Por uma nova conceituação histórica da Era das Revoluções

Em um ensaio publicado em novembro do ano passado, o historiador Laurent Dubois fez uma asserção provocadora: se quisermos encontrar um exemplo da expressão máxima dos valores universais que marcaram a Era das Revoluções, é para o Haiti—e não para a França ou Estados Unidos—que devemos olhar. Com isso, vem um apelo para que historiadores e cientistas sociais revejam o modo como tradicionalmente concebem e escrevem a história do pensamento político moderno a fim de construir uma nova narrativa, na qual perspectivas de múltiplos sujeitos históricos possam ser incorporadas. Isso é necessário, argumenta o autor, para que se possa construir uma nova política no futuro na qual o legado da escravidão possa ser de fato superado, em lugar de constantemente revisitado.[1]

Dubois, um dos maiores especialistas da revolução haitiana na atualidade, acredita que o campo ideal para promover essa mudança é o da história Atlântica, que se ocupa, grosso modo, da história da conquista e colonização das Américas, englobando por conseguinte também a África e a Europa, de onde vieram muitos dos agentes dessa história. Dentro do campo da história Atlântica, a chamada Era das Revoluções (termo se refere ao conjunto de movimentos políticos e sociais que ocorreram ao redor do mundo ocidental entre o final do século XVIII e a primeira metade do XIX ) ganha destaque por ter engendrado um novo período histórico, pondo fim ao Antigo Regime e desconstruindo grande parte do sistema colonial. A narrativa dominante insiste que o epicentro da Era das Revoluções se encontra nos movimentos revolucionários levados a cabo nos Estados Unidos (1776) e na França (1789), com repercussões ao redor do Ocidente.

Esses foram, sem dúvida, episódios significativos nos quais a luta por direitos colocou em xeque tanto o sistema colonial quanto o sistema absolutista (respectivamente). No entanto, o historiador ressalta que foi durante a Revolução do Haiti (1791-1804)  que a batalha por direitos alcançou seu ponto máximo, posto que foi levada a cabo por sujeitos totalmente excluídos da esfera política até então: os escravizados de uma colônia de exploração. Não se trata de rejeitar a Revolução Francesa ou a Revolução Estadunidense, mas de reajustar a perspectiva. Afinal, o que sucedeu no Haiti não foi apenas uma batalha por direitos, mas pelo direito a ter direitos, o que Dubois considera a expressão mais radical dos ideários que marcaram a Era das Revoluções; logo, aí deve estar seu epicentro.

Mas afinal, quais seriam os efeitos dessa nova mirada centrada no país caribenho? Um dos desdobramentos mais imediatos provavelmente seria maior ênfase em estudos sobre a África. Isso porque, como Dubois constatou em suas pesquisas, a maior parte dos sujeitos envolvidos na revolução escrava haitiana eram africanos recentemente transplantados à colônia francesa; portanto, a tradição política—as instituições, os conceitos, modelos de liderança, etc.—desses atores era uma tradição política  africana (mais precisamente da África Central, de onde a maior parte das pessoas escravizadas no Haiti vieram[2]), distinta da tradição política de matriz europeia. Logo, para entender a fundo as motivações por trás das ações daqueles que lutaram na revolução faz-se necessário desvendar as referências que informaram tais ações. E nosso conhecimento atual sobre essa tradição política africana ainda é incipiente. Dubois reconhece a dificuldade do desafio, posto que a complexidade da região centro-africana e a escassez de fontes documentais escritas com as quais historiadores estão habituados a trabalhar contribuem para tornar a tarefa particularmente árdua. Mas com uma agenda de pesquisa comprometida e financiamento adequado, podemos desvendar conceitos e ideários políticos que talvez nos sejam úteis no momento atual. Afinal, a crise da política que hoje vivemos a nível mundial sugere que os modelos tradicionais estão esgotados.

Além disso, ampliar nosso conhecimento sobre o continente africano de modo geral significa também enriquecer o entendimento sobre as várias histórias nacionais americanas, uma vez que trará à luz novas ferramentas para entender as contribuições dos povos africanos no Novo Mundo. À medida em que se souber mais sobre a origem exata das pessoas forçosamente escravizadas e enviadas à América, poder-se-á melhor desvendar traços culturais, costumes, linguagens, etc. específicos que também conformam a história das Américas, mas que infelizmente ainda não somos capazes de identificar. Um bom exemplo de como esse conhecimento específico é importante para interpretar o passado nas Américas é a Revolta dos Malês, uma rebelião de negros muçulmanos que ocorreu na Bahia em 1835. Para entender como foi possível que no Brasil houvesse uma revolta negra islâmica é preciso saber que naquela época grande parte dos homens e mulheres vendidos como escravos na Bahia vinham, como descobriu o historiador João José Reis, de portos africanos no golfo do Benim, onde a religião muçulmana era comumente professada.[3]

Reposicionar a Revolução do Haiti no centro da Era das Revoluções também nos obriga a analisar os impactos que a mesma teve sobre as demais regiões do mundo Atlântico. Os historiadores estão cada vez mais conscientes a respeito dessas influências, graças a estudos como os de David Geggus, Ada Ferrer, e Julia Gaffield, para citar alguns[4], mas revisitar algumas análises já bem estabelecidas pelo prisma haitiano talvez seja necessário também, a fim de reavaliar a preeminência francesa e norte-americana. Como ficaria, por exemplo, a história da sedição baiana de 1798, fortemente associada à Revolução Francesa, se o Haiti figurasse de forma mais assertiva na análise?[5] Eis uma tarefa para os pesquisadores que pode contribuir significativamente para ajudar a desbancar a narrativa hegemônica eurocentrista que ainda hoje impera nos currículos escolares.

Referências citadas:

[1] DUBOIS, Laurent. “Why Haiti should be at the centre of the age of revolution.” AEON, novembro, 2016. Disponível em: https://aeon.co/essays/why-haiti-should-be-at-the-centre-of-the-age-of-revolution. Último acesso: 7/2/17.

[2] HEYWOOD, Linda, e John Thornton. Central Africans, Atlantic Creoles, and the Foundation of the Americas, 1585-1660. New York : Cambridge University Press, 2007.

[3] REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Cia. das Letras, 2003. Uma versão resumida pode ser lida em um artigo que o autor preparou para a Revista de História em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/dossie-imigracao-italiana/o-sonho-da-bahia-muculmana

[4] GEGGUS, David (ed.) The impact of the Haitian Revolution in the Atlantic world. Columbia: University of South Carolina, 2001; FERRER, Ada. Freedom’s mirror : Cuba and Haiti in the age of revolution. New Yor: Cambridge University Press, 2014; GAFFIELD, Julia. Haitian connections in the Atlantic World : recognition after revolution. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2015.

[5] Veja-se, por exemplo, JANCSÓ, István. Na Bahia, contra o Império : história do ensaio de sedição de 1798. São Paulo: Editora Hucitec; Salvador: EDUFBA, 1996.

 

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