Sobre memória e preservação documental

“A memória do mundo é a memória coletiva e documentada dos povos do mundo, ou seja, seu patrimônio documental, que representa boa parte do patrimônio cultural mundial. Ela traça a evolução do pensamento, dos descobrimentos e das realizações da sociedade humana. É o legado do passado para a comunidade mundial presente e futura.”[i]

 

Recentemente estive em Cuba para uma viagem de pesquisa cujo objetivo era coletar informação para minha tese de doutorado. Após quase dois meses na ilha, me deparei com uma verdade difícil de engolir para quem está na metade de uma pós-graduação: meu projeto era simplesmente inviável. Não porque eu não tivesse capacidade, tempo, ou recursos suficientes para tocar a pesquisa, mas por que a documentação que eu buscava simplesmente desvaneceu. Volumes inteiros de atas municipais e protocolos notariais, por exemplo, se converteram em pó. Ameaçados constantemente pela umidade caribenha, insetos, fortes chuvas e furacões, grande parte dos documentos dos séculos passados se desintegrou. Com eles, foi-se uma uma parte da história colonial cubana que jamais será recuperada. Uma quantidade inestimável de informação está permanentemente perdida, criando um silêncio sobre esse passado.

Não é apenas em Cuba que o patrimônio documental está ameaçado. São milhares de arquivos, bibliotecas, e coleções ao redor do mundo em perigo iminente. Guerras, deslocamentos forçados, desastres naturais ou simples descaso—os riscos são muitos e variados. Uma das primeiras coisas que pensei quando ouvi as notícias sobre o último furacão a passar pelo Caribe foi: putz, será que destruiu muito documento? (Claro, a preocupação com a vida humana sempre vem antes, mas o passo seguinte foi pensar na informação que também se perde em desastres como esse). No Brasil mesmo, há relatos de arquivos abandonados, depósitos com infiltrações, instituições sucateadas por falta de verba (quem lembra quando o Museu Nacional, mais antiga instituição científica do país, fechou temporariamente as portas no ano passado por falta de pagamento de funcionários?).

E por que é importante pensar na preservação do patrimônio documental?  Ora, através dele é possível acessar o passado, desvendar a história daquilo que veio antes de nós e, assim, construir conhecimento—sobre quem somos, como chegamos até aqui, etc. Quando parte dessa memória é permanentemente perdida, cria-se uma lacuna na narrativa do passado. Isso é um problema grave, já que significa apagar completamente do registro histórico eventos talvez de grande significância. Diversos órgãos, nacionais e internacionais, entendem o direito à memória como um elemento fundamental da cidadania; portanto, preservar os registros onde a memória se inscreve é essencial. Não se trata apenas de interesse acadêmico. Imagine, por exemplo, se um furacão como o Matthew passa pela sua cidade e destrói os prédios públicos onde estão armazenados os registros civis (nascimento, casamento, óbito, etc). Imagine que o mesmo furacão provocou enchentes no seu bairro, e a água levou seu documento de identidade e qualquer outro pedaço de papel que prove que você é você. E agora? Já pensou que dor de cabeça ter que recriar a sua identidade? Ah, mas no Brasil não tem furacão. Não. Mas tem enchente, incêndio, traça, desabamento… Ah, mas hoje em dia os registros estão todos digitalizados, estão no sistema. Não, nem todos. Principalmente os mais antigos. Então se você precisar comprovar sua árvore genealógica (pelos motivos mais diversos, como garantir indenização, pensão, divisão de bens, herança, descolar aquele passaporte italiano tão cobiçado, sei lá), talvez tenha que consultar os livros históricos do cartório, ou da igreja, ou do cemitério. E se esses livros estiverem todos carcomidos por traças, completamente ilegíveis? Pois é…. Agora imagine que milhões de pedacinhos de informação como esse estão, nesse instante, em risco de desaparecer completamente, apagando a memória de indivíduos como você, comprometendo o conhecimento futuro a respeito do tempo presente e do tempo presente a respeito do passado.

A boa notícia é que há esforços sendo feitos para preservar a memória do mundo. Em 1993, a UNESCO criou um programa com esse nome que visa garantir a preservação de coleções de grande importância através da reprodução dos documentos originais em diferentes formatos (microfilme, digital, etc). O órgão trabalha com governos ao redor do mundo para salvaguardar a informação. Uma década mais tarde, em 2004, a British Library—biblioteca nacional Britânica—criou um programa parecido, porém mais descentralizado, que tem o mesmo objetivo de preservar a memória e garantir o acesso à informação, o Endangered Archives Program, ou EAP. O diferencial do programa da BL é que ele é menos burocrático, no sentido de que não depende de governos e políticas públicas. Pesquisadores que identifiquem acervos em risco podem submeter um projeto de preservação a ser financiado pela biblioteca. Já são mais de 240 projetos diferentes financiados pela biblioteca ao redor do mundo, e os resultados estão totalmente disponíveis online na página da instituição. São manuscritos de monastérios Etíopes, resgistros de minorias no Vietnã, leis antigas escritas à mão na Índia, livros de batismo da população de origem africana em Cuba, e processos do tribunal da Paraíba, entre muitos outros. O fato dos materiais preservados serem acessíveis a qualquer pessoa que tenha acesso a um computador com rede me parece um dos maiores méritos do projeto. Em termos de democratização do conhecimento, é um passo enorme. Afinal, viajar para fazer pesquisa de campo não é fácil, principalmente em tempos de crise como o atual em que o financiamento para isso é podado. Mas na galeria do EAP é possível acessar os documentos sem sair de casa! Quantos trabalhos podem ser escritos através dessas coleções! Recursos como esse podem inclusive ser utilizados nas escolas, possibilitando que alunos de colegial trabalhem com fontes primárias antes inacessíveis.

Se deparou com algum acervo em risco durante sua pesquisa? Pense na possibilidade de coordenar um projeto de preservação. As informações sobre como enviar propostas podem ser encontradas no site do EAP. E sabe aquelas fotos que seu avô tirava quando era jovem que estão abarrotadas em um caixa de sapato no fundo da gaveta juntando pó? Ou os selos que sua tia colecionava e que estão esquecidos em um canto qualquer? Já pensou em doá-los a alguma instituição arquivística e contribuir para a preservação do patrimônio documental? Fica a dica.

Para saber mais:

-Maja Kominko, ed. From Dust to Digital: Ten Years of the Endangered Archives Programme. Disponível em format Open Source em: http://www.openbookpublishers.com/product/283

-Coleções digitais do Endangered Archives Program http://eap.bl.uk/database/collections.a4d

-Heloisa de Faria Cruz. “Direito à memória e patrimônio documental.” Em: História e Perspectivas, Uberlândia (54): 23-59, jan./jun. 2016.

-Franciele Merlo e Glaucia Vieira Ramos Konrad. “Documento, história e memória: a importância da preservação do patrimônio documental para o acesso à informação.” Em: Inf. Inf., Londrina, v. 20, n. 1, p. 26 – 42, jan./abr. 2015 (disponível em http:www.uel.br/revistas/informacao/)

-“Historiadores digitalizam documentos históricos da Justiça paraibana” http://www.cnj.jus.br/noticias/judiciario/81862-historiadores-digitalizam-documentos-historicos-da-justica-paraibana – mais detalhes sobre o Projeto n.627 da BL em: http://eap.bl.uk/database/overview_project.a4d?projID=EAP627;r=41

-Registros eclesiásticos coloniais da população africana nas Américas, em particular no Brasil, Cuba, e Colômbia: Ecclesiastical & Secular Sources for Slave Societies

[i]                   UNESCO, Programa Memória do Mundo. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/communication-and-information/access-to-knowledge/documentary-heritage/

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Um comentário sobre “Sobre memória e preservação documental

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