Você é o que você come? – Dieta Paleolítica e o viés sexista.

 

A dieta paleolítica é baseada na convicção que há uma discrepância entre o que comemos atualmente e o que nossos ancestrais “evoluíram para comer”. Defende que nosso corpo está preso na idade da Pedra, ou seja, que é adaptado para comer da mesma maneira que caçadores-coletores comiam na era paleolítica. Poxa mas isso significa que estamos comendo coisas erradas e/ou de forma errada por 2,6 milhões de anos e que durante esse tempo não houve nenhum processo adaptativo. 

Parece improvável, certo? Então por que há cientistas que defendem essa ideia? Bem, porque as sociedades caçadoras-coletoras atuais apresentam menor incidência de doenças as quais vem se tornando epidemias no mundo, como diabetes, e altos níveis de triglicérides e colesterol. Deveríamos então nos alimentar como eles para sermos mais saudáveis? 

Parece a resposta mais óbvia. Contudo, se nos alimentássemos como os atuais caçadoras-coletores ainda estaríamos longe da dieta paleolítica sugerida nos bestsellers já que, como sugerido por Alyssa Crittenden, da Universidade de Nevada, os atuais caçadores-coletores não devem ser considerados como fósseis vivos. Ou seja, eles não se alimentam como à 2,6 milhões de anos.

Além disso, mesmo um dos grandes defensores da dieta paleolítica, Loren Cordian, da Universidade de Utah, comete gafes conceituas. Ele defende que devemos comer muita proteína animal, mas não diariamente e também muitos grãos, como o feijão. Ironicamente, muitos dos produtos sugeridos por ele (como muitos dos grãos) foram, na realidade, introduzidos na dieta humana apenas quando dominamos a agricultura.

Outra falha dos defensores dessa dieta é desconsiderar a plasticidade da alimentação dos caçadores-coletores, que deveriam se alimentar conforme à disponibilidade de cada ambiente. Ou seja, não há uma dieta única da era paleolítica. 

A principal argumentação dos defensores da dieta é que ela estaria alinhada com uma teoria muito aceita na biologia que diz respeito a importância da proteína animal para o processo de encefalizção. 

dieta-paleolitica-vs-dieta-tradicional

Essa teoria fala da importância da ingestão calórica proporcionada pelo consumo de carne. Alguns órgãos são super consumidores de energia. O intestino e o cérebro são exemplos. Dessa forma, é comum contestar que os animais que são consumidores de plantas fibrosas, (que exigem grandes intestinos) possuem menor relação cérebro/corpo do que os que consumem mais proteína animal, que permite um investimento energético no desenvolvimento do cérebro. 

Essa relação é bem relatada em primatas não humanos, sendo os macacos mais complexos cognitivamente os com maior relação cérebro/corpo e que possuem na sua dieta uma maior proporção de proteína animal. 

Para se ter uma ideia da importância da dieta na evolução do cérebro basta verificar que um cérebro de um chimpanzé em completo repouso gasta 8% das calorias diárias necessárias, enquanto em um homem moderno (Homo sapiens) em mesmas condições de repouso o cérebro gasta, para se manter, 20% das calorias diárias. Portanto, fica fácil de entender porque acredita-se na imensa importância da ingestão de proteína animal para evolução do homem moderno.

Mas afinal, evoluímos para comer os alimentos atuais?

Durante a revolução da agricultura houve um boom populacional de humanos. O que a primeira vista leva a crer que a qualidade da dieta aumentou. Contudo, Clark Specnes da Universidade de Ohio, acredita que o aumento populacional decorreu simplesmente porque não precisamos ser saudáveis para ter bebês. Pois, apesar do aumento populacional, a agricultura deixou a dieta dessas populações menos diversa e depois, com a domesticação de animais, os contatos com parasitas e doenças infecciosas aumentaram.

Contudo, apesar da dieta dos caçadores-coletores poder ser constituída por até 30% das calorias em carne, estes podiam ficar muitos dias sem consumir carne. Padrão que ainda se encontra nas comunidades caçadores-coletores atuais que com exceção das comunidades no Ártico (onde a dieta chega a ser constituída de 99% de carne).

!Kung Women Carrying Hay

!Kung

Pesquisas recentes têm mostrado que o papel mais importante da sociedade caçadora-coletora, ao contrário do que se imaginava até agora, não é do homem caçador mas da mulher coletora. Afinal, fica cada vez mais claro que a energia necessária para a evolução do nosso cérebro não veio apenas da carne. Elas eram e são as responsáveis por dar o sustento principalmente em momentos de escassez de alimentos. Por exemplo, a sociedade caçadora-coletora contemporânea Hadza tem quase 70% das calorias da sua dieta provida de plantas, e da mesma forma as sociedades, Kung, Aka, Baka Pygmies, Tsimane e Yanomami e Australian Aboriginals.

Parece portanto, que houve um viés dos cientistas em pesquisar o papel masculino e, como reflexo, uma tendência a super-estimar a importância da carne para evolução humana. 

Amanda Henry do Max Planck Institute, achou evidência de que comemos de tubérculos e cereais por pelo menos 100 mil anos! Ou seja, antes mesmo da agricultura, o que derrubaria outro argumento a favor da dieta paleolítica: houve tempo suficiente para tolerarmos esta ingestão. 

E quanto tempo é necessário para que ocorra adaptação? Sarah Tishkoff da Universidade da Pennsylvania defende que nossos dentes, mandíbulas, morfologia do crânio, e nosso DNA não é exatamente igual depois do surgimento da agricultara, o que significa que nosso corpo não está mais adaptado para a dieta paleolítica.

Um ótimo exemplo da evolução constante é a intolerância ao leite. Nas regiões em que houve a domesticação de animais e em que o consumo de leite foi importante, você encontra pessoas que são tolerantes a leite (Europa, Africa), enquanto onde não houve essa influência (China, Tailândia, Nativos Norte-Americanos, Nativos Sul-Americanos) encontra-se populações intolerantes à lactose. 

Fica claro então, a sua dieta ideal vai estar fortemente correlacionada com sua hereditariedade. Uma das mais brilhantes características da evolução do humano é a sua plasticidade; como Homo sapiens, somos virtualmente capazes de tirar nutrição de qualquer ambiente.

O que pode se concluir é que a dieta paleolítica pode não ser a mais indicada para você, enquanto pode ser ótima para seu colega de trabalho. Em outras palavras, a comunidade vai comer conforme o que está disponível no ambiente e dessa forma a dieta, seja na Era Paleolítica ou não, não é homogênea: existiram diversas dietas dos homens das cavernas. 

E sobre quando começamos a cozinhar? Bem esse fica para o próximo post! Até lá!

Para saber mais:
The First Human: The Race to Discover Our Earliest Ancestors. Ann Gibbons
The evolution of the human diet: the know, the unknown and the unknowable. Peter Ugar

 

Crédito de imagem: pirâmide:cnqc.ong, mulheres caçadora-coletoras: http://deedellaterra.blogspot.com.br/2013/02/cacadores-coletores-uma-revisao.html

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2 comentários sobre “Você é o que você come? – Dieta Paleolítica e o viés sexista.

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