Livro “A guerra não tem rosto de mulher” conta a trajetória de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial através da História Oral

Embora muitas vezes se diga que a História é contada pelos vencedores, pesquisadoras e pesquisadores tem tentado, já há algum tempo, mudar esse cenário. Histórias de pessoas comuns, de trabalhadores, de mulheres, de minorias étnicas, vem ganhando espaço nas pesquisas acadêmicas. (Às vezes os resultados demoram para chegar ao público geral, e iniciativas como o blog Cientistas Feministas tem justamente a intenção de aproximar universidade e sociedade.)

Um dos campos historiográficos que tem possibilitado contar essas outras histórias é a História Oral. Segundo o CPDOC, a História Oral começou a ser utilizada na década de 1950 nos Estados Unidos, México e Europa e difundiu-se desde então. No Brasil, foi a partir dos anos setenta que começaram os trabalhos com entrevistas como fontes de pesquisa. Nessa mesma década, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch começou a colher depoimentos de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O resultado foi “A guerra não tem rosto de mulher”, o primeiro livro da jornalista.

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Imagem: três guerrilheiras soviéticas em ação durante a II Guerra. Fonte: The Atlantic

Publicado primeiro em uma edição curta em uma revista soviética em 1984 e no ano seguinte no formato de livro, o texto foi traduzido para o português e lançado no Brasil somente no ano passado. “A guerra não tem rosto de mulher” intercala trechos de depoimentos com comentários da autora. Nesses espaços, Svetlana reflete sobre o próprio fazer de sua obra e da dificuldade de trabalhar com esse tipo de material.

Uma das preocupações acerca da História Oral é como ela se aproxima do que “de fato aconteceu”. Mesmo com outros tipos de documento como suporte, no entanto, tal tarefa é impossível: não existe a verdade absoluta sobre o passado. Nas palavras do historiador David Lowenthal:

Não há verdade histórica absoluta à espera de ser descoberta; por mais diligente e imparcial que o historiador seja, ele, assim como nossas lembranças, não estará apto a relatar o passado “como ele realmente foi”. Nem por isso a história fica invalidada; persiste a crença de que o conhecimento histórico venha a lançar alguma luz sobre o passado, e que componentes da verdade ainda nele permaneçam (LOWENTHAL, 1998, p.143-4).

Svetlana Aleksiévitch coletou depoimentos de mais de quinhentas mulheres. Ouviu histórias de tanquistas, franco-atiradoras, enfermeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, lavadeiras, comandantes, partisans… Ela explica porque quis ouvir mulheres que exerceram atividades tão diferentes:

Depois de classificar os endereços que tinha, formulei assim: tentar entrevistar mulheres de diferentes profissões militares. Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta… Cada uma delas esteve na guerra que existia em seu raio de visão: a de uma era a mesa de cirurgia: “Vi tantos braços e pernas amputados… Já nem acreditava que em algum lugar havia um homem inteiro. Parecia que todos estavam feridos ou mortos…” (A. Diémtchenko, primeiro-sargento, enfermeira); de outra, os caldeirões da cozinha de campanha: “Depois de um combate às vezes não sobrava ninguém… Você cozinhava caldeirões de mingau, caldeirões de sopa, e não havia para quem dar…” (I. Zínina, soldado, cozinheira); a da terceira era a cabine de piloto: “Nosso acampamento ficava na floresta. Cheguei do voo e decidi entrar na floresta; já estávamos no meio do verão, os morangos estavam no ponto. Passava por uma trilha quando vi um alemão no chão… Ele já estava escuro… Me deu medo. Até aquele momento ainda não tinha visto mortos, e já combatia na guerra havia um ano. Lá no alto era diferente… Quando você está voando, só pensa em uma coisa: encontrar o alvo, bombardear e voltar. Não chegávamos a ver os mortos. Não tínhamos esse medo…” (A. Bóndarieva, tenente da guarda, piloto).

Nos trechos selecionados pela autora para o livro, percebe-se uma preocupação que ela mesma afirma ter:

Estou escrevendo uma história dos sentimentos… Uma história da alma… Não é a história da guerra ou do Estado, e não é a hagiografia dos heróis, mas a história do pequeno ser humano arrancado da vida comum e jogado na profundeza épica de um acontecimento enorme. Na grande História.

Os depoimentos trazem o dia a dia na guerra, os cheiros e cores do conflito. Trazem também a dureza de ser mulher em um ambiente masculino:

Não havia algodão e ataduras suficientes para os feridos… Para outros usos, então… Roupa de baixo feminina só apareceu uns dois anos depois, talvez.
Maria Semiónovna Kaliberdá, sargento, comunicações

Ainda sobre menstruação, uma outra mulher contou:

E, por causa da sobrecarga, deixamos de ser mulheres… Se transformou, a nossa… Perdemos nosso ciclo biológico… Dá para entender? Foi terrível. Era terrível pensar que você nunca mais vai ser mulher…
Maria Nésterovna Kuzmenko, primeiro-sargento, armeira

Quando a guerra finalmente acabou, as mulheres que lutaram achavam que finalmente iam ter paz, mas “depois da guerra ainda tivemos mais uma guerra. Terrível também”. Elas contam que foram hostilizadas pelas mulheres que não foram à guerra e pelos homens, que as abandonaram.

Depois de trinta anos começaram a nos homenagear… Convidavam para encontros… No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.
Valentina Pávlovna Maksimtchuk, operadora de artilharia antiaérea

Lendo os relatos, tem-se a certeza de que essa história precisa ser contada, ainda que seja difícil. Nas palavras de uma delas: “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Rememorar a violência, as mortes, o cotidiano duro e transformar isso em palavras é o mais próximo que conseguimos chegar do que essas mulheres passaram:

Será que alguém que não esteve lá consegue entender? E como contar? Com que rosto? Bom, me responda você: com que rosto isso deve ser recordado?
Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sargento da guarda, enfermeira-instrutora

Referências:

ALESKIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

LOWENTHAL, David, “Como conhecemos o passado”, Projeto História, [v.]17, 1998. Disponível em:
< http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11110/8154 >. Acesso em: 16 mai. 2016.

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