O caso de Céspedes: o “gênero fluído” de um(a) liberto(a) na Espanha do século XVI

rizi

(RIZI, Francisco. Auto de Fe en la plaza Mayor de Madrid. 1683. Óleo sobre lienzo, 277 x 438 cm. Museo Nacional del Prado)

No último número do Bulletin for Spanish and Portuguese Historical Studies, as pesquisadoras Aurelia Martín Casares e Magdalena Díaz Hernándes apresentaram uma pesquisa que se propõe a abordar novos aspectos do caso de Elena/Eleno de Céspedes. O artigo publicado se intitula “Nuevas reflexiones sobre ‘Elena, alias Eleno de Céspedes’, transgénero, redes sociales y libertad en la España del siglo XVI”.

Céspedes nasceu de mãe escrava, na Espanha do século XVI. Ela/ele recebeu o nome de Elena e, ao que tudo indica, durante a infância, serviu a família dos senhores de sua mãe. Parece ter sido libertada(o) por volta de seus 15 ou 16 anos, adotando o sobrenome da família à qual havia servido: Céspedes. Nessa mesma época, casou-se com Cristóbal Lombardo, um pedreiro, com quem teve um filho.

Em um dado momento de sua vida, “abandonou” seu marido e seu filho e mudou-se para o sul da Espanha, perto da região de Cádiz, onde se envolveu em uma briga com um homem chamado Heredia. As pesquisadoras apontam como causa provável dessa briga questões em torno de alguma mulher. Em razão dessa briga, foi presa(o) pela primeira vez. Por sofrer ameaças dos companheiros de Heredia, Céspedes deixou de usar roupas “de mulher” e passou a vestir-se “como homem”. Também foi a partir daí que passou a desempenhar trabalhos tidos como masculinos como, por exemplo, lavrador e pastor.

Após seis meses, foi acusado(a) de “monfi” (“mouros” que fugiram de Granada, que estava sob domínio dos castelhanos) e foi novamente detido(a). Depois de conseguir a liberdade, Céspedes foi obrigada(o) a vestir-se como mulher. Logo após essa época, começou a ter um caso com a irmã do pároco da região e, após ser descoberto(a), alistou-se voluntariamente para lutar na Rebelião dos Mouriscos de Alpujarras (1568-1571). Nesse momento, voltou a vestir-se como homem. As autoras ressaltam que, nessa rebelião, e em outros conflitos armados do período, algumas mulheres participaram como “soldados mulheres”. Céspedes, no entanto, ao participar como “soldado homem”, teria escapado de estupros e outras violências que essas mulheres que participaram como “soldados mulheres” sofreram ao longo dos conflitos.

Depois de muitos anos de andanças pela Andaluzia, Céspedes se estabeleceu em Ciempozuelos, onde trabalhou como cirurgiã(o). Nessa época, decidiu se casar com María del Caño. Seguindo os ritos da época, os proclamas do casamento foram pregados na porta da igreja local. Nesse momento, Céspedes foi acusado(a) de ser mulher por Isabel Ortíz, uma viúva que também alegava que ele/ela a havia feito promessa de matrimônio. Após receber a denúncia, o vigário de Madrid ordenou um exame de Céspedes e os médicos concluíram que se tratava de um homem. O casamento com María del Caño foi então realizado e o casal se mudou para Ocaña.

Em Ocaña, no entanto, cruzou seu caminho um “alguacil” (uma espécie de oficial de justiça), que o/a tinha conhecido nas guerras contra os “mouros”. O alguacil, então, denunciou Céspedes por ser mulher e andar com roupas de homem e por estar casado/a com uma mulher, não sendo homem. A denúncia gerou um processo que terminou sendo julgado pelo Tribunal da Inquisição. Ao final, Céspedes foi condenado(a), pelo crime de bigamia, a uma pena de duzentos açoites e, em um “auto de fé” (evento de penitência realizado publicamente), teve que aparecer vestido(a) de mulher e, em seguida, de homem.

As pesquisadoras propõem analisar esse caso sob a luz do conceito de “gênero fluído”. Para elas, Céspedes não se encaixaria facilmente em nenhum dos gêneros. Céspedes navegava entre os gêneros: “una parte de Céspedes se adapta y muta con respecto a las circunstancias exógenas que va vivendo, haciendo visible su género fluido” (p. 31). Essa condição de “gênero fluído” teria sido, inclusive, mobilizada por Céspedes durante o processo perante a Inquisição: ela/ele se referia ao tempo em que andava vestida/o e comportando-se como mulher como uma manifestação de seu “hermafroditismo”.

“A pesar de que gran parte de los estudios sobre Céspedes indican que fue obligada por la Inquisición a aceptar su naturaleza de mujer, consideramos que ella adaptó el discurso de su hermafroditismo. Primero porque hablaba en pasado sobre sus capacidades sexuales y actividades como hombre y después por argumentar haber sufrido un supuesto cáncer en sus genitales masculinos. Gracias a sus conocimientos de medicina y su gran capacidad de adaptación a las circunstancias pudo salvarse de una condena más dura de la Inquisición. Ese es el gran valor de Elena de Céspedes, haber aprovechado las circunstancias más duras de su vida para conformar su realidad transgénero, viajando de un género a otro – género fluido – cuando las circunstancias externas lo exigían y construyendo su orientación sexual hacia las mujeres desde su momento no elegido: dar a luz.” (p. 40)

Outro ponto que as autoras ressaltam é a importância das redes sociais que Céspedes foi construindo ao longo de sua vida. Foram essas redes que possibilitaram sua ascensão social, o que contribuiu com a relativa autonomia que ele/ela gozou para exercer seu “gênero fluido”.

Em suma, o que o artigo de Martín Casares e Díaz Hernándes mostra é que Céspedes resistiu reiteradamente a subordinação às categorias de mulher e escravo(a), mobilizando as armas discursivas e performativas que compunham o imaginário político e social da Espanha do século XVI, um mundo marcado pela hierarquização social de gênero.

Referência bibliográfica

DÍAZ HERNÁNDEZ, Magdalena; MARTÍN CASARES, Aurelia. “Nuevas reflexiones sobre ‘Elena, alias Eleno de Céspedes’, transgénero, redes sociales y libertad en la España del siglo XVI”, Bulletin for Spanish and Portuguese Historical Studies, v. 41, n. 1, 2016, pp. 27-41. Disponível em: http://digitalcommons.asphs.net/bsphs/vol41/iss1/2/

* Ao longo do artigo, podem ser encontradas diversas referências a outros trabalhos acadêmicos sobre Céspedes, bem como a pesquisas sobre outras mulheres que viveram conflitos relacionados ao seu gênero durante o período medieval.

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