Lugar de mulher é na estante

Quando eu entro na casa de pessoas queridas, uma das primeiras coisas que noto é a sua estante. Ali estão todas as suas principais referências, autores que costuma referenciar e reverenciar no seu íntimo. Inevitavelmente, compostas, em sua grande maioria, de autores homens.

Seria cômico, se não fosse trágico, que nem ao menos 50% de mulheres nos venham à mente em qualquer assunto. Falar de “gênero” não passa, de modo obrigatório, por falar de sexualidade, cisheteronormatividade, ou do que talvez sejam tidos como os temas clássicos do feminismo, ainda que o tema seja o movimento feminista. Falar de gênero é importante se conseguimos colocar mais mulheres em nossa estante.

Para ilustrar o que digo, vou contar de um amigo que, certa vez, na melhor das intenções, elaborou um programa para falar com seus alunos sobre o feminismo e “esqueceu” de incluir ao menos uma mulher na bibliografia. Ao ver aquilo, eu não ri, fiquei muito séria, e ao ser perguntada como ele poderia mudar aquilo, inspirada na Bela Gil, eu disse: “nessa parte, você pode trocar o Chico pela Elis, por exemplo”.

A frequência com que homens passam para a História ao mesmo tempo em que mulheres são apagadas impressiona ainda hoje (Filme Estrelas Além do Tempo, EUA, 2017). Contudo é para fazer justiça não apenas a essas mulheres como também às áreas onde elas fizeram carreira. Ao presumir que nenhuma mulher nunca falou de um certo tema, estamos apagando alguns séculos na história da luta pela inclusão social das mulheres ao mesmo tempo em que apagamos parte importante na história desse mesmo tempo.

Sabe-se que Simone De Beauvoir escreve uma epígrafe em seu tão falado e pouco lido ‘O Segundo Sexo’ (1949) citando a Poulain de La Barre, um dos homens que mais lutou pelo acesso igualitário à educação no século XVII, ainda antes da obra mal-sucedida de Rousseau ao pregar uma educação divergente para Emílio e Sophie (ROUSSEAU, J.-J. “Emílio, ou: Da Educação”, 1762). Ou seja: ao falar de qualquer assunto ou Ciência, é possível fazê-lo citando igualmente a homens e mulheres.

A história dos movimentos sociais nunca encontrou apenas em um dos lados suas fontes e seus intelectuais. A onda seiscentista pela libertação dos escravos negros nas colônias dos países europeus contou com fervorosos apoiadores entre a camada branca da população. Sartre prefaciou um dos maiores escritores africanos do nosso tempo, Frantz Fanon (Os Condenados da Terra, 1961). Como então falar de um movimento que eu não protagonizo?

Vamos começar por encher as nossas estantes de mulheres que fizeram História, vamos ler mais sobre elas e suas obras (GARCIA, Carla Cristina. Breve História do Feminismo. São Paulo, Claridade, 2011). E vamos, enfim, citá-las em nossos trabalhos, como não fez Bourdieu no célebre “A Dominação Masculina” (BURAWOY, Michel. O Marxismo Encontra Bourdieu. Campinas, Unicamp, 2010), e como muitos outros ainda não fazem.

Aos poucos, afinal, vamos assim completar a metade que falta em nossas estantes.


Extra: sugestões de páginas para seguir no Facebook.

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