A academia e o tapinha nas costas

omis

Detalhe de uma propaganda veiculada pela cerveja Ballantine Ale, na década de 1950.

Diversas vertentes do feminismo criticam a dualidade artificial entre o público e o privado, ressaltando seu papel fundamental na reprodução cotidiana do machismo e das opressões de gênero. A construção da dicotomia entre esfera pública e esfera privada é histórica e, portanto, sua naturalidade deve ser contestada. A essa dualidade, corresponde a ideia largamente disseminada de que a política se desenrola na esfera pública, enquanto determinadas situações, temas e experiências são relegados à esfera privada, tida como “apolítica”. O que acontece na esfera privada teria, então, um caráter eminentemente pessoal e íntimo.

Contudo, os papéis de poder na esfera privada e na pública estão vinculados. As relações de poder na esfera pública reproduzem, a seu próprio modo, relações estabelecidas na esfera privada. Por isso, contestar a naturalidade da dualidade entre o “público” e o “privado” é um passo importante para visualizarmos – e combatermos – uma das sutilezas do machismo e da hierarquização de gênero no âmbito acadêmico: os grupos de “amigos” entre pesquisadores homens.

Já há muito, o machismo, no âmbito acadêmico, é criticado e são cada vez mais contestadas, por exemplo, mesas de eventos compostas apenas por homens, bancas cujos membros são todos homens, grupos de pesquisa formados só por homens e por aí vai. Em muitos casos, esses arranjos exclusivamente masculinos acontecem porque os organizadores e coordenadores são abertamente machistas e misóginos, menosprezando a capacidade científica das mulheres. Outras vezes, mobiliza-se o argumento de que não há – ou há muito poucas – mulheres na área. Em grande parte das vezes, no entanto, a ausência de mulheres pode ser reflexo da ausência de problematização da separação artificial entre o público e o privado pelos pesquisadores. Para ilustrar esse argumento, vou descrever um acontecimento recente.

No final do ano passado, em meio às diversas comemorações de fim de ano, um grupo de professores e pesquisadores de esquerda, apoiadores dos feminismos, contrários ao machismo e etc. se reuniram em um jantar só de homens pesquisadores e denominaram seu grupo de “Confraria”. As fotos do jantar da “Confraria” foram publicadas no Facebook de vários deles, alguns até mesmo usando a legenda “a nata da área X”.

Imediatamente, os “confrades” foram criticados por mulheres da mesma área, que apontaram o fato de que, no jantar, só estavam presentes homens e que isso era mais uma expressão da exclusão das mulheres dos espaços acadêmicos. A essas críticas, alguns dos “confrades” responderam que as mulheres estavam confundindo as coisas. Aquele jantar não era um espaço acadêmico. Não estavam debatendo nenhuma pesquisa. Era apenas um encontro de amigos. Aconteceu de ser um jantar, mas poderia ter sido um jogo de futebol ou qualquer outra situação cotidiana e supostamente privada.

O que os “confrades” que reagiram às críticas não perceberam – ou não quiseram perceber – é que não existe essa separação óbvia entre evento acadêmico (público) e jantar de amigos (privado). Como já argumentei acima, esse tipo de separação é artificial e, no caso específico da academia, os laços criados em espaços tidos como privados têm impactos diretos na predominância dos homens nos espaços acadêmicos tidos como públicos.

Ao pensar em pessoas para compor uma mesa de congresso ou em um grupo para iniciar um projeto de pesquisa conjunto, por exemplo, os primeiros nomes que vêm à cabeça dos organizadores são os dos pesquisadores mais próximos, com quem se tem um diálogo mais aberto. Porém, essa “aproximação” ocorre muito mais em momentos “privados” entre colegas – bares pós-congressos, por exemplo – do que nos momentos de debate “público”. Como um pesquisador homem pode ter facilidade para se lembrar da existência de uma pesquisadora mulher na hora de compor um grupo ou organizar um evento se essa relação não foi cultivada em diferentes espaços?

Na maioria dos casos, esse tipo de seleção de gênero não caracteriza uma prática institucionalizada de favoritismo. É bem mais sútil do que isso. Trata-se de socialização, de networking. Trata-se, enfim, de dar um tapinha nas costas. E é nesse processo de socialização que os pesquisadores cotidianamente alijam as pesquisadoras da inserção no meio acadêmico. A maneira como pesquisadores homens socializam entre si é fechada, exclui as mulheres, é feita por meio de códigos que as mulheres não costumam dominar, dominam com custos mais altos ou não são valorizados quando dominados por mulheres. Para uma mulher conseguir entrar nesses ambientes de socialização masculina, são necessários grandes esforços. E, frequentemente, sequer a possibilidade de entrada está disponível. Como no caso dos “confrades”, cujo nome do jantar já indicava a vedação à presença de qualquer mulher.

Ademais, é importante ressaltar que, frequentemente, a exclusão das mulheres dos espaços “privados” de convivência implica um esforço extra para as pesquisadoras nos espaços profissionais, exigindo delas um nível de qualidade de produção que não é exigido dos homens para a obtenção dos mesmos benefícios, uma vez que os pesquisadores contam, para sua ascensão profissional, com um empurrão propiciado pela socialização que exercem com seus pares em ambientes supostamente privados.

Assim como nas relações sociais em geral, a separação entre público e privado não deve ser naturalizada no âmbito acadêmico. Não existe algo como eventos acadêmicos não vinculados a programas “sociais”, “íntimos”, “entre amigos”. Esses diferentes tipos de interações estão intrinsecamente relacionados à vida profissional, contribuem para a reprodução de relações de poder neste último espaço e, assim, levam as opressões de gênero da vida “privada” para a vida “pública”. O tapinha nas costas não é “inocente”. Ele é a materialização do machismo cotidiano em determinada linguagem, justificada pela dicotomia público-privado.

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3 comentários sobre “A academia e o tapinha nas costas

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