Microbioma: uma questão de peso

Festas e verão chegando e uma das mais famosas resoluções para o novo ano é perder peso. Dietas podem até funcionar em curto prazo, mas em poucos meses os quilinhos a mais estão de volta e, com ele, o maior pesadelo de quem vive de dieta: o efeito sanfona. Pergunta-se então: por que a perda de peso não se mantém? Pesquisadores do Weizmann Institute of Science parecem ter parte dessa resposta. Em um estudo publicado pela revista Nature, eles descrevem que o microbioma pode ter papel importante no reganho de peso pós-dieta e sugerem que a sua modulação pode ser a chave para manter o peso saudável(1).

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O microbioma pode ser definido como o grupo de genes codificados pelo genoma da microbiota intestinal – bactérias que colonizam o intestino dos seres humanos. A microbiota intestinal tem uma relação de simbiose com o organismo humano desde o nascimento, e sugere-se que participa da formação do sistema imunológico e contribui para o desenvolvimento da vasculatura intestinal e do sistema nervoso. Estima-se que um terço das pequenas moléculas circulantes no sangue provêm da microbiota(2). Entretanto, pouco se sabe sobre o desenvolvimento desses microrganismos. Estudos mostram que a composição da microbiota intestinal é resultado de fatores como idade, padrão alimentar, estilo de vida e fatores genéticos. Foram demonstradas também diferenças na população de bactérias intestinais entre indivíduos magros e obesos(2).

A pesquisa publicada na revista Nature foi realizada em camundongos que se tornaram obesos e depois foram submetidos a uma dieta para perda de peso. Os pesquisadores coletaram informações do microbioma desses animais antes e depois da dieta e relataram que após perder peso, todos os sistemas do organismo estavam revertidos para o normal (pré-obesidade), exceto o microbioma. Essa resposta “anormal” do microbioma se manteve por pelo menos seis meses, e foi chamada de “assinatura do microbioma”. Assim, quando os camundongos voltaram a se alimentar com alimentos em excesso, o ganho de peso voltou a acontecer. Os autores também desenvolveram um algoritmo para prever a recuperação de peso pós-dieta de maneira individualizada(1).

Outro dado interessante na fase pós-dieta foi a redução da concentração de flavonoides (compostos amplamente encontrados nas frutas e vegetais) pelo microbioma anormal (3). Com base nesse achado, os pesquisadores adicionaram flavonoides à agua de um grupo de camundongos pós-dieta, o que preveniu o ganho de peso excessivo nesses animais ao voltar para a dieta mais calórica. Segundo os pesquisadores, essa intervenção seria mais eficaz do que adicionar probióticos (microorganismos selecionados com o objetivo de recolonizar a microbiota), uma vez que se oferece substâncias realmente afetadas pelo microbioma(1).

Apesar de se tratar de estudo em animais, os resultados dão base para futuras pesquisas em seres humanos e podem ajudar no diagnóstico e tratamento da epidemia de obesidade. Fica cada vez mais claro que dietas “milagrosas” não existem e que é necessário reeducar nosso corpo e oferecer a ele o que ele realmente precisa o tempo todo, e não somente para próximo verão.

  1. Thaiss CA, Itav S, Rothschild D, Meijer M, Levy M, Moresi C, et al. Persistent microbiome alterations modulate the rate of post-dieting weight regain. Nature. 2016.
  2. Annalisa N, Alessio T, Claudette TD, Erald V, Antonino de L, Nicola DD. Gut microbioma population: an indicator really sensible to any change in age, diet, metabolic syndrome, and life-style. Mediators Inflamm. 2014;2014:901308.
  3. Arabbi PR, Genovese MI, Lajolo FM. Flavonoids in vegetable foods commonly consumed in Brazil and estimated ingestion by the Brazilian population. Journal of agricultural and food chemistry. 2004;52(5):1124-31.

Imagem: http://www.nature.com/nature/focus/humanmicrobiota/images/main_bg.jpg

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Um comentário sobre “Microbioma: uma questão de peso

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