Existe carreira após a maternidade?

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A gente completa 30 anos, conhece uma pessoa bacana, começa uma vida compartilhada e as perguntas de quando virá o(a) herdeiro(a) começam. Como pensar em colocar uma criança no mundo quando sua carreira não te dá estabilidade mesmo você já tendo 30 e poucos anos?

Ser cientista não é fácil, começando pelo fato de que são anos de estudo, pesquisa e trabalho para conseguir um título real de Doutor(a). Em geral, são 4 a 5 anos para obter um título de bacharel, 2 anos para o de Mestre e mais 4 anos para o de Doutor(a). Sem contar a alta concorrência dos concursos públicos para vagas de Professor(a) Universitário(a) que, ultimamente, acaba por exigir mais alguns anos de trabalho em pesquisa de Pós-Doutorado e muitos artigos publicados para sermos bem sucedidas. Somando tudo, gastamos pelo menos 13 anos para conseguir (com sorte) um emprego estável onde tenhamos pela primeira vez direito a férias, 13° salário e carteira de trabalho assinada.

Ser cientista em si já é difícil, mas e se a cientista for uma mulher? Aí temos uma dificuldade extra. O ambiente acadêmico é majoritariamente masculino, seja no Brasil ou em outros países do mundo[1]. E aí, nós mulheres que já estamos em torno dos 35 anos (e muitas vezes sem emprego estável), pensamos: engravidar ou não? Eis a questão! O mercado já é extremamente competitivo se você tem noites bem dormidas, se pode fazer horas extras de trabalho e se pode viajar sem preocupações. Agora, imaginou se adicionarmos maternidade nessa equação?

Não, não é fácil. Esta é a resposta que as cientistas (e profissionais de outras áreas) dão quando o assunto é carreira e maternidade[2,3,4]. Não que seja impossível combinar as duas coisas mas demanda jornada dupla (ou tripla) de trabalho, muito esforço e dedicação extra. Somos nós mulheres que carregamos o bebê por 9 meses, passamos pelo parto, puerpério e amamentamos. Se a mulher tem um parceiro que realmente divide as tarefas de cuidar da prole e da casa, a situação é um pouco melhor, mas sabemos que uma minoria dos homens ajuda nos afazeres domésticos (inclusive os desempregados)[5].

Pra não dizer que não falei de flores[6], recentemente, tivemos um avanço em relação à licença maternidade (de até 4 meses) para as pós-graduandas com bolsa CAPES/CNPq[7] e FAPESP[8]. Ainda assim, precisamos melhorar as condições de trabalho das mulheres para tornar o mercado de trabalho mais justo.

Mas e aí?! O que fazer? Escolher entre carreira ou maternidade? Há quem vá se dedicar exclusivamente à maternidade (por opção ou não), outras conseguirão combinar maternidade e carreira e, finalmente, as que preferirão dedicar-se à carreira e não ter filhos[2,3,4]. É importante frisar que cada uma dessas escolhas deve ser respeitada, incluindo o direito de trabalho igualitário às mulheres que continuam suas carreiras profissionais. Sabe-se que o emponderamento das mulheres[9,10] é fundamental para o desenvolvimento sustentável do planeta e é sobre isso que falarei com mais detalhes no meu próximo texto.

Se você se identificou com o assunto e tem algo para compartilhar, seu comentário será bem-vindo! Um abraço e até a próxima!

Texto por: Silva, A.R.

Referências:

[1]      http://www.catalyst.org/knowledge/women-academia

[2]      http://theconversation.com/juggling-a-career-and-motherhood-a-scientist-tells-her-story-46352

[3]       http://www.americanscientist.org/issues/pub/when-scientists-choose-motherhood

[4]      http://www.cientistaqueviroumae.com.br/sobre

[5]      http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2015-03-05/90-das-mulheres-fazem-tarefas-domesticas-entre-homens-indice-chega-a-40.html

[6]      https://www.youtube.com/watch?v=6oGlRrJLiiY

[7]      http://www.anpg.org.br/?p=6238

[8]      http://www.fapesp.br/8418

[9]      http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1540-4560.2012.01775.x/full

[10]    http://www.worldwatch.org/critical-role-women-sustainable-development

* Imagem retirada do Pixabay (CC0 Public Domain, Free for commercial use, No attribution required)

 

 

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3 comentários sobre “Existe carreira após a maternidade?

  1. Realmente vive essa escolha. Planejei minha gravidez de forma que o bebê nascesse um pouco após (1 mês e meio) o término do meu doutorado. Aquele momento em que se cai em um limbo a espera de alguma oportunidade no mercado de trabalho. Me dediquei exclusivamente por 6 meses ao meu filho e agora procuro a retorno a carreira, mas mesmo assim tem que se enfrentar as dificuldades de com quem o bebê irá ficar. Mesmo estudar para concursos e cuidar de um bebê ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil, acaba sobrando apenas os momentos de soneca do bebê para os estudos, é claro se vc não estiver exausta e precisar dormir com o bebê para conseguir enfrentar a próxima de noite de mamadas. Ainda não cheguei a uma conclusão de se é possível levar a maternidade dedicada e uma carreira científica. Acho que cada mulher tem que fazer sua escolha se lembrando das limitações do nosso corpo com a idade.

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  2. Uma grande questão que com certeza poderia ser debatida por muito tempo. Estou no pos-doc e tenho um bebê de 10 meses… tenho a sorte de ter apoio de marido e supervisor pra conciliar tudo, mas mesmo assim me questiono se realmente alcançarei meu objetivo de entrar na universidade. Ao mesmo tempo que quero muito chegar lá, penso que se eu não conseguir, penso que ter tido meu filho valeu mais de que qualquer emprego…. enfim, o dilema permanece. Necessário se faz apoiar as mulheres em suas decisões, seja elas quais forem. Muito bem colocado o texto! Abraço

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  3. Consigo entender perfeitamente o sentimento de dúvida e angústia referente a ser mãe e conciliar uma carreia. Independente de ser uma carreira acadêmica ou não, essas são questões que estão muito presentes especialmente após os 30 quando as pressões sociais para a maternidade se mostram ainda mais latentes e família, médicos e afins nos dizem que precisamos escolher rápido e correr contra o tempo que nos resta. Entretanto, não acredito que seja apenas uma questão de escolha de querer ou não um filho, como a autora muito bem explicou esse discurso não aborda os custos que essa “escolha” nos exige uma vez que muitas de nós passarão a ter jornada triplicada de dedicação. E quem em sã consciência acha que é normal ter jornada triplicada? Realmente vivemos num país desigual em oportunidades e não é de se estranhar que as mulheres sempre foram colocadas como algo de segunda importância. Entretanto, ao mesmo tempo que vivemos neste mar de desigualdades fomos treinadas para serem guerreiras, batalhadores e super mulheres e isso, confesso, é algo que me assusta muito!
    Acredito que a decisão da maternidade podia ter apoio não somente dos nossos homens mas da sociedade e do Estado. Primeiramente poderíamos pensar nas creches públicas que poderiam realmente proporcionar a muitas de nós deixar seus bebês para trabalhar, assim como pensar que o Estado poderia e deveria disponibilizar creches em todos os bairros para que as mamães pudessem ir pessoalmente do trabalho amamentar seus bebês. Outra coisa que poderia ser muito bacana é que todos os trabalhadores no Brasil tivessem 2 horas de almoço para que não somente as mamães mas também os papais pudessem almoçar com a família e ter uma participação maior na educação e vida de seus filhos. Além disso, acho que deveria ser garantida uma licença de no mínimo 6 meses e mesmo licença paternidade no mesmo período para que os papais também tivessem sua parcela de responsabilidade neste momento. Neste ponto, licença paternidade poderia ser um grande avanço para igualar os direitos das mulheres no mercado de trabalho pois devemos lembrar aqui que muitas empresas deixam de contratar mulheres justamente porque elas podem engravidar no trabalho o que é evidentemente uma grande desvantagem profissional para as mulheres. Assim, todos essas formas de apoio poderiam de fato contribuir para a concretização de uma realidade mais justa e a decisão de ter ou não um bebê com certeza seria muito mais fácil.

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