Aleitamento materno: uma questão de saúde pública

agosto-dourado

O mês de agosto é conhecido como “Agosto Dourado”, dedicado à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. A data reforça a “Semana Mundial do Aleitamento”, uma campanha da Organização Mundial da Saúde existente há mais de vinte anos. No tema escolhido para a campanha, a cor dourada se refere ao padrão ouro de qualidade do leite materno. No mês passado, os serviços de saúde intensificaram suas ações educativas por meio de eventos e informativos (propaganda, cartazes, posts em rede sociais) com o objetivo de promover o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e como complemento até o segundo ano de vida. Em 2016, o Ministério da Saúde (MS) foi além dos benefícios para a mãe e o bebê e destacou os aspectos econômicos e ecológicos do aleitamento materno: a fabricação de leites em pó ou longa vida utilizam energia, materiais para embalagem, combustível para a distribuição e água, além de produtos de limpeza tóxicos para o preparo diário [1].

No início deste ano a revista The Lancet publicou uma completa revisão sobre os padrões de amamentação no mundo, as consequências a curto e longo prazo pra mãe e criança e as estimativas de quantas vidas poderiam ser salvas se os índices de amamentação fossem ideais [2]. O artigo descreve que países de baixa renda apresentam as melhores taxas de amamentação em todas as idades quando comparados aos países de alta renda. Quando se dobra o PIB per capita, a prevalência de aleitamento aos doze meses decresce 10%.O estudo aponta também que em países mais ricos, mulheres com maior grau de escolaridade e maior renda amamentam por mais tempo. Nos países mais pobres, por outro lado, conforme há aumento da renda, são menores as taxas de amamentação e maior o uso de substitutos lácteos.

O Brasil foi citado como referência mundial, à frente dos Estados Unidos, Reino Unido e China: em 30 anos a média de aleitamento passou de dois meses e meio para 14 meses em nosso país. Apesar dos avanços, dados do MS descrevem que somente 41% das crianças recebem aleitamento materno exclusivo (somente leite materno) até os seis meses. O estudo do The Lancet aponta que a iniciação do aleitamento (recomendada na primeira hora de vida) e a exclusividade ainda tem índices insatisfatórios. Os avanços brasileiros são atribuídos à regulamentação da lei da amamentação, que limita a comercialização de substitutos do leite materno e incentiva a licença maternidade de 6 meses, além da atuação dos hospitais “Amigos da Criança” e dos Bancos de Leite Humano.

Além dos bem conhecidos benefícios do ponto de vista nutricional, os autores relatam menores taxas de infecções, menos má-oclusões dentais e maior inteligência em comparação tanto com as crianças amamentadas por períodos curtos como com as não amamentadas no peito, com índices que se refletem ainda na vida adulta. As evidências também sugerem que o aleitamento materno protege contra obesidade e diabetes nas demais fases da vida. Para as mães, amamentar previne câncer de mama, melhora o intervalo entre as gestações e pode reduzir o risco de diabetes e câncer de ovário. Os achados de estudos imunológicos, epigenéticos e de microbioma esclarecem que o aleitamento materno é um remédio personalizado para mãe e filho. O leite materno transmite elementos da microbiota e sistema imunológico da mãe e promove o crescimento de bactérias benéficas, independente do tipo de parto. O leite materno possui 8% de seu valor calórico total composto por oligossacarídeos específicos (do inglês, human milk oligosaccharides – HMOs) que não são digeridos e promovem uma resposta imunológica intestinal adequada. O estudo estima ainda que o aleitamento materno pode prevenir 823 mil mortes infantis e 20 mil mortes por câncer de mama por ano, e pode contribuir para alcançar a meta de reduzir a pobreza e melhorar a educação e a economia dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas [3].

A revisão compila informações valiosas sobre o aleitamento materno, e destaco aqui os avanços do aleitamento materno no nosso país. Entretanto, é inevitável refletir sobre os motivos do sucesso do aleitamento, muito além dos aspectos econômicos e de saúde. É necessário que a mulher se sinta segura e amparada nesta fase tão importante da vida. Claro que existem mulheres que não podem amamentar e cada caso deve ser avaliado. Mas muitas delas deixam de fazê-lo por crenças e tabus, como leite fraco, quantidade de leite produzido pela mãe e “peitos caídos”. Os profissionais de saúde devem instruir as mães nas dificuldades e a família deve dar o apoio emocional e incentivo para que a mulher não desista de seus objetivos. A sociedade também deve participar e não constranger ou condenar a mulher que amamenta em público. Avanços existem, mas ainda há muito a ser feito. Essa discussão renderia muitas postagens… Por enquanto, me arrisco a afirmar que a informação e o empoderamento das mulheres são as palavras-chave. Que tal passar essas informações pra frente e fazer sua parte?

 

  1. http://www.brasil.gov.br/saude/2016/08/governo-lanca-campanha-sobre-amamentacao-para-2016
  2. Cesar G Victora, Rajiv Bahl, Aluísio J D Barros, Giovanny V A França, Susan Horton, Julia Krasevec, Simon Murch, Mari Jeeva Sankar, Neff Walker, Nigel C Rollins. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet, Volume 387, Issue 10017, 30 January–5 February 2016, Pages 475-490.
  3. http://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-development-goals/

Figura: https://www1.mar.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno-agosto-dourado

 

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Um comentário sobre “Aleitamento materno: uma questão de saúde pública

  1. Pingback: Microbioma e aleitamento materno: como esses universos se encontram? | cientistasfeministas

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