As plantas e a aprendizagem

Por muito tempo, acreditou-se que a aprendizagem e o poder de escolha eram processos que apenas os animais poderiam apresentar. Parece óbvio, visto que um animal pode, por exemplo, escolher entre se alimentar de um animal X ou Y devido à sua capacidade de locomoção. Caso seja mais bem sucedido ao se alimentar do animal X, o animal pode aprender a buscar o mesmo alimento, ou caso se alimente de Y e não tenha o resultado desejado, na próxima oportunidade irá se alimentar de X. Existem estudos com animais de laboratório que mostram um tipo particular de aprendizagem, a chamada aprendizagem por associação. Este tipo de aprendizagem foi descrito por Ivan Pavlov, um médico russo que demonstrou o reflexo condicionado em um experimento feito com cachorros. Ao receberem alimento, os cães ouviam um sino tocar e com isso associavam a alimentação com o barulho. Com o passar do tempo, ao ouvirem o sino tocando, os animais salivavam mesmo sem a presença de comida. Ou seja, os animais aprenderam através de um processo de associação que o alimento estava ligado a um estímulo (no caso o barulho do sino). Na natureza, esses mecanismos favorecem a sobrevivência dos indivíduos, determinando o seu sucesso.

Ao contrário dos animais, as plantas utilizam a luz solar para fazer fotossíntese e produzir seu próprio alimento. Para conseguir maior exposição à luz, as partes aéreas (caules e folhas) das plantas se movimentam em direção às fontes luminosas, em um processo chamado fototropismo positivo. Entretanto, acreditava-se que esse mecanismo seria apenas algo “inconsciente”, e não uma escolha da planta em direção à luz, mas um novo estudo veio desmistificar essa concepção. Foram colocadas sementes de ervilheira (Pisum sativum) em um labirinto em formato de Y, e as sementes poderiam ter duas direções para crescer. Nele, assim como no estudo de Pavlov, um sinal estava associado àpresença de luz): um ventilador era acionado antes da emissão do sinal luminoso, em um dos lados do labirinto. Foram feitos dois grupos (Figura 1): no primeiro, o ventilador e o sinal luminoso estavam no mesmo lado do labirinto (V+L – grupo 1), enquanto no outro estavam em lados opostos (V versus L – grupo 2). Houve um período de “treinamento”, no qual o sinal luminoso era precedido em meia hora pelo ventilador, alternando os braços do labirinto para garantir que a resposta da semente não fosse apenas fisiológica.

Após o período de treinamento, o ventilador era acionado e, mesmo sem o acionamento do sinal luminoso, observou-se uma diferença significativa entre as sementes que cresciam de acordo com seu treinamento (grupos 1 ou 2). Isso significa que as sementes do grupo 1 cresciam para o lado do ventilador, enquanto as sementes do grupo 2 cresciam para o lado oposto do ventilador, mesmo sem o acionamento do sinal luminoso em ambos os casos. Desse modo, as sementes de ervilheira demonstraram a capacidade de apresentar o mesmo comportamento que Pavlov observou em cães.

Esses resultados nos fazem repensar as certezas que tínhamos em relação às plantas: será que as plantas têm um nível de consciência semelhante aos animais, apesar da ausência de um sistema nervoso? Alguns historiadores já pensaram sobre isso, e decidiram ir além: levantaram o questionamento – foram os homens que domesticaram as plantas, ou as plantas que domesticaram os homens?

“As plantas domesticaram o Homo sapiens, e não o contrário. Pense por um instante na Revolução Agrícola do ponto de vista do trigo. Há dez mil anos, o trigo era apenas uma gramínea silvestre, uma de muitas, confinada a uma pequena região do Oriente Médio. De repente, em alguns milênios, estava crescendo no mundo inteiro. De acordo com os critérios evolutivos elementares de sobrevivência e reprodução, o trigo se tornou uma das plantas mais prósperas na história do planeta. (…) Como essas gramíneas passaram de insignificantes a onipresentes? O trigo fez isso manipulando o Homo sapiens a seu bel-prazer. Esse primata vivia uma vida confortável como caçador-coletor até por volta de 10 mil anos atrás, quando começou a dedicar cada vez mais esforços ao cultivo do trigo. Em poucos milênios, os humanos em muitas partes do mundo estavam fazendo não muito mais do que cuidar de plantas de trigo do amanhecer ao entardecer.”

Se isso é verdade ou não, não podemos afirmar com certeza. Mas definitivamente os limites que diferenciam os animais das plantas estão se mostrando cada vez mais tênues.

Referências:
GAGLIANO, M. et al. Learning by Association in Plants. Scientific Reports.
Sapiens – Uma breve história da humanidade. Yuval Noah Harari

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