Mulheres, cerveja e a contribuição do trabalho de Gabriela Montandon para a cervejaria nacional. Trilogia da cerveja – Parte 3

Em uma rápida pesquisa no meu navegador com as palavras “mulheres” e “cerveja”, limitada entre os anos de 1990 a 2010 a resposta obtida foi:

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Olhando essa resposta é possível recolher três evidências:

  1. Cinco em cada sete mulheres no Brasil bebiam cerveja usando biquíni até o ano de 2010.
  2. Bom, nesse aí o moço que escreveu a notícia não pegou o famoso espírito da coisa. A ideia era fazer uma cerveja que questionasse o marketing cervejeiro feito até então.
  3. Finalmente foi respondida a pergunta “Cerveja x Mulher: o que é melhor?” ninguém mais conseguia dormir com essa dúvida na cabeça, não é mesmo?

Ironias a parte, a mentalidade brasileira seguia até esse ponto (e praticamente sem questionamento) o estereótipo tenebroso e machista que se aplica a muita coisa nesse país: que existem coisas de homem e coisas de mulher. Infelizmente não só nesse país. Em 2014 houve  A Q U E L A promoção pavorosa na final da Champions League de 2014, pra “ajudar” os machos a “tirar” as “suas” mulheres de casa pra que eles pudessem assistir a final “em paz”.

De uns anos pra cá, essa ideia tem sido questionada em diversos campos: na inserção da mulher no mercado de trabalho, na moda, no comportamento, etc. E apesar de termos ainda muito chão pela frente até a igualdade realmente existir as coisas parecem estar melhorando.

E sabe o que mais? Cerveja é um alimento. Não seria um completo absurdo falar de “comida de homem” e “comida de mulher”?

Mulheres que bebem cerveja

Segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto Innovare em fevereiro desse ano o brasileiro consome em média 82 litros de cerveja por pessoa ao ano. Isso nos coloca em 17° lugar no ranking mundial. Pra termos uma noção, em primeiro lugar vem à República Checa onde o consumo é de 143 litros por pessoa ao ano.

Cruzando esses dados com outra pesquisa feita pela empresa Sophia Mind – voltava para pesquisa e inteligência de marketing –, sabemos que 47% das mulheres brasileiras consomem bebidas alcoólicas e dessas 47,88% bebem cerveja.

A projeção do IBGE para 2016 mostra um total de 104.335.330 mulheres no país. Ou seja, mais de 23 milhões de mulheres no país consomem cerveja. Fechando as contas, temos 1.925.294.810 litros de cerveja consumidos anualmente por mulheres.

Passou ou não passou da hora da indústria cervejeira desse “Brasilzão” olhar as mulheres como financiadoras?

Mulheres que falam sobre cerveja

Acho que se você está lendo um texto em um site chamado Cientistas Feministas é porque se interessa pelo que as mulheres tem a dizer e pela forma como elas dizem. E têm muitas minas maravilhosas por aí falando sobre cerveja.

Eu podia ficar até amanhã citando os sites, blogs e podcasts feitos por mulheres na área mas vou citar só alguns e deixo o resto por conta da sua curiosidade de pesquisa, ok?

  • Fabiana Arreguy, dona do Pão e Cerveja: Fabiana é jornalista e sommelier de cervejas formada pela Doemens Academy de Munique através do SENAC SP. É criadora e apresentadora da coluna Pão e Cerveja na Rádio CDL FM. Também é colunista do jornal Estado de Minas e da Revista PQN Notícias e sócia-fundadora e professora da Academia Sommelier de Cerveja. Acho que deu pra entender que ela é fantástica, né?
  • Confraria Feminina de Cerveja – Confece: A CONFECE é a primeira Confraria Feminina de Cerveja do Brasil. As minas formaram o grupo em 2007 e se reúnem mensalmente para degustar e estudar cerveja. Além de tudo, o objetivo delas é “estimular o consumo responsável, dirigindo os encontros para a qualidade da bebida”.
  • Confraria Maria Bonita Beer: no dicionário a palavra confraria é apresentada como ‘associação ou conjunto de pessoas do mesmo ofício, da mesma categoria ou que levam um mesmo modo de vida’ e é exatamente isso que essas bonitas fazem. Segundo a descrição das moças “a ideia é difundir a cultura cervejeira e inspirar outras pessoas (homens e mulheres) a fazer a sua própria cerveja em casa!”

Mulheres que fazem cerveja

Talvez você não saiba, mas os sumérios eram bem espertos, já faziam cerveja e tinham uma deusa da cerveja: a deusa Ninkasi. Existe uma lenda que diz que Ninkasi nasceu da água fresca cintilante e a sua presença na Terra era manifestada através da cerveja, considerada pelos sumérios uma bebida capaz de saciar o coração.

O mais interessante dessa história é quem recebeu o crédito pelas primeiras receitas de cerveja desenvolvidas pelos sumérios foi a própria Ninkasi, a primeira (e única, creio eu) mestra cervejeira espiritual.

Existe, inclusive, um Hino à Ninkasi, com trechos bem arrebatadores como “você é a única que segura com ambas as mãos o magnífico e doce mosto fermentando-o com mel e vinho”.

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Uma deusa, uma louca, uma cervejeira

As Ninkasis contemporâneas são outras e são muitas! As moças da E.L.A. (Empoderar. Libertar. Agir.) se uniram em torno do propósito de fazer, não só uma cerveja, mas um coletivo de mulheres que questiona o uso e a objetificação do corpo feminino em propagandas fetichistas de cervejas, empodera o lugar social ocupado por nós e vem pra dizer que ELA vem chegando e lugar de mulher é onde ELA quiser! Elas produziram a cerveja ELA, uma American Barley Wine com 10% de álcool e fizeram uma campanha linda a #35diassemmachismonacerveja.

Gabriela Montandon e a primeira levedura nacional

Falando sobre mulheres e cerveja é impossível não falar de Gabriela Montandon (Gabriela, se algum dia você chegar aqui e ler esse texto, saiba que eu sou muito sua fã ♥).

Montandon começou a fabricar cerveja em casa, numa experiência que a levaria a fundar a sua própria cervejaria: a Grimor. Foi justamente nesses ensaios com fabricação caseira de cerveja que Gabriela percebeu que não havia uma levedura nacional. Como microbiologista, ela sabia que teria acesso a um banco de leveduras na universidade e entre essas leveduras estaria a Saccharomyces cerevisiae, uma levedura usada na fermentação de cervejas.

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Gabriela Montandon, nossa Ninkansi

Hoje, Gabriela tem 31 anos e é doutora em microbiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Na sua tese de doutorado intitulada “Seleção de linhagens indígenas de Saccharomyces cerevisiae para produção de cervejas de alta fermentação” – feita com período sanduíche no Laboratory of Enzyme, Fermentation and Brewing Technology da Katholieke Universiteit Leuven, em Gent na Bélgica – ela trata justamente da busca por linhagens de leveduras nacionais que poderiam ser usadas na cervejaria.

O foco da pesquisa foi tornar possível a produção de cervejas especiais brasileiras com leveduras nacionais. Em uma entrevista ao G1 Gabriela comenta: “Fiz uma seleção de vários micro-organismos que vieram de ambientes naturais do Brasil como: a Floresta Amazônica, Serrado, [também de] de outras bebidas, de madeiras brasileiras”. Desses estudos nasceu a Grimor 18, uma cerveja do tipo Blond Ale que Gabriela chama de “uma agulha num palheiro”.

No meu primeiro texto aqui no blog, eu falei sobre a fermentação e o trabalho que as leveduras realizam nesse processo. Mas pra relembrar, a fermentação alcoólica é a transformação dos açúcares presentes no malte em substâncias mais simples, como álcoois. Quem realiza essa transformação são as leveduras, que utilizam esses açúcares para geração de energia. Como resultado dessa geração de energia, também são produzidos álcool e gás carbônico.

O trabalho da Gabriela é revolucionário, pois é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma escola brasileira de cerveja. Essa escola é o conjunto de todas as peculiaridades de um país com relação à fabricação e consumo de cerveja. Essas escolas influenciam também a forma com que outros países fabricam a própria cerveja, é um negócio muito bonito.

As mulheres estão fazendo uma mudança muito positiva na cara da cultura cervejeira nacional, seja no consumo, na sua divulgação ou (principalmente) no meio científico. É a ciência ajudando a nos inserir em mais um espaço que antes era majoritariamente dos homens. Falta agora o mercado criar juízo e nos representar vestidas nas propagandas. Vestidas, inclusive, de jalecos.

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