, aumentando as chances do seu bebê sobreviver. Se a mãe é mais paciente ou mais enfática, ou se filhote chora mais ao ser impedido de acessar o peito, são fatores que influenciam no tempo do desmame. Convenhamos, quem já conviveu com o processo da amamentação, não está lendo nenhuma novidade até agora, certo? Talvez apenas o relato de que isso é comum para outros primatas, e talvez todos eles.

Contudo, em humanos o desmame parece ocorrer mais cedo do que ocorre nos demais primatas. E não estou falando apenas de humanos na idade moderna pós-revolução industrial, que pressiona as mães a voltarem o trabalho. Dan Sellen, após analisar mais de 100 comunidades não industriais, percebeu que a suplementação com outros alimentos acontece em média aos 5 meses e o completo desmame aproximadamente aos 30 meses. Comparados aos chimpanzés, que amamentam até 55 meses (Kappeler e Pereira 2003), os humanos realmente amamentam por menos tempo.

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Chimpanzé – Foto: BI dos animais

 

Esse padrão de desmame no humano parece ter emergido nos hominídeos pois contaria com cuidado mais cooperativo das crianças e acesso a uma dieta mais nutritiva (Reiches et al. 2009; Kramer e Ellison, 2010; Kaplan et al. 2012). Se houver comida suficiente para dar ao filhote e a mulher pode contar com ajuda no cuidado dele e parece que amamentar por menos tempo seria possível e isso diminuiria o tempo entre um filho e outro e portanto, aumentaria a taxa de reprodução. Ou seja, uma mulher teria mais filhos ao longo da vida.

 

Contudo, ainda não sabemos ao certo quando exatamente na nossa história evolutiva começamos a desmamar em menos tempo. A primeira hipótese relacionava o desmame com a erupção dos dentes. Quando a erupção dos dentes começa, a mãe sentiria dor, ao mesmo tempo em que o filhote já teria maior independência para inclusão de outros alimentos: pronto! Boa combinação para parar de amamentar. Contudo, nos demais primatas esses dois momentos não se relacionam, ou seja, a erupção dos dentes não está vinculada com o tempo do desmame (Smith et al 2003; Godfrey et al 2003).

É muito difícil estudar a amamentação em primatas não humanos porque, como para nós, a amamentação não tem função apenas nutricional para esses animais. Dessa forma, apenas observar o contato do filhote com o peito não nos fornece real valor de quanto leite está sendo consumido, porque ele pode estar “chupetando” – ato de ficar usando a mama da mãe como chupeta e não para mamar (Cameron et al 1999, Cameron 1998). Parece fácil de concluir que há necessidade de novas pesquisas que validem quanto de leite está realmente sendo consumido (Reirsema, 2012). Saber quando o leite não é tão significativo nutricionalmente ajudaria a entender não somente quando o desmame poderia ocorrer fisiologicamente, mas também possibilitaria entender mais sobre os processos de apego envolvidos nessa interação mamãe-bebê.

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Gorila – Foto: Revista Época

 

Para entender o papel evolutivo de um comportamento, estudamos os primatas não humanos em busca de respostas e também buscamos evidências em fósseis. Agora, se estudar os primatas não humanos já é difícil, imagina através de registro fóssil? Bem, comportamento não é registrado em fósseis… mas uma parte do corpo que frequentemente resiste a milhares de anos e nos fornece informações incríveis poderia nos levar a algumas respostas: o dente.

Ainda precisamos desenvolver um protocolo confiável, mas estudos com concentração de bário tem se mostrado eficientes em quantificar a transição da alimentação por leite para alimento sólido. De forma semelhante aos famosos anéis de crescimento das árvores, os dentes mostram um padrão de crescimento que cria linhas diárias de esmalte e dentina, que podem ser vistas e contadas com um microscópio.

Enquanto o bebê está no útero não há marcas de bário, já que este não passa pela placenta. Com o consumo de leite, o nível de bário nos dentes aumenta e começa a declinar com o consumo de alimentos sólidos. E mais, os níveis de bário no leite das mães macacas é consistente com a concentração de bário nos dentes dos filhotes (Keity-mammalssucks.blog).

Aplicando esta metodologia para Neanterdals, observa-se que os bebês recebiam complementação alimentar a partir dos 7 meses e eram desmamados ao redor de 14 meses. Além do mais, esse processo era abrupto. Abrupto pode indicar uma separação ativa por parte da mãe e/ou do filhote. Para macacos conhecidos comos macacas observa-se que a mãe tem esse papel ativo no desmame; apesar de não ser de uma hora para a outra. Ela vai negando aqui, cedendo ali. E eu diria que de forma muito similar à que encontramos para macacos-prego e saguis (dados não publciados, Verderane e Fogaça).

As evidências, apesar de estarem se acumulando a cada dia mais, ainda são escassas e não nos fornecem respostas claras. Mas para você, minha amiga, eu diria que aparentemente a mãe tem um papel ativo na decisão do momento de desmame. São diversas as variáveis que influenciam na decisão desse momento, e não são apenas fisiológicos, variando de mãe a mãe, de contexto social para contexto social e de bebê a bebê. E, se é tão flexível assim, eu diria que o bebê é capaz de ficar bem em uma grande rede de possibilidades de datas e métodos de desmame. Portanto, vá e seja feliz.

Para saber mais:

Cameron, E. Z. (1998). Is suckling behaviour a useful predictor of milk intake? A review. Animal Behaviour, 56(3), 521-532.

Cameron, E. Z., Stafford, K. J., Linklater, W. L., & Veltman, C. J. (1999). Suckling behaviour does not measure milk intake in horses, Equus caballus.Animal behaviour, 57, 673-678.

Godfrey, L. R., Samonds, K. E., Jungers, W. L., & Sutherland, M. R. (2003). Dental development and primate life histories. Primate life histories and socioecology, 177-203.

Humphrey, L. T., Dean, M. C., Jeffries, T. E. & Penn, M. Unlocking evidence of early diet from tooth enamel. Proc. Natl Acad. Sci. USA 105, 6834–6839 (2008b)

Humphrey, L. T., Dirks, W., Dean, M. C. & Jeffries, T. E. Tracking dietary transitions in weanling baboons (Papio hamadryas anubis) using strontium/calcium ratios in enamel. Folia Primatol. (Basel) 79, 197–212 (2008a)

Kramer, K. L., & Ellison, P. T. (2010). Pooled energy budgets: Resituating human energy‐allocation trade‐offs. Evolutionary Anthropology: Issues, News, and Reviews, 19(4), 136-147.

Nielsen-Marsh, C. M. et al. Extraction and sequencing of human and Neanderthal mature enamel proteins using MALDI-TOF/TOF MS. J. Archaeol. Sci. 36, 1758–1763 (2009)

Orlando, L. et al. Revisiting Neandertal diversity with a 100,000 year old mtDNA sequence. Curr. Biol. 16, R400–R402 (2006)

Reiches, M. W., Ellison, P. T., Lipson, S. F., Sharrock, K. C., Gardiner, E., & Duncan, L. G. (2009). Pooled energy budget and human life history. American Journal of Human Biology, 21(4), 421-429.

Reitsema, L. J. (2012). Introducing fecal stable isotope analysis in primate weaning studies. American Journal of Primatology, 74(10), 926-939.

Schroeder, J. H. (1969). Experimental dissolution of calcium, magnesium, and strontium from recent biogenic carbonates: a model of diagenesis. Journal of Sedimentary Research, 39(3).

Sellen, D. W. (2001). Comparison of infant feeding patterns reported for nonindustrial populations with current recommendations. The Journal of nutrition, 131(10), 2707-2715.

Sellen, D. W. (2007). Evolution of infant and young child feeding: implications for contemporary public health. Annu. Rev. Nutr., 27, 123-148.

Smith, T.M., Machanda, Z., Bernard, A.B., Donovan, R.M., Papakyrikos, A.M., Muller, M.N., Wrangham, R. (2013) First molar eruption, weaning, and life history in living wild chimpanzees. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 110:2787-2791.

Schiebinger, L. (2007). Has feminism changed science? Sings 25 (4): 1171-1175

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