Sobre o que lichias e crianças indianas têm a ensinar

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Imagine a cena: todos os anos, na época do verão, muitas crianças saudáveis acordam pela manhã chorando muito, apresentando convulsões e alterações do estado sensorial e mental. Algumas delas vem a falecer do que parece ser uma doença misteriosa, e da mesma forma, ao iniciar a temporada de chuvas, os surtos praticamente desaparecem. O que parece ser enredo de ficção ocorreu na India, em Muzzaffarpur, região conhecida por ser a maior área de cultivo de lichias no país. Os surtos chamaram a atenção dos médicos por ocorrer sempre entre maio e junho e acometer crianças sem histórico de doenças neurológicas.

Os casos intrigavam a comunidade desde 1995 e diferentes hipóteses foram propostas: doença cerebral infecciosa, exposição a pesticidas e metais pesados e o contato com as lichias. Em 2013, o National Centre for Disease Control da India (NCDC) e o US Centers for Disease Control and Prevention (US CDC) iniciaram uma investigação com enfoque nas características epidemiológicas e clínicas da doença, o que culminou na publicação de um artigo na revista The Lancet Global Health (1). Os achados iniciais indicaram ausência de infecções e revelaram um ponto comum: baixa glicose no sangue (akee, da mesma família botânica da lichia – ou seja a hipótese do consumo da lichia ser a causa da doença ganhou fortes justificativas. O foco eram duas substâncias presentes nas frutas: o MCPG (metileneciclopropilglicina), similar a hipoglicina A (composto orgânico tóxico [2]) e uma outra substância presente na semente e na polpa da lichia, conhecida por causar a queda da glicose sanguínea. Porém um enigma ainda permanecia: por que somente uma parte das crianças era afetada?

Para responder a essa outra pergunta, os cientistas investigaram e compararam dois grupos de crianças com idade até 15 anos internadas em dois hospitais de Muzaffarpur: 1) com crises convulsivas ou alterações sensoriais e 2) internadas devido à doença não neurológica. Os dados clínicos de todas elas foram analisados, bem como amostras das lichias consumidas pelas crianças doentes. Ao todo, foram admitidas 390 crianças com o quadro da doença e 31% delas morreram. A doença se associou ao consumo de lichia e ausência de refeição noturna nas 24 horas anteriores ao início dos sintomas. Além disso, as crianças doentes não tinham rotina de higienização de frutas e vegetais e apresentavam nível socioeconômico abaixo da linha da pobreza, consumindo muitas vezes frutas verdes, podres, caídas no solo e muitas vezes parcialmente comidas (3).

A explicação para a relação entre o consumo de lichia e a doença seria que a falta de alimentação adequada leva à queda de glicose no sangue durante a noite e essa queda é intensificada pelas substâncias presentes na fruta. Crianças pequenas tem limitada reserva de glicose no fígado, o que faz com que se inicie mais rapidamente o uso de gordura corporal para produção de energia. Entretanto, os compostos presentes na lichia também inibem esta via do metabolismo, causando então a hipoglicemia (glicose sanguínea baixa) e a encefalopatia (dano e mau funcionamento cerebral) agudas, uma vez que a glicose é a única fonte de energia para o cérebro. Os pesquisadores destacam que apesar de a lichia ser muito comum em todo o vilarejo de Muzaffarpur, muitas vezes somente uma criança em toda a vila chega a desenvolver a doença. Assim, a combinação de refeições ausentes e fatores como baixo estado nutricional, alto consumo de lichia e variações genéticas ainda não identificadas pode resultar na doença (1).

Talvez, ao se deparar com os casos de Muzaffarpur, o primeiro pensamento seja “será que precisamos reduzir o consumo de lichias?” Com certeza não, uma vez que foram casos específicos a uma determinada região e a relação de causalidade ainda permanece em aberto. A história das lichias apresenta uma questão muito mais profunda, uma vez que fica claro o papel das condições de vida das crianças afetadas. Além disso, evidencia os desafios de se fazer pesquisa em locais com recursos limitados. Em entrevista ao jornal El Pais, a pesquisadora Padmini Srikantiah, uma das autoras do estudo, ressalta como a falta de recursos impede o avanço da pesquisa, em especial na área de saúde pública. Dezoito anos se passaram desde os primeiros casos, e foi necessária a colaboração de uma grande equipe de profissionais, numa parceria indo-americana para se investigar as mortes dessas crianças. Qualquer tentativa anterior de elucidar a causa da doença sem explicação acabou sendo deixada de lado, cenário que se repete em diversas partes do mundo. “Somente um enfoque sistemático, contando com médicos, epidemiologistas, cientistas, toxicologistas… pode conseguir os dados necessários para se obter conclusões úteis”, diz Srikantiah (4).

  1. Shrivastava A, Kumar A, Thomas JD, Laserson KF, Bhushan G, Carter MD, et al. Association of acute toxic encephalopathy with litchi consumption in an outbreak in Muzaff arpur, India, 2014: a case-control study. Lancet Glob Health. 2017 [Epub ahead of print]. Link: http://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(17)30035-9/fulltext?rss=yes&sf53601112=1
  2. Blake OA, Bennink MR, Jackson JC. (2006). «Ackee (Blighia sapida) hypoglycin A toxicity: dose response assessment in laboratory rats».Food and Chemical Toxicology44 (2): 207-213. PMID 16099087.
  3. http://www.nutritotal.com.br/mod/noticia/view.php?id=29367
  4. http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/02/internacional/1486047108_040648.htm
  • Imagem: http://metropolerevista.com.br/wp-    content/uploads/2014/01/d07736ae9f48432bfb9b6373eda534ba.jpg
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