Estudo aponta a discriminação no mercado de trabalho alemão contra mulheres muçulmanas

Em 2011, diversos países do Oriente Médio e norte da África foram tomados por protestos no que ficou conhecido como “Primavera Árabe”. Na Síria, a situação transformou-se em guerra civil, que já dura cinco anos. A ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) divulgou este mês que a guerra já deixou mais de 300 mil mortos. Uma outra consequência da guerra é que milhões de sírios deixaram suas casas fugindo do conflito sangrento. Turquia, Líbano, Jordânia e Alemanha são, nessa ordem, os países que mais receberam sírios até agora. Na Alemanha, estima-se que já sejam mais de 600 mil refugiados.

No novo país, além da dor da família e amigos deixados para trás, é preciso se acostumar com muitas diferenças: culturais, linguísticas, climáticas… Além disso tudo, as mulheres muçulmanas que desejam se inserir no mercado de trabalho alemão tem que enfrentar uma barreira de preconceito. É o que diz um estudo publicado este mês, intitulado “Discrimination against Female Migrants Wearing Headscarves” (Discriminação contra mulheres migrantes que usam véu, em tradução livre). O estudo foi conduzido pela professora Doris Weichselbaumer, da Johannes Kepler Universität Linz, em parceria com o IZA – Institute for the Study of Labor.

O estudo aponta que, sob uma perspectiva política, a inserção no mercado de trabalho é crucial para os migrantes. Além dos sírios, a Alemanha recebe migrantes muçulmanos oriundos da Turquia, que desde a década de 1970 são um grupo demográfico grande no país. O estudo, então, foca em nomes de origem turca e foi desenvolvido da seguinte maneira: três currículos fictícios de mulheres foram enviados para vagas de trabalho. As mulheres tinham qualificações similares, e a foto usada foi a mesma, apenas em uma delas um véu foi acrescentado. No primeiro currículo, um nome tipicamente alemão, “Sandra Bauer”; no segundo, a mesma foto mas um nome de origem turca, “Meryem Öztürk” e no terceiro, a mesma mulher e o mesmo nome, mas com véu. O estudo destaca que, na foto, o pescoço não aparece coberto com o véu, indicando que ela não seria particularmente rigorosa com a religião, muito menos uma religiosa radical.

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Legenda da imagem: fotos utilizadas no estudo e o percentual de resposta positiva dada a cada uma delas

Segundo o estudo, para receber a mesma quantidade de retornos para entrevistas, a candidata com nome turco e véu tem que enviar na média 4,5 vezes mais currículos do que a candidata com o nome alemão e sem véu, o que sugere discriminação contra mulheres migrantes – principalmente se elas usarem véus.

Esses números, no entanto, variam de acordo com a função pretendida. Para o cargo de secretária,“Meryem Öztürk” teve que enviar “apenas” 3,5 vezes mais currículos. Já para a função de chefe contábil foram 7,6 vezes mais: “Supõe-se frequentemente que a discriminação diminui com o aumento da escolaridade. No entanto, vestir um véu pode ser considerado ainda mais inapropriado para posições com maior status profissional” (Weichselbaumer, 2016, p. 13, tradução própria).

Como o estudo indica, houve um aumento na islamofobia depois dos ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. Na Alemanha, ataques xenofóbicos contra muçulmanos vem se intensificando. A migração em massa de sírios para o país escancara essas tensões. Como Weichselbaumer apontou, o fim da discriminação no mercado de trabalho é um passo fundamental para a integração de muçulmanas e muçulmanos na Alemanha.

Fonte: Weichselbaumer, Doris. Discrimination against Female Migrants Wearing Headscarves. Disponível em: http://ftp.iza.org/dp10217.pdf

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