Emergência e reemergência de doenças infecciosas no sul europeu

Crises econômicas e mudanças climáticas são fatores essenciais para promover a emergência e propagação de doenças tropicais negligenciadas e transmitidas por vetores no sul da Europa [1]. Países como Espanha, Portugal, sul da França, Córsega, Grécia e Croácia serão os mais afetados pela emergência ou reemergência destas doenças. Por apresentarem um clima quente mediterrâneo, os países sul-europeus já foram palco de diversas doenças tropicais, como a malária que já foi endêmica nesta região e a leishmaniose causada por Leishmania infantum.

Entretanto, nas últimas décadas, outras importantes doenças tropicais negligenciadas emergiram ou reemergiram no sul da Europa, sendo elas chikungunya, dengue (DENV-1), vírus do Nilo Ocidental, infecção pelo vírus Toscano, doença de Lyme, doença de Chagas, leishmaniose, malária vivax, esquistossomose, febre hemorrágica de Criméia-Congo e opistorquíase.

Nos países em desenvolvimento, com baixa ou média renda, a pobreza é um dos principais determinantes na transmissão de doenças. É importante citar que a emergência ou reemergência de doenças tropicais infecciosas no sul da Europa coincidem com a crise econômica que começou em 2009, na qual a Grécia, Espanha e Portugal apresentaram dificuldades econômicas e dependeram de ajuda financeira externa. Estas doenças não somente tendem a estar associadas a locais pobres, mas também as próprias doenças são a causa da pobreza.

Desde 2009 ocorreram na Grécia alguns casos de malária, o que pode ser preocupante, já que é uma das doenças que mais causam impactos na economia dos países afetados, principalmente na África. Seu impacto engloba despesas gastas com saúde, dias de trabalho perdidos, dias perdidos na educação, diminuição na produtividade devido às lesões cerebrais, migração, demografia e perda de receitas de investimento e turismo [2]. Porém, tudo leva a crer que outras doenças causadas por insetos vetores como a dengue e o Zika vírus também causem impactos negativos na economia, principalmente a segunda, que está associada com microcefalia e síndrome de Guillian-Barré.

Finalmente, as mudanças climáticas causadas pelos gases do efeito estufa emitidos através da queima de carvão, queima de combustíveis fósseis e outras atividades humanas, são também um fator importante, pois a temperatura do sul europeu tem aumentado, levando ao aparecimento de insetos e caramujos, vetores de agentes etiológicos causadores de doenças.

As mudanças climáticas também podem mudar a distribuição geográfica de algumas doenças infecciosas e de seus vetores [3]. Este é mais um fator pelo qual as mudanças climáticas e o aumento da temperatura global podem afetar países do sul europeu que sofrem frequentes introduções de insetos vetores e patógenos.

Existe ainda mais um importante fator que pode ser levado em consideração, a perda de biodiversidade, que pode ser ocasionada, entre outros fatores, pelas mudanças climáticas, pelo aumento das populações que invadem áreas não habitadas ou pelo desmatamento. A perda de biodiversidade pode levar ao aumento de doenças infecciosas, como a doença de Lyme, que é fortemente associada a este fator [4].

A emergência ou reemergência de doenças infecciosas negligenciadas em diferentes regiões nunca dependem de somente um fator, é muito mais provável que esse evento aconteça por uma rede multicausal de fatores que devem ser estudados e previstos, principalmente em países que podem sofrer com a expansão de doenças infecciosas.

Referências

  1. Hotez PJ. Southern Europe’s Coming Plagues: Vector-Borne Neglected Tropical Diseases. Aksoy S, editor. PLoS Negl Trop Dis. 2016;10: e0004243. doi:10.1371/journal.pntd.0004243
  2. Sachs JD, Malaney P. The economic and social burden of malaria. Nature. 2002;415: 680–685. doi:10.1038/415680a
  3. Lafferty KD. The ecology of climate change and infectious diseases. Ecology. 2009;90: 888–900. doi:10.1890/08-0079.1
  4. Keesing F, Belden LK, Daszak P, Dobson A, Harvell CD, Holt RD, et al. Impacts of biodiversity on the emergence and transmission of infectious diseases. Nature. Nature Publishing Group; 2010;468: 647–652. doi:10.1038/nature09575
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