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Doenças cardiovasculares e recomendações nutricionais: perspectivas para pesquisas futuras

As doenças cardiovasculares (DCV) são uma das principais causas de morbimortalidade no Brasil e no mundo. A medida preventiva é velha conhecida: alimentação com pouca gordura saturada (origem animal) e exercícios físicos. Entretanto, um recente estudo questiona a recomendação dietética atual e condena outro componente alimentar: o excesso de carboidratos(1).

Os estudos anteriores tinham como unidade de análise estatística os itens alimentares selecionados (por exemplo, leite, peixes, carnes, verduras separadamente) e individuais (dados coletados de cada indivíduo estudado), sendo limitados por erros de reportagem dos participantes. O aspecto inovador deste estudo é a abordagem ecológica(2), que tem como unidade de análise um grupo de indivíduos agregados em função de fatores geográficos e temporais obtidos por meio de um banco de dados demográficos de 42 países da Europa. Assim, a abordagem ecológica analisa o hábito alimentar de forma mais ampla. Os autores do estudo também mencionam que os ensaios clínicos anteriores (tipo de estudo com maior poder de evidência) foram realizados por períodos curtos de tempo, tornando os dados imprecisos.

As gorduras saturadas elevam o risco de DCV por meio do aumento das lipoproteínas de baixa densidade, as LDL, popularmente conhecidas como “colesterol ruim”. Porém, atualmente sabe-se que a gordura saturada eleva também as lipoproteínas de alta densidade, ou HDLs, o “colesterol bom”. Além disso, mesmo as LDLs têm subtipos, e os estudos mais recentes indicam que a gordura saturada aumenta o tipo menos maligno das LDLs, enquanto que o tipo mais maligno das LDLs aumenta a partir do excesso da ingestão de açúcares, carboidratos e gordura trans. A ingestão excessiva destes alimentos também causa picos de açúcar no sangue, aumentando o estado inflamatório, adicionando outro fator importante para o maior risco cardiovascular. Essas conclusões são apoiadas por uma revisão sistemática publicada em 2014(3) que também questiona a relação entre o consumo de gordura animal e as DCV.

Apesar de desafiadores, esses resultados não significam que devemos comer manteiga, queijo e bacon sem restrição e adotar a dieta paleolítica, por exemplo (você pode saber um pouco mais sobre ela em outro texto do blog[4]). Atualmente, nossa alimentação é baseada num alto teor de alimentos prontos e industrializados, carregados de açúcar escondido e baixa quantidade de vegetais e frutas. O estudo analisa diversos itens alimentares além das gorduras e indica que a alimentação contendo gordura e proteínas (ao invés de dietas com pouca gordura e muita proteína) e menor índice glicêmico está relacionada ao menor risco para as DCV. Também confirma o papel protetor das frutas, frutas secas e vegetais. Em tempos de dietas da moda e restrições alimentares, os autores sugerem um caminho mais equilibrado e propõem novas diretrizes para pesquisas futuras na área da alimentação.

Provavelmente ao ler esse texto, muita gente vai pensar  “nutricionistas não se decidem”. Porém, a ciência e a humanidade estão em constante evolução, e os novos estudos possibilitam um melhor entendimento da relação entre nutrição e doença. A verdade é que o mundo busca um super alimento, capaz de prevenir ou curar qualquer mal. Ao invés de alimentos vilões ou mocinhos, talvez devêssemos mesmo é escutar o conselho da vovó e comer um pouco de tudo.

 

 

  1. Food & Nutrition Research 2016, 60: 31694 -http://dx.doi.org/10.3402/fnr.v60.31694;
  2. http://stat2.med.up.pt/cursop/print_script.php3?capitulo=desenhos_estudo&numero=8&titulo=
  3. Ann Intern Med. 2014 Mar 18;160(6):398-406. doi: 10.7326/M13-1788.
  4. https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/10/25/voce-e-o-que-voce-come-dieta-paleolitica-e-o-vies-sexista/
  5. Imagem: http://portaldocoracao.uol.com.br/aterosclerose/cardiologistas-preparam-diretriz-sobre-gorduras-e-saude-cardiovascular
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Ome sweet ome

Baseado no sucesso do projeto genoma na década de 90 (The Human Genome Project) , que possibilitou a descoberta da sequência completa do genoma humano, surgiu recentemente o “Human Connectome Project”, que pretende mapear as conexões cerebrais [1]. Mas para além dos resultados acadêmicos obtidos, a expressão -ome parece ter agradado os cientistas e poderia se dizer que está na moda. Surfando nessa onda, apareceram diversos outros termos: proteome, transcriptomes, epigenome, microbiome, brainnetome… E o mais novo do mercado, candidato a queridinho do ano (aqui em casa) é o oscillome [2].

Apesar das oscilações aparecem em diversas áreas da física e da biologia, por enquanto, o termo está relacionado apenas às oscilações cerebrais. Em particular, oscillome se refere a uma nova leva de artigos sobre oscilações corticais durante a realização de tarefas que envolvem a compreensão da linguagem. Se a nova expressão vai cair nas graças da academia ainda não dá pra saber, mas o tema “oscilações e linguagem” parece que veio para ficar. Vários experimentos têm relacionado frequências de oscilações da atividade elétrica do cérebro com experimentos de leitura e audição que necessitam reconhecimento da linguagem. Por um lado, os avanços tecnológicos têm permitido medidas dos sinais elétricos com menos ruídos e mais fáceis de serem interpretadas. Por outro lado, estudar a linguagem através de métodos de imageamento cerebral parece ser uma área promissora, se queremos entender que aspectos do nosso cérebro são intrisecamente diferentes de outros primatas e desenvolver métodos de aprendizado mais eficientes para crianças e adultos.

Um experimento bem recente e interessante mostrou que quando compreendemos o significado de uma sentença, a frequência de oscilação elétrica do nosso cérebro é diferente daquela medida quando ouvimos palavras aleatórias [3]. Em outras palavras, a frequência pode estar codificando nossa interpretação da frase. Pareceu muito abstrato? Vou tentar explicar…

Utilizando magnetoencefalografia [4], o grupo de Ding e colaboradores mediu a atividade elétrica do cérebro de voluntários enquanto ouviam algumas listas de palavras [3]. Na primeira parte do experimento, os voluntarios escutaram uma lista de palavras descorrelacionadas (Itália, estuda, rato, menina) apresentadas em uma frequência específica de quatro palavras por segundo, ou 4Hz. Durante esta etapa, foi verificado que a atividade elétrica de algumas regiões do cérebro oscila na mesma frequência de 4Hz. Para os mais matemáticos, a transformada de Fourier do sinal cerebral apresenta um pico em 4Hz. Para os mais visuais, a potência do sinal elétrico mostrada na Figura 1e possui um pico em 4Hz.

Até aqui, o que podemos concluir é que o nosso cérebro reconhece uma frequência que nos foi imposta.

Ou seja, se olharmos apenas para o sinal elétrico, poderíamos dizer quantas palavras foram apresentadas por segundo. Portanto, o resultado deve ser o mesmo se a lista de palavras for no nosso idioma, ou em um outro que não conhecemos. E, de fato, no experimento foram avaliadas pessoas que falam inglês (mas não falam chinês) e pessoas que falam chinês, e o pico em 4Hz foi encontrado tanto para frases em inglês como em chinês.

Mas a descoberta super incrível vem agora. Na segunda parte do experimento, os voluntários ouviram uma lista de palavras que juntas passam a ter sentido de frase (menina, ama, sorvete, gelado). Assim, além de 4 palavras por segundo (4Hz) podemos inferir que temos duas expressões simples por segundo (menina-ama, sorvete-gelado: 2Hz) e uma frase inteira por segundo (menina-ama-sorvete-gelado: 1Hz). Mas essas novas frequências não são uma propriedade do som que foi imposto ao voluntário, e sim a interpretação do nosso cérebro sobre o significado da lista de palavras. Ou seja, se a lista de palavras estiver no nosso idioma, podemos fazer esse reconhecimento. Mas se a lista de palavras estiver num idioma que não entendemos, não somos capazes de agrupar expressões e frases.

A pergunta que Ding respondeu com sucesso foi: olhando para o sinal elétrico é possível saber se o voluntario reconheceu a frase? E a resposta é: sim!

De fato, quando os voluntários ouviram listas de palavras que formavam uma frase no seu próprio idioma, além da frequência de 4Hz, apareceram outras duas frequências nos sinais elétricos medidos: 2Hz e 1Hz. (A transformada de Fourier do sinal apresentou picos em 1, 2 e 4 Hz, e a potência do sinal elétrico na Figura 1f possui três picos!). Para tirar a prova dos nove, quando os voluntários ouviram as listas em um idioma que não entendem (e portanto não sabem interpretar expressões de duas palavras nem frases de quatro palavras) a atividade elétrica do cérebro só apresentou a frequência de 4Hz.

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Figura 1: Modificada da Ref. [3]. Potencia do sinal elétrico cerebral em função da frequência desse sinal para voluntários escutando uma lista de palavras: (e) descorrelacionadas e (f) que formam uma frase com significado.

Este resultado pode ser entendido como o nosso cérebro agrupando as expressões! As novas frequências que surgem são o resultado da nossa interpretação sobre o mundo. Agora, por exemplo, só olhando para o sinal elétrico do cérebro (mais especificamente para as frequências desse sinal), podemos dizer se está ocorrendo um reconhecimento do idioma ou não.

Sendo bem honesta, o verdadeiro papel das oscilações no cérebro ainda não é conhecido, muito menos sua relação com a linguagem, a importância de cada frequência ou mesmo a fase do sinal. Existem diversas teorias publicadas, vários resultados experimentais fortalecendo algumas delas, e um monte de cientista tentando entender melhor tudo isso. Mas por muitos anos as comunidades que estudavam oscilações e linguagem estavam separadas, de modo que só temos a ganhar com esse (re)encontro.

[1] Lichtman, Jeff W., Joshua R. Sanes. “Ome sweet ome: what can the genome tell us about the connectome?.” Current opinion in neurobiology 18.3 (2008): 346-353.

[2] Murphy, Elliot. “A Pragmatic Oscillome: Aligning Visual Attentional Mechanisms with Language Comprehension.” Frontiers in Systems Neuroscience 10 (2016).

[3] Ding, Nai, et al. “Cortical tracking of hierarchical linguistic structures in connected speech.” Nature neuroscience 19.1 (2016): 158-164.

[4] https://en.wikipedia.org/wiki/Magnetoencephalography

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A Atenção Básica à Saúde: como manter a base para estruturar o Direito à Saúde

Recentemente, diversas investidas em mudanças significativas no funcionamento e abrangência do SUS foram propostas. Na última semana, foi noticiada a possibilidade  de revisão na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) . Mas, para entender a mudança, é preciso compreender os preceitos teóricos e práticos dessa Política.

O Sistema Único de Saúde (SUS) é estruturado de modo a construir as Redes de Atenção à Saúde, como introduzido anteriormente. Dentro dessa organização, a Atenção Básica a Saúde (ou Atenção Primária a Saúde), faz o papel de articuladora da Rede, tendo foco no indivíduo, seus potenciais e ciclos de vida.

No Brasil, a Atenção Básica (AB) é normatizada pela Portaria do Ministério da Saúde, nº2488, de 21 de Outubro de 2011, que institui a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB). Esse documento preconiza que o cuidado em saúde deve ser descentralizado e mais próximo da vida do usuário do SUS. A AB está perto da casa de cada pessoa que reside no Brasil, sendo a principal porta de entrada para o SUS e centro de comunicação com todo o sistema.

Para que isso ocorra, algumas estratégias foram pensadas e articuladas. Dentre elas, a com maiores possibilidades de cuidado integral e singular, é a Estratégia de Saúde da Família (ESF).

A ESF é composta por uma equipe mínima de Enfermagem, Medicina da Família e Agente Comunitário de Saúde (ACS), podendo contar com Saúde bucal de acordo com as demandas do local. Essa equipe deve reconhecer saúde como um conceito complexo e amplo e ter em suas principais preconizações de atuação o indivíduo que está inserido no território.  O ACS realiza um papel fundamental nesse processo. Esse profissional deve residir na área de atuação, potencializando o olhar singular, a vinculação do serviço de saúde com a população local e o seguimento das atividades de promoção da saúde e prevenção de agravos, bem como de intervenções específicas.

pnab

A AB pode contar também com:

Núcleo de Atenção à Saúde da Família (NASF), que engloba equipe multidisciplinar;

Consultório na Rua, que provém um olhar singular a essa população;

Centros de Convivência e Cooperativa (CECCO), oferecendo espaços de convivência;

estímulo à articulação com a Rede Intersetorial ( Assistência Social, Educação, Cultura, Esportes, Lazer e o que se tornar necessário ao cuidado).

É na Atenção Básica que o indivíduo se sente em casa e onde pode ocorrer a desconstrução do significado de saúde como ausência de doença. É de extrema importância para consolidação da saúde como direito social e deve ser estimulada e valorizada. A criação e construção do SUS, da PNAB e da ESF vem acontecendo há alguns anos e com protagonismo popular. As mudanças previstas de forma vertical, tendem a destituir o papel central do indivíduo, revendo até mesmo o cargo e função do ACS, por exemplo. Desse modo, reiteramos que saúde prevalecerá como direito se nos mantivermos em união contra retrocessos.

Indicações:

Vídeo didático advindo de curso de especialização promovido pela UNA-SUS da UFPE:

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Como a genética pode influenciar a nossa escolha por uma(um) parceira(o)?

Evolutivamente falando, todas as espécies procuram se reproduzir com parceiros geneticamente distintos, com o intuito de produzir herdeiros diversificados e garantir a manutenção da espécie frente a eventuais desafios ambientais. Acredita-se que o complexo HLA (HumanLeukocyteAntigens) é o conjunto de genes mais polimórfico, ou seja, o mais diverso em variedades de alelos, e está presente em todos os vertebrados. Esses genes são responsáveis pela expressão das moléculas MHC (Major Histocompatibility Complex), que estão localizadas na membrana celular dos linfócitos do sistema imune, e são responsáveis por distinguir o que é próprio e o que não é próprio no organismo. Essa função é de extrema importância, pois essas moléculas são responsáveis por distinguir as células do próprio corpo das células de patógenos. Quando essa função está afetada, o corpo ataca as próprias células, gerando doenças auto-imunes e, em casos de transplante, essas moléculas podem causar a rejeição do tecido/órgão transplantado. Dessa maneira, o complexo HLA é importante para a atividade plena do nosso sistema imune e conseqüente sucesso na sobrevivência.

Ok, mas e o que isso tem a ver com a escolha da(o) parceira(o)?

O “desejo” sexual humano é influenciado por muitas variáveis, dentre elas sociais, psicológicas, culturais e biológicas. De uma maneira um pouco subliminar e muitas vezes imperceptível, somos guiados por nossos instintos sexuais (esse nosso lado mais biológico), e o complexo HLA poderia estar intimamente ligado à escolha do parceiro. De acordo com essa teoria, dois indivíduos não aparentados provavelmente possuem complexos MHC muito distintos devido à alta polimorfia desses genes. Portanto, instintivamente buscaríamos uma(um) parceira(o) geneticamente diferente para perpetuar essas diferenças e possivelmente gerarmos herdeiros distintos de nós mesmos, capazes de reconhecer uma maior gama de patógenos e, conseqüentemente, obterem maior sucesso contra doenças. Acredita-se que essas características são passadas de maneira sutil e imperceptível através do cheiro.

Apesar de interessante, teorias como essa tendem a ser heteronormativas e cisnormativas, além de desconsiderar os diversos aspectos relacionados à escolha de um parceiro. Atualmente existe uma aparente maior autonomia e planejamento familiar, e o intuito de gerar herdeiros deixou de ser a prioridade na vida de muitas mulheres. Portanto, teorias como essa podem nos esclarecer acerca de alguns assuntos, mas dificilmente explicar de maneira decisiva os comportamentos humanos.

Referências:
Kromer, J. et al. Influence of HLA on human partnership and sexual satisfaction. Sci. Rep. 6, 32550; doi: 10.1038/srep32550 (2016).
http://www.microbiologybook.org/Portuguese/immuno-port-chapter10.htm