Dia Internacional das Mulheres e Garotas na Ciência: celebrar ou lutar?

Amanhã, dia 11 de fevereiro, é o dia Internacional das Mulheres e Garotas na Ciência.[1] Nesta data, mais do que para celebrar, somos convidadas a lutar pelos nossos direitos, por um mercado de trabalho igualitário e por mais participação das mulheres nas tomadas de decisões.

Os homens são maioria esmagadora em cargos de alto status sócio-econômico, enquanto as mulheres são mantidas às margens do desenvolvimento, da elaboração de políticas públicas e ainda são as mais afetadas por eventos climáticos extremos (secas, enchentes etc).[ 2,3]

Em relatório da UNESCO intitulado “A diferença de gênero está diminuindo na ciência e na engenharia?“, a pesquisadora e diretora executiva Dra. Sophia Huyer apresenta informações atuais das condições das mulheres nessas áreas e apresenta soluções para melhorarmos a nossa situação.[3]

A pesquisadora observou que mundialmente na área científica existe um “vazamento” de mulheres (Figura 1). 53% dos alunos que terminam um bacharelado são mulheres, a mesma quantidade de mulheres completa o mestrado e dá início ao doutoramento. Nesta fase inicia-se a perda de pesquisadoras com uma queda de 10% no número das que obtém o título de doutora. Após o doutorado, apenas 28% das cientistas conseguem se manter na área, resultando em um total de 72% de homens cientistas bem sucedidos.[3]

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Figura 1. “O vazamento no cano”: parcela de mulheres no ensino superior e na pesquisa em 2013. Figura retirada e modificada de relatório científico da UNESCO e da pesquisadora Dra. Sophia Huyer.[3]

Dados da América Latina e Caribe mostram que 45% das mulheres cientistas estão trabalhando ativamente na área. Apesar deste número estar acima da média mundial, nos últimos 10 anos, as mulheres têm perdido espaço nesta região do globo. Ainda é comum observar práticas institucionais que desvalorizam as mulheres e um modelo social no qual espera-se das cientistas tempo integral de dedicação à pesquisa e tempo superior do que o dos homens com cuidados domésticos.[3]

Ainda nesta região, as mulheres têm relativa participação em algumas áreas como saúde, agricultura e gerenciamento do meio ambiente, porém, são excluídas dos momentos de decisões, de monitoramento e de implementação  de resultados.[3]  O mais assustador é observar que as mulheres ainda são minoria na elaboração de políticas públicas, inclusive quando as leis são relacionadas aos nossos direitos e em relação ao nosso próprio corpo.[4,5,6]

Voltando para o âmbito mundial da ciência e engenharia, observa-se que as mulheres frequentemente deixam os seus trabalhos por razões familiares e trocam de carreira mais do que os homens. Esses dados mostram que precisamos focar em soluções para “arrumar o sistema”, como descrito pela Dra. Sophia Huyer, de forma a compreender os pontos de divergências, os obstáculos e o perfil cultural que obriga mulheres a abandonar a ciência.[3]

Mas, falemos em soluções. A UNESCO encoraja os governos, instituições de pesquisa e empregadores a:

  • implementar políticas que promovam o acesso de mulheres ao trabalho, à pesquisa e à ciência, além de garantir que a educação seja acessível e de qualidade;
  • garantir a representação igualitária entre mulheres e homens na pesquisa científica, nas tomadas de decisão e na elaboração de políticas públicas;
  • empoderar mulheres (e garotas) para que se sintam confiantes a expor abertamente suas ideias;
  • adotar critérios transparentes e igualitários em processos seletivos, promovendo a diversidade e o respeito aos diferentes grupos dentro dos ambientes de trabalho;
  • financiar treinamentos em empreendedorismo e impulsionar mulheres a conquistar novos desafios.[3]

Como mostrado em postagem anterior, a igualdade de gêneros garante mais do que justiça entre mulheres e homens, ela garante um futuro mais rico e sustentável para o planeta. Governos, instituições de pesquisa e empresas têm muito a ganhar com ambientes onde a diversidade de gênero prevalece, pois pessoas com experiências de vida diferentes apresentam diferentes perspectivas e são capazes de criar soluções mais eficientes para os problemas atuais. Parafraseando o relatório da UNESCO, a luta pela igualdade de gêneros deveria ser uma prioridade para a comunidade global, se é que realmente queremos atingir as próximas metas de desenvolvimento.[3]

Referências

  1. http://www.unesco.org/new/en/unesco/events/prizes-and-celebrations/celebrations/international-days/int-day-of-women-and-girls-in-science/international-day-of-women-and-girls-in-science-2017#.WJSa1_krI2w
  2. EIGE (2012) Women and the Environment: Gender Equality and Climate Change. European Institute for Gender Equality. European Union: Luxembourg.
  3. https://en.unesco.org/sites/default/files/usr15_is_the_gender_gap_narrowing_in_science_and_engineering.pdf
  4. http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/12/01/interna_gerais,828972/aborto-decidido-caso-a-caso.shtml
  5. http://www.scielo.br/pdf/rsp/v36n3/10487.pdf
  6. https://www.brasildefato.com.br/2016/11/30/aborto-continua-sendo-ilegal-no-brasil-entenda-o-impacto-da-decisao-do-stf/

Imagem em destaque retirada de Pixabay (CC0 Public Domain, no attribution required)

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Um comentário sobre “Dia Internacional das Mulheres e Garotas na Ciência: celebrar ou lutar?

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