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Desafios da institucionalização da agenda feminista e de Gênero: Entrevista com as professoras Marlise Matos e Solange Simões

O Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais completou 50 anos e, ao longo do ano de 2016, estão ocorrendo seminários e eventos comemorativos. No dia 11 de agosto, realizou-se a mesa “Desafios da institucionalização da agenda feminista e de Gênero no DCP/UFMG”, com as presenças das Professoras Magda Neves (PUC Minas), Solange Simões (Univsersity of Eastern Michigan) e Marlise Matos (PPGCP/UFMG). Além da participação do Professor Cristiano Rodrigues (DCP/UFMG).

Apesar de todas as dificuldades ainda presentes – que não diferem dos demais departamentos nas universidades[1], o DCP está na vanguarda no debate de Gênero e a institucionalização destes estudos na Pós-Graduação. Atualmente “Gênero, Reconhecimento e Feminismo” é uma das linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e engloba diferentes pesquisas que têm Gênero como lente teórica, empírica, política, militante. Movimentos trans*, mulheres e meio rural, a representação midiática dos movimentos feministas, violência contra as mulheres, feminicídio, movimentos autônomos de mulheres, a questão racial, são alguns dos temas que vêm sendo pesquisados no âmbito do programa.

Conversamos um pouquinho com as Professoras Marlise Matos e Solange Simões para conhecer um pouco mais sobre essa história. Abaixo a entrevista para vocês.

Como foi, Marlise, a sua chegada à Ciência Política, a sua trajetória com os estudos de Gênero?

Marlise Matos: Eu tenho uma trajetória de caráter muito interdisciplinar. Na graduação eu fiz Psicologia aqui na UFMG, no mestrado eu fiz Teoria Psicanalítica na UFRJ, depois o doutorado em Sociologia no IUPERJ. Nesse percurso todo, desde a graduação, a questão central e o debate que acompanha essas mudanças, Gênero foi ponto de convergência, foi o fio condutor da minha trajetória. Então, me descubro feminista já na graduação. Não havia como a gente tem hoje, movimentos organizados dentro da universidade, era uma pessoa ali e outra aqui. E na época, por coincidência, Sandra Azeredo, que é da Psicologia, e que foi uma das precursoras importantes, coordenadora do NEPEM, no período que eu estava fazendo a graduação, ela estava fazendo o doutorado fora, então eu não a conheci. Então não me envolvi diretamente na universidade, na graduação, com questão acadêmica feminista. Mas eu era feminista por conta da minha trajetória pessoal, de ter lido Simone de Beauvoir com 18 anos, então, assim, entrei por ai. E toda a discussão da minha formação tem muito a ver com a questão das mulheres. Então, o meu trabalho com a agenda dos estudos de Gênero é algo que é o meu fio condutor. Eu me sinto à vontade nesse campo de estudos e nessa área de produção do conhecimento. Mais do que ser uma Socióloga, mais do que ser uma Cientista Política, mais do que ser Psicóloga, eu me sinto uma Feminista Acadêmica. E eu trabalho a minha produção muito mais orientada pelo campo dos estudos feministas e dos estudos de Gênero. Então eu acho que esse é o lugar que eu me encontro, que eu me reconheço como acadêmica, como alguém que faz pesquisas, como alguém que faz extensão, como alguém que leciona. Então, de fato, é a área da minha produção e é aonde realmente eu me encontro e que eu me reconheço como acadêmica.

E você, Solange, como foi essa inserção nos estudos de Gênero aqui no DCP na década de 80, quando você ainda era estudante de mestrado?

Solange Simões: Uma questão importante de ser mencionada é o reconhecimento de que havia desigualdade de gênero não só na sociedade em geral, mas dentro dos movimentos de esquerda, isso é fator constitutivo importante para a organização das mulheres tanto em termos de militância feminista quanto para as mulheres acadêmicas, que combinavam as duas coisas. Uma produção do conhecimento feminista e a organização feminista para a transformação da sociedade. E este é um elemento internacional. Acontece na Europa, nos Estados Unidos, que acontece em vários contextos, de um momento onde a centralidade era dada à classe social, às questões socioeconômicas, e as questões de Gênero não tinham visibilidade e eram até negadas, em muitas medidas. Então, isso eu acho que é um fator comum à emergência do feminismo tanto acadêmico quanto de militância, não só no Brasil como no mundo. E aqui no DCP, nessa época, era exatamente isso. Eu estava muito envolvida com o movimento sindical, com o sindicato dos professores, com a formação do PT. Mas, naquele momento, há o assassinato da Ângela Diniz. E se começam manifestações contra esse tipo de discriminação absurda contra as mulheres na sociedade brasileira, como o “crime de honra”, contra o assassino dela, o Doca Street, por ele ter sido absolvido. E depois também o movimento feminino pela anistia. A minha primeira entrada no feminismo foi através do feminismo socialista. E o primeiro curso que eu tive no DCP, que foi claramente um curso sobre relações de gênero e feminismo, foi ofertado pela Professora Celina Albano, da Sociologia, e o Professor Marcos Coimbra, da Ciência Política. Então, naquele momento, eu acho que era uma descoberta de uma dimensão a mais nas várias desigualdades, que não estava sendo abordada.

Marlise, e ao longo desses dez anos que você está na Ciência Política, como você avalia a institucionalização dos estudos de Gênero?

Marlise Matos: A Associação Brasileira de Ciência Política vai fazer um livro de memórias da institucionalização do campo, e eu fui convidada pelo Presidente da ABCP para escrever um capítulo sobre a institucionalização dos estudos de Gênero. Para isso, eu avaliei 20 anos de produção de artigos científicos em nove revistas acadêmicas da área das ciências humanas e sociais e avaliei 16 anos de produção de teses e dissertações da área de Gênero na Ciência Política. Feito isso, é muito evidente ver que a partir de 2004, 2005, há, de fato, uma institucionalização destes estudos. Primeiro, o que a gente pode obsevar que a presença feminina no campo ainda é infinitamente maior na produção de artigos e com ainda mais força na produção de teses e dissertações, que tem pouquíssimos homens, o que não deveria ser em minha opinião. Eu acho que não é patrimônio e exclusividade das mulheres o debate feminista e de gênero. E você consegue traçar essa institucionalização a partir da trajetória individual de algumas pessoas. Há uma concentração muito forte na minha pessoa e na Professora Flávia Biroli, da UNB. Então nós duas, sem dúvida nenhuma, somos as duas pessoas que estão tomando essa frente aí de trazer, de fato, a questão de Gênero e feminista para dentro da Ciência Política. Agora, nada disso acontece em céu de brigadeiro. Porque aqui na Ciência Política acontece como sempre aconteceu nas outras áreas, hoje isso não acontece com tanta frequência na Sociologia e na Antropologia, acredito eu, mas, durante muito tempo, no começo dessa institucionalização se discutia se isso era ciência ou não era ciência. Se esse conhecimento feminista era uma militância e não era uma ciência propriamente dita, né. Então, a gente ainda tem que ouvir, na própria Ciência Política, questionamentos nessa direção, de que isso não é um campo científico, é um campo de ativismo, é um campo de militância. O que em minha opinião, é uma leitura absolutamente rasteira, equivocada e enviesada. Mas há o reconhecimento de algumas figuras muito importantes de que “o que há de novidade, de originalidade no campo da teoria democrática, são as feministas que estão fazendo”. Portanto, há o reconhecimento da produção acadêmica feminista como uma produção de ponta no conhecimento político hoje no mundo. E aqui no Brasil eu não acho que é diferente, eu acho que a gente está indo na mesma toada.

E você Solange, como avalia essa institucionalização dos estudos de Gênero nos Estados Unidos, que é o seu campo de atuação?

Solange Simões: Eu já estou nos Estados Unidos há vinte anos. Sou professora de um Departamento de Sociologia e de um Departamento de Estudos da Mulher e de Gênero. Realmente eu acompanhei essa trajetória mais lá do que aqui, apesar de continuar trabalhando com Neuma Aguiar e com a Marlise[2]. Então, essa discussão pra mim, no contexto americano, ela é muito mais presente. E é uma discussão bastante diferente do que acontece aqui no Brasil. Nos Estados Unidos você tem a constituição de programas primeiro, e departamentos. O que está acontecendo hoje nos Estados Unidos é a grande preocupação com os novos rumos, com o que vai acontecer com esses programas e esses departamentos de estudos de gênero e mulher. E em que medida eles ainda continuam, de certa maneira, marginais dentro das universidades. Em que medida que esses departamentos estão sendo reconhecidos, ou seja, que estudos de gênero estão sendo reconhecidos como uma nova disciplina e não apenas como uma empreitada multidisciplinar. Há uma tentativa, agora, de fazer com que os professores que lecionam nesses departamentos de estudos de Gênero e Mulher sejam aqueles com doutorado em Estudos de Gênero e da Mulher. Mas com isso, é um tiro pela culatra, porque você acaba com esse caráter multidisciplinar que constituiu esses programas e esses departamentos. Porque atualmente, nesses departamentos, você tem professores de todos os departamentos/programas da Universidade e você tem alguns professores que também são do departamento, como é o meu caso. A grande maioria são professores de todos os departamentos das várias áreas. Que seja da área de Saúde, Psicologia, Ciências Sociais, Economia, etc, que dão cursos sobre Gênero e Feminismo e que compõem o corpo do departamento. Agora, com essa progressão do Gênero, dos estudos de Gênero nas universidades americanas, você tendo pessoas com doutorado sendo contratadas, isso significa, hoje, que só pode dar aula sobre Estudos de Gênero e da Mulher, quem fez o doutorado. Ou seja, com isso, você acaba com o caráter multidisciplinar. Na minha opinião, eu acho que isso é um problema seríssimo. Porque eu acho que o caráter multidisciplinar é constitutivo do conhecimento feminista. E se você hoje acha que o conhecimento de gênero vai ser gerado, principalmente e alguns acham que até exclusivamente, por aqueles com formação, com diploma, doutorados em Estudos da Mulher e de Gênero, nós temos ai um impasse muito grande. Ai temos impasses não só em termos do tipo de conhecimento que vai ser gerado, mas também institucionalmente, porque pra mim é o enfraquecimento desses programas e departamentos. Eu acho que este é um caminho que tem que ser avaliado de maneira muito crítica. Para algumas feministas que defendem a criação desses departamentos desta forma, é que estes tipos de cursos é que possibilitariam a produção do conhecimento de uma forma multidisciplinar. Não apenas multi, mas interdisciplinar. Eu acho extremamente questionável e problemático. Eu não estou questionando você ter um diploma em Estudos da Mulher e de Gênero, o que eu estou questionando aqui, é a concepção de que agora o quadro de professores desse departamento deve ser composto apenas por professores com doutorado em Programas de Estudos da Mulher e de Gênero. Isso pode afetar o caráter multidisciplinar da disciplina e em termos organizacionais, você ficar muito isolado, com um departamento muito pequeno e com pouca visibilidade. Esses cursos cresceram muito nos Estados Unidos justamente porque contam com a força de todos os professores, de todos os departamentos, que pesquisam e querem dar aula sobre Gênero e Feminismo.

E como foi pra você, Solange, uma mulher brasileira, que estuda teorias de Gênero, ir dar aula nos Estados Unidos? Como é essa experiência?

Solange Simões: Eu fui para os Estados Unidos pela Fulbright, como professora visitante, para a Universidade de Michigan, Center for Political Studies. Inicialmente eu não trabalhei com a questão de Gênero. Eu fiz o meu doutorado na Inglaterra, e quando voltei para o Brasil havia aqui a necessidade de uma maior formação em metodologia de Survey e eu fui para os Estados Unidos com esse objetivo, com essa bolsa da Fulbright, e acabei me envolvendo num Survey comparativo internacional sobre questões ambientais globais. Então a minha inserção foi mais pelo método e depois evidentemente me interessei também pelo tema. Mas, quando eu tive a oportunidade de fazer esse concurso, para ter essa posição dupla, de Departamento de Sociologia e de Departamento de Estudos de Gênero e da Mulher, foi uma oportunidade pra mim de voltar mais à temática de Gênero, porque eu trabalho com outras temáticas também na Sociologia como a temática da classificação racial, questão das estruturas de classes. Então foi uma oportunidade de voltar a dar mais ênfase nos meus trabalhos às questões de Gênero e desigualdade. E pra mim foi uma grande oportunidade porque eu passei a trabalhar muito na questão internacional comparativa sobre a perspectiva de estudos de gênero e feministas, e foi um espaço bastante importante tanto do ponto de vista da academia quanto também para minha militância. Eu represento a Sociologists for Women in Society, no UN Economic and Social Council da ONU, e tem uma reunião anual em Nova Iorque do Economic and Social Council, onde há participação de feministas de todo o mundo, você tem ali como parte do Economic and Social Council o CEDAW, o Committee on the Elimination of Discrimination against Women, é realizada uma grande reunião com o tema sobre a desigualdade de gênero no mundo, e eu tenho a oportunidade de participar. Então pra mim essa vinculação entre os cursos que eu dou, o tipo de pesquisa que eu faço, e ai uma possibilidade de militância com mulheres do mundo inteiro, que eu acho super legal, super bacana, eu adoro. Mas, como eu entrei na área de globalização de gênero, e sendo brasileira, na realidade, é um fator, ser brasileira é um fator super positivo para alguém que está dando um curso sobre globalização e gênero na universidade americana. Então eu acho que isso me coloca em uma posição melhor do que uma americana dando um curso sobre globalização e gênero numa universidade americana. Porque há muita discussão sobre o feminismo do sul global, do norte global, e vindo do sul global, eu acho que me coloca numa posição de encarar alguns debates epistemológicos, alguns debates sobre a produção do conhecimento, me dão uma posição, acho que privilegiada de poder fazer à crítica, determinadas críticas que as americanas brancas eu acho que se sentiriam desconfortáveis em fazer.

Agora, para finalizar, Marlise, como o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM), que você coordena, acompanha essa trajetória da institucionalização dos estudos de Gênero e feminismo no Brasil?

Marlise Matos: Eu acho que é importante mencionar que se precisa de espaços institucionais para realizar projetos. Porque você não pode tratar os desafios como uma coisa endereçada a você, pessoa física. Você precisa ter lugares institucionais que abarquem. E eu acho que o NEPEM é uma instituição muito importante e a gente já está aqui na UFMG já mais de 30 anos. Se não me engano é o terceiro núcleo de Gênero que foi criado no Brasil. E é uma honra pra mim, uma alegria estar à frente da coordenação do NEPEM. A história de constituição do NEPEM tem a ver com a história dos estudos de Gênero e feministas nas ciências humanas. O NEPEM teve um protagonismo muito importante na Sociologia, na Antropologia, na Psicologia, que são as áreas que já se permearam, e já institucionalizaram esses estudos de forma muito anterior à própria Ciência Política. Eu acho que é um espaço institucional que é importante você o defender, e o manter existindo, porque ele abriga e abrigou, e eu espero que continue abrigando, as pesquisas de alunos de graduação, de pós-graduação, de fazer aquilo que é uma vocação fundamental, vertebradora do campo do feminismo, que é o trabalho de extensão universitária. Onde de fato se há uma produção militante, e pra mim não é um demérito, o trabalho militante do feminismo, porque justamente o feminismo se propõe do ponto de vista epistemológico, a ser uma intervenção e transformação do conhecimento a serviço da transformação do mundo, e, portanto, a área da extensão universitária é o lugar onde é possível você produzir essas formas de intervenção e de ação para modificar as relações, para você se aproximar da vida como ela é, se aproximar da vida real das mulheres, como a gente faz em inúmeros projetos. Na formação extensionista no Vale do Jequitinhonha, na região metropolitana de Belo Horizonte, com mulheres em situação de vulnerabilidade, em situação de risco, em situação de violência. Então eu acho que o espaço do NEPEM é o espaço para o acolhimento dessas iniciativas, de pesquisas que têm dado continuidade a esse desafio de continuar produzindo conhecimento qualificado sobre as mulheres e sobre as relações de Gênero. E o NEPEM é um espaço interdisciplinar. Que é o que é a vocação mesmo do campo dos estudos feministas e de gênero. Ser esse lugar da inter e da transdisciplinaridade. Que a gente tem tanta dificuldade em fazer acontecer nas nossas universidades. A gente fala como um valor, como um princípio, como uma direção, mas a gente não pratica. E o campo de gênero e feminista é um campo da prática interdisciplinar por excelência. Sempre foi. Nasceu assim e continua exercitando a sua existência assim dessa forma. Inclusive com os desafios e os dilemas que isso implica. Mas, o NEPEM é um espaço importante, de referência nacional, e eu espero em algum momento também internacional, eu tenho construído essas pontes, na região latino-americana, tentado fazer esse esforço de aproximar o NEPEM, o nosso núcleo, com os nossos trabalhos, as nossas pesquisas, os nossos alunos, da produção regional latino-americana. Eu acho que vale a pena abrir o NEPEM para esse diálogo, que hoje está nessa agenda do pós e do decolonial, é um trabalho que eu tenho interessado em fazer esforços nessa direção, para que a gente não seja mais uma a desconhecer o resto da América Latina, e a gente construa essa identidade também como América Latina.

[1] Um diagnóstico sobre a presença das mulheres nas Ciências Sociais pode ser visto aqui: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/24/a-voz-das-ciencias-sociais-e-masculina/

[2] As professoras Marlise Matos, Solange Simões e Yumi Garcia coordenam um projeto de pesquisa intitulado: O impacto do programa bolsa família sobre a vida das mulheres nos meios rural e urbano em Minas Gerais – Gestão do cotidiano e projeções para a autonomia, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.

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Neurociência computacional: como a física (e a galera de exatas) pode nos ajudar a entender o cérebro

O desejo de entender a natureza é a força que move a ciência. Nossa habilidade em desenvolver modelos para descrever o mundo e usá-los para fazer predições tem sido fundamental, tanto para nossa evolução quanto para nossa sobrevivência. Por isso, pode-se dizer que uma das especialidades do nosso cérebro é “construir modelos”. Há quem use esta ideia, inclusive, como a própria definição de cérebro. Em última análise, o cérebro seria “a máquina que constrói a realidade” [1]. Ou de maneira menos mecanicista, a estrutura ou o organismo que interpreta (o que chamados de) realidade.

Entender quais os mecanismos que ocorrem no nosso cérebro durante essas atividades de interpretação e predição é um dos grandes objetivos de físicos envolvidos com neurociência. Em particular, existe uma área de pesquisa que busca quantificar o fluxo de informação no cérebro e como este fluxo está associado aos sinais elétricos dos neurônios e a atividades cognitivas como aprendizado e memória. Essa área tem atraído uma quantidade cada vez maior de profissionais de física, matemática, engenharia, etc, devido às suas habilidades de desenvolverem modelos matemáticos e computacionais que podem ser comparados com dados experimentais neurofisiológicos. E graças ao destaque que a galera de exatas vem ganhando nesse campo, em março desse ano, a revista Nature Neuroscience dedicou uma edição inteira à chamada Neurociência Computacional e Teórica [2].

Uma das grandes questões que podem ser abordadas nessa linha relaciona a conectividade da rede formada por neurônios e sinapses (rede anatômica ou estrutural) com a conectividade da rede gerada pelo fluxo de informação, i.e., pela atividade elétrica dos neurônios (rede funcional) [3]. Uma das minhas analogias preferidas compara esse problema (da conectividade cerebral) com o do fluxo de carros em uma cidade. O mapa das ruas e avenidas de uma grande cidade é fixo (ou, pelo menos, muda lentamente com a construção e/ou destruição de novas vias), enquanto o tráfego dos carros por essas vias pode variar bastante em poucas horas. Por exemplo, pela manhã o trânsito costuma ser intenso na direção do centro ou de complexos industriais, mas no fim do dia o fluxo costuma se inverter, e o trânsito aumenta na direção dos bairros residenciais. Da mesma maneira, podemos pensar sobre o funcionamento do nosso cérebro. A distribuição anatômica das sinapses é praticamente fixa (ou muda lentamente devido à plasticidade cerebral) e pode ser comparada com o mapa das ruas e avenidas. Por outro lado, os sinais elétricos enviados através das sinapses para as diversas regiões de cérebro, ou o fluxo de informação trocado entre os neurônios, seria equivalente ao fluxo de carros ao longo das ruas. Tanto o fluxo de carros como o de informação elétrica podem variar rapidamenteser mais intenso em determinados momentos do dia, ou em certas áreas mas os dois guardam estreitas relações com o mapa físico sobre o qual são construídos (mapa das ruas ou mapa anatômico).

Uma diferença nessa analogia é que o tráfego dos carros poderia, a princípio, ser monitorado por diversas câmeras espalhadas pela cidade, enquanto o nosso cérebro, além de estar escondidinho dentro da caixa craniana, possui da ordem de 1015 sinapses! Um número exageradamente maior do que o de ruas em uma grande cidade [4]. Portanto, precisamos descobrir maneiras inteligentes de monitorar o fluxo da atividade elétrica dentro do cérebro para entender como pensamos, aprendemos, lembramos. Além disso, precisamos desenvolver modelos biologicamente plausíveis que descrevam a atividade elétrica dos neurônios ou das regiões corticais. Conectando milhares destes neurônios, é possível estudar como a topologia da rede interfere na sua atividade global; como diversos mapas dinâmicos, associados a diferentes atividades cognitivas, podem surgir de um mesmo mapa anatômico. Ou ainda, precisamos entender como a atividade cerebral varia quando agrupamos tipos diferentes de células nervosas, quando consideramos neurônios excitatórios e inibitórios, ou a presença de ruído, ou quando adicionamos atrasos no tempo gasto para as correntes elétricas percorreram determinadas distâncias.

Este processo interativo de desenvolver modelos, comparar com os dados, fazer predições, testá-las, melhorar os experimentos, melhorar os modelos, comparar novamente com os dados, etc, tem permitido uma compreensão cada vez maior do que acontece no cérebro em diferentes escalas espaciais (molecular, neuronal, cortical), e temporais (milissegundos, horas, anos). Mas muito além da perspectiva de aumentar nossa compreensão sobre o que é consciência, o que são os pensamentos e as memórias, como podemos usar o nosso cérebro para estudar o próprio cérebro, todo esse longo processo científico tem ajudado de maneira bem prática a desenvolver melhores estratégias de aprendizagem, diagnósticos mais precisos e tratamentos cada vez mais eficientes de diversas doenças cognitivas e neurodegenerativas.

Referências:

[1] Um dos TED talks mais legais sobre o cérebro que conheço, apresentado por um físico: TEDxBuenos Aires. Mariano sigman: La maquina que construye la realidad. https://www.youtube.com/watch?v=1y8hiuBUnV8

[2] Edição especial da revista Nature Neuroscience sobre Neurociência Computacional e Teórica: http://www.nature.com/neuro/focus/neural-computation-and-theory/index.html#ed

[3] Bullmore, E. & Sporns, O., 2009. Complex brain networks: graph theoretical analysis of structural and functional systems. Nature Reviews Neuroscience, 10(3), pp.186-198. http://www.nature.com/nrn/journal/v10/n3/abs/nrn2575.html

[4] Olhando no Google Maps, a ilha de Manhattan possui cerca de 250 avenidas ao longo do eixo mais comprido e pouco mais de 10 ao longo do eixo perpendicular. Supondo que o mapa das ruas fosse uma rede retangular regular isso daria pouco mais de 2500 cruzamentos (ordem de 103 <<< 1015 ).

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Violência obstétrica e o viés racial

As mulheres sofrem violência tanto no parto, quanto na situação de abortamento. Mesmo as que dão “a luz” não estão salvas de serem violentadas institucionalmente. Porque na verdade o grande problema é o SER, mulher negra jovem de periferia, estas categorias sociais/identitárias definem ou ajudam muito na decisão do profissional de como serão tratadas as pessoas que acessam os serviços de saúde.

A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Essa e a definição dada pelos Estados da Venezuela e da Argentina, onde a Violência Obstétrica é tipificada.  (Defensoria do Estado SP).828a7d0edf4e916f1971d08221068324

Segundo o Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres os atos caracterizadores da violência obstétrica são todos aqueles praticados contra a mulher no exercício de sua saúde sexual e reprodutiva, podendo ser cometidos por profissionais de saúde, servidores públicos, profissionais técnico-administrativos de instituições públicas e privadas, bem como civis.

A Pesquisa Nascer no Brasil, realizada em 2014, apresenta dados interessantes sobre as intervenções durante o parto em mulheres de risco obstétrico habitual e boas práticas e o que o estudo mostra é que a infusão de ocitocina e ruptura artificial da membrana amniótica foi uma técnica muito utilizada para provocar a aceleração do trabalho de parto. Ambas ocorreram em cerca de 40% das mulheres de risco habitual, sendo mais frequente nas mulheres do setor público, de mais baixa escolaridade.

São as mulheres negras que mais sofrem violência obstétrica, pois são as que mais peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. Cerca de 60% das mulheres que morrem de morte materna são negras. É importante ressaltar que a morte materna é considerada uma morte prevenível e que em 90% dos casos poderia ser evitada se as mulheres tivessem atendimento adequando.

Sobre a morte materna, enquanto não enfrentamos o racismo institucional nos serviços de saúde e garantir a equidade entre mulheres negras e brancas o Brasil continuará a ter a alta taxa de mortalidade (63,9/100 mil nascidos vivos – 2013), neste sentido é importante destacar que o Brasil não a alcançou a meta do Objetivo do Desenvolvimento do Milênio sobre saúde materna, que deveria chegar no máximo de 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015, mas, se por acaso o Brasil fosse de mulheres brancas (35,6/100 mil nascidos vivos – 2013); (mulheres negras foram de 62,8/100 mil nascidos vivos) a meta teria sido alcançada.

Violência obstétrica, racismo institucional e morte: Caso Rafaela Santos

Rafaela Cristina Souza dos Santos tinha 15 anos, morreu de morte materna após dar à luz em uma maternidade no Rio de Janeiro, em 2015. Houve negligência no atendimento à adolescente, que ficou por mais de cinco horas no hospital, sem atendimento de médico, queixou-se de dor de cabeça, houve insistência no parto normal, quando apresentou quadro de eclampsia, fizeram a cesárea tardiamente e Rafaela foi a óbito.

O Dossiê revela que a eclâmpsia, pré-eclâmpsia e os distúrbios hipertensivos afetam muito mais a população negra, sendo as maiores causas da mortalidade materna da população negra. Apesar disso, o médico não poupou seu diagnóstico com base em preconceito racial e socioeconômico. O racismo dos profissionais de saúde atrasa a decisão da mulher de buscar assistência, dificulta o acesso da mulher ao serviço de saúde, dificulta o acesso da mulher ao tratamento adequado.

“Tinha que ser! Olha aí, pobre, preta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!” fala atribuída ao anestesista que foi chamado durante a madrugada (plantão de sobreaviso) para atender a uma cesárea de emergência de uma gestante adolescente com eclampsia cujo parceiro estava preso por tráfico de drogas. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES (Fragmentos do Dossiê).

A violação dos Direitos Sexuais e Reprodutivos corresponde à limitação de oportunidades na vida das mulheres, tanto na esfera pública como na esfera privada – e também podem culminar, muitas vezes, na morte e na aquisição de agravos que poderiam ser evitadas.

A violência institucional, e neste caso tipificada pela violência obstétrica, prejudica o acesso das mulheres aos serviços de saúde, o que pode levar a morbimortalidade materna.

O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveriam garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde.

Fonte:

LEAL, Maria do Carmo et al. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad. Saúde Pública [online]. 2014, vol.30, suppl.1

Parto do Princípio Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa. Dossiê da Violência Obstétrica “Parirás com dor”. Dossiê elaborado para a CPMI da Violência Contra as Mulheres, Brasília, 2012.

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O impacto de mega eventos no país sede: o que ficou para o Brasil da Copa e das Olimpíadas?

Entre os meses de junho e julho de 2014, o Brasil foi palco de um dos maiores eventos esportivos mundiais: a Copa do Mundo de Futebol. Regado de polêmicas, protestos, escândalos de corrupção dentro da FIFA[1], descaso com a vida de trabalhadores que tiveram que acelerar a obra na reta etc, esse evento foi também analisado por diferentes pesquisadores de áreas como sociologia, direito, ciência política, entre outros. Agora em agosto de 2016, nas Olimpíadas, estamos vendo a repetição de alguns padrões, como por exemplo o Comitê Olímpico Internacional (COI) concordando com censura aos protestos de brasileiros que diziam “fora Temer” dentro dos estádios olímpicos[2]. Assim, essa literatura acadêmica que se produziu a respeito da Copa pode ser muito útil, também, para analisarmos as Olimpíadas.

Em ambos os megaeventos temos a questão do desrespeito às leis locais com o argumento de que isso é necessário para fazer acontecer algo grandioso e internacional. A lei nº 12.663/2012 (a “Lei Geral da Copa”), por exemplo, teve a constitucionalidade de diversos artigos questionada por vários juristas renomados. Já a ação direta de inconstitucionalidade (ADI 4976 – DF), proposta pela Procuradoria Geral da República, infelizmente, questionou apenas três dispositivos dessa lei: “[dispositivos] que responsabilizam a União por prejuízos causados por terceiros e por fenômenos da natureza; que concederam prêmio em dinheiro e auxílio mensal aos jogadores das seleções brasileiras campeãs das Copas de 58, 62 e 70; e que isentam a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) e suas subsidiárias do pagamento de custas e outras despesas judiciais”[3]. Mas o artigo 11, dentre vários outros problemáticos, por exemplo, não foi questionado. Diz esse artigo

A União colaborará com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios que sediarão os Eventos e com as demais autoridades competentes para assegurar à FIFA e às pessoas por ela indicadas a autorização para, com exclusividade, divulgar suas marcas, distribuir, vender, dar publicidade ou realizar propaganda de produtos e serviços, bem como outras atividades promocionais ou de comércio de rua, nos Locais Oficiais de Competição, nas suas imediações e principais vias de acesso. (grifos nossos)

Já o artigo 12 especificava que o espaço de exclusividade seria um “perímetro máximo de 2 km (dois quilômetros) ao redor dos referidos Locais Oficiais de Competição”. Assim, esse artigo representa um desrespeito incoerente a uma constituição que protege o livre mercado.

Pensando no período das Olimpíadas, salta aos olhos a lei 13.260/2016 (“lei antiterrorismo”), sancionada ainda pela presidenta Dilma e que está sendo fartamente usada para espalhar o pânico e deter pessoas como “exemplo”.

Além da questão da constitucionalidade das leis que organizam os megaeventos, os mais prejudicados sempre são os trabalhadores e trabalhadoras. Muitas greves de várias categorias foram sufocadas violentamente para que a Copa não fosse prejudicada. Ademais, foram numerosos os acidentes de trabalho nas obras dos estádios, o que levou a óbito dezenas de trabalhadores. É patente o desrespeito à vida desses trabalhadores, já que a responsabilidade pelas obras foi assumida por empresas terceirizadas, que muitas vezes sumiram sem pagar as devidas indenizações para as famílias dos trabalhadores que faleceram. Nas Olimpíadas, não tivemos notícia de greves sufocadas até o momento, mas houve óbitos de trabalhadores nas obras da Vila Olímpica, fato pouco noticiado e tratado como de pouca importância.

Podemos perceber, também, que, além do Brasil, os próximos países que serão sede de Copas do Mundo e Olimpíadas também apresentam grandes problemas: um relatório da International Trade Union Confederation denunciou as péssimas condições de trabalho a que são submetidas as pessoas que trabalham nas obras dos estádios para a Copa do Mundo de 2022, no Qatar. As denúncias incluem trabalho escravo, condições degradantes de vida e trabalho, fornecimento de água poluída para os trabalhadores beberem e cozinharem, tortura contra trabalhadoras domésticas, além da chocante notícia de que 1200 trabalhadores já haviam falecido em acidentes de trabalho nas obras para aquela Copa ainda em 2014, quase uma década antes do evento.

Além dos problemas que se relacionam com o direito do trabalho, há também a questão das mulheres, como, por exemplo, o tratamento que a mídia dispensa às atletas. Na Copa do Mundo, mulheres foram excluídas do espaço “principal”[4] e, nas Olimpíadas, muitas vezes estão sendo tratadas, pelo veículos midiáticos, apenas como “musas”. A hipersexualização do corpo das mulheres é nociva para as todas as mulheres e principalmente para as brasileiras, que já carregam o estereótipo de sensuais e sempre “disponíveis”. Isso sem mencionar o impacto negativo que esses estereótipos e a hipersexualização têm na vida das mulheres negras. Tudo isso também está intrinsecamente relacionado com a questão da exploração sexual de mulheres e meninas durante esse período. Muitos estrangeiros chegam ao Brasil para os megaeventos procurando por turismo sexual. Nesses períodos cresce vertiginosamente a exploração sexual, inclusive infantil.

Assim, acredito que esses grandes eventos devem levar a reflexões sobre o que está sendo feito nos países periféricos que se propõe a hospedar tais eventos. Como as instituições desses países estão contribuindo para que sua própria população seja prejudicada em troca de uma Copa ou Olimpíada. Que o tal “espírito” Olímpico nos faça refletir…

 

Referências bibliográficas

JENNINGS, Andrew. Jogo sujo: o mundo secreto da FIFA. São Paulo: Panda Books. 2011.

__________. Um jogo cada vez mais sujo. São Paulo: Panda Books. 2014.

SOUTO MAIOR, Jorge Luiz et al. Brasil em jogo: o que fica da copa e das olímpiadas? São Paulo: Boitempo, Carta Maior. 2014. P. 35.

__________. Uma Olimpíada na minha vida. Agosto/2016. Disponível em: http://www.jorgesoutomaior.com/blog/uma-olimpiada-na-minha-vida. Acesso em 9.8.16.

ITUC Special Report – The case against Qatar. International Trade Union Confederation, 2014. Disponível em: http://www.ituc-csi.org/ituc-special-report-the-case Acesso em 9.8.16.

TOLEDO, Renata Maria; GRIX, Jonathan; BEGA, Maria Tarcisa Silva. Megaeventos esportivos e seus legados: uma análise dos efeitos institucionais da eleição do Brasil como país-sede. Rev. Sociol. Polit., Curitiba, v. 23, n. 56, p. 21-44, Dezembro/2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782015000400021&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 9.8.16.

DAMO, Arlei Sander; OLIVEN, Ruben George. O Brasil no horizonte dos megaeventos esportivos de 2014 e 2016: sua cara, seus sócios e seus negócios. Horiz. antropol., Porto Alegre, v. 19, n. 40, p. 19-63, Dezembro/2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832013000200002&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 9.8.16.

[1] JENNINGS, Andrew. Jogo sujo: o mundo secreto da FIFA. São Paulo: Panda Books. 2011. JENNINGS, Andrew. Um jogo cada vez mais sujo. São Paulo: Panda Books. 2014.

[2] A ordem para a censura desse tipo protesto não foi dada pelo COI, mas este concordou que não deveriam existir “manifestações políticas” dentro das Olímpiadas.

[3] Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=241499. Acesso em 9.8.16.

[4] Mesmo sendo excluídas dos jogos e das narrações dos jogos, a mídia conseguiu mesmo assim tratar as poucas mulheres com algum destaque nesse período para objetificá-las. Apenas um exemplo: http://esportes.terra.com.br/futebol/copa-2014/mulheres-copa/. Acesso em 9.8.16.

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Sobre patos e a capacidade de pensar conceitos abstratos

O que faz de nós humanos? Para além de qualquer clichê, desde os filósofos mais antigos de que se tem notícia, todas(os) nós já pensamos nessa pergunta, que possivelmente não terá uma resposta definitiva tão cedo. Dentre as capacidades que gostaríamos de acreditar que são exclusivas de nossa espécie, está a capacidade de pensar abstratamente. Entretanto, um estudo recente desenvolvido na Universidade de Oxford revelou que até mesmo filhotes recém-nascidos de patos podem ser considerados “pensadores”.

Uma das formas de se estudar o pensamento abstrato em animais não humanos é com base na capacidade dos indivíduos diferenciarem conceitos relacionais, como “igual” e “diferente”. Já se sabe que esses conceitos podem ser aprendidos por vários animais como papagaios, pombos, macacos e até mesmo abelhas, especialmente após algum tempo de treinamento por recompensas após respostas corretas. Surpreendentemente, filhotes de patos não precisam deste treinamento e são capazes de diferenciar essas ideias com apenas 24h de vida.

Recém-nascidos de muitas espécies de aves, como patos e pintinhos, apresentam o comportamento chamado de imprinting. Esse é um processo que permite que os filhotes aprendam a identificar seus pais, ou o primeiro objeto que veem, tocam ou escutam (até mesmo humanos ou robôs). Uma vez identificado, o filhote segue o “objeto” como se este fosse sua mãe, até que cresça o bastante para se tornar independente. Portanto, este comportamento é adquirido em poucos minutos, sem qualquer treinamento e com alta fidelidade. A partir disso, pesquisadores utilizaram o comportamento de imprinting como modelo para buscar entender se filhotes de patos são capazes de diferenciar os conceitos abstratos “igual e diferente”.

Na fase inicial do experimento (fase de imprinting), cada filhote foi exposto por 25 minutos a um par de objetos que se movia por uma arena experimental. Depois, os filhotes eram mantidos por 30 minutos num ambiente escuro e, finalmente, apresentados a dois novos pares de objetos em movimento. Nesta fase final, cada animal foi exposto a dois pares de objetos que diferiam do primeiro quanto à cor ou quanto à forma. Entretanto, um desses pares mantinha o mesmo padrão dos objetos apresentados na fase de imprinting. Por exemplo: na fase inicial, um filhote foi exposto a um par de esferas vermelhas. A seguir, na fase final do experimento, ele foi então apresentado a um par de esferas roxas e, ao mesmo tempo, a uma esfera azul ligada a uma esfera laranja, ambos os pares se movendo pela arena como móbiles. Neste momento, os pesquisadores observavam qual dos pares de objetos o filhote escolhia seguir. Foi observado que a maioria dos filhotes preferiam seguir os objetos de padrão similar àqueles que eles haviam sido apresentados inicialmente, mesmo que esses não fossem exatamente iguais. No exemplo acima, o filhote escolhia seguir o par de esferas de mesma cor (roxas), uma vez que, na fase de imprinting, ele havia sido exposto a um par de esferas vermelhas, e não a um par de esferas de cores diferentes. Os resultados foram similares quando a característica variável foi a forma do objeto. Neste vídeo, você pode entender melhor e visualizar o experimento!

pato

patopato

No experimento, os patinhos eram inicialmente expostos a um par de objetos que se movia pela arena e, posteriormente, a dois novos pares de objetos. A imagem (C) demonstra um filhote que, na fase de imprinting, havia sido exposto ao par indicado em (A) e, na fase final, escolhe um novo par de objetos diferentes entre si, ao invés do par de esferas (B).

Os resultados encontrados revelam que o sistema neural de aprendizagem desses animais processa informações, não apenas reconhecendo a informação sensorial, mas também decodificando aspectos abstratos bastante específicos da análise do estímulo. Essa habilidade deve ser determinante para a sobrevivência dos recém-nascidos: mesmo se a “mãe” não parece exatamente igual à última vez que o filhote a viu, ele pode acessar algumas informações abstratas que permitem o reconhecimento.

A habilidade de compreender as relações abstratas de igual/diferente deve ser crucial para uma ampla variedade de vertebrados e, na escala evolutiva, deve ter surgido antes do que imaginávamos. Ainda, essa pesquisa reforça que o pensamento abstrato não é restrito a humanos ou a “animais com cérebros grandes”, como se imaginava, evidenciando que essa capacidade não faz de nós, humanos, tão especiais assim.

Referência:

Martinho, A. & Kacelnik, A. (2016) Ducklings imprint on the relational concept of “same or different”. Science 353 (6296), 286-288. [doi: 10.1126/science.aaf4247]

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As Mulheres e as Olimpíadas

Muito do que disse Yvanna T. nesta coluna ano passado sobre “As mulheres e o Pan principalmente acerca da “clara distinção que a mídia de grande circulação fazia entre homens e mulheres” infelizmente, continua válido para os Grandes Jogos deste ano.

Pouco antes da abertura das Olimpíadas, temas como a diferença no valor da premiação entre homens e mulheres no vôlei voltaram à tona após a vitória destas no Grand Prix em julho. Claro que este fato não é privilégio de um esporte, e o lamentável comentário de Djokovic no Indian Wells em fevereiro mostra que esse tipo pensamento não está presente só nos bastidores. Dessa vez, porém, as mídias sociais não perdoaram – e esperamos que continuem assim por um bom tempo.

Para as mulheres, expôr sua indignação a respeito do tratamento diferenciado que recebem nos esportes é uma questão política com raízes históricas que ainda precisam ser revistas. No Brasil, as mulheres foram proibidas, por muito tempo, de praticar o futebol entre outros esportes potencialmente danosos à “principal” atividade feminina na sociedade: gerar filhos.

Precisamos falar das mulheres nos esportes, especialmente em tempos de Olimpíadas. Na primeira edição desses jogos da chamada “Era Moderna” não houve participação feminina (1896), porém sua presença já na segunda edição (1900) desmente o argumento de que “não haveria mulheres competentes” para os esportes à época.

Esse argumento, aliás, não encontra respaldo na realidade – nem dos esportes, nem da Ciência, como enfatiza Neil deGrasse Tyson em brilhante discurso (legendado) sobre o tema. Assim como é falso o argumento que cita a ‘lei de oferta e demanda’, dado que toda ‘lei’ é um construto social que pode e deve ser questionada frente às injustiças sociais.

Especialmente porque elas podem voltar para casa com a metade das medalhas, apesar de receberem só a metade do “incentivo” (como, por exemplo, em 2013).

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Nós, que resolvemos falar

O machismo é naturalizado. A violência é diária e se manifesta de diversas maneiras.
Cada uma de nós têm uma história que não queremos contar

Deitada no sofá em um dia quente, eu tentava me encolher e esquecer tudo aquilo que tinha acontecido horas antes. Segurava o choro e pensava calada “não foi nada, você também pediu por isso”, afinal, ele era o bonitão do colégio, mais velho e qualquer menina teria gostado de ficar com ele. Só que eu não sentia a euforia do beijo, nem o frio na barriga, ou o calor nas bochechas. Na verdade, era o oposto de tudo isso. Era um misto de vergonha, culpa e pesar. Eu não sabia o que tinha acontecido direito, então me calei.

Deitada no sofá em um dia frio, eu lembrei desse episódio. Hoje, sei o que aconteceu comigo, e não comporto mais o sentimento de culpa, e também não acho que a garota de anos atrás era burra. Sinto-me mais uma vítima, agarrada a uma sociedade naturalizada do machismo, patriarcal, e que me obrigou a ter os sentimentos do passado. Não mais. Escrevo essas palavras de coração aberto, porque fui acolhida por tantas outras garotas que, como eu, foram vítimas e se calaram. E por que nos calamos? Nossa, é muito difícil responder. São tantas coisas… Vergonha? Medo? Culpa? Acho que tudo isso e mais um pouco.

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A cada 11 minutos, um a mulher é estuprada no Brasil. São cerca de 130 abusos por dia. Foto: Nayara Kobori

De acordo com dados divulgados pelo Banco Mundial, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – o que resulta em 130 estupros todos os dias. E desses números, apenas 10% das mulheres violentadas denunciam o agressor. Isso sem contar os assédios (fiu fiu não é cantada, viu?), as tentativas de silenciamento, a subordinação da mulher pelo homem, etc.

Pois é. Somos todas filhas de Eva, a grande culpada pela desgraça do mundo. As histórias que vocês vão ler a seguir são de mulheres próximas do meu convívio, e que por trás de sorrisos, escondem muitas histórias. O pequeno trecho que relatei no começo do texto é apenas um. Somos muitas. Optei por não divulgar o nome das mulheres, por dois motivos: resguardar o direito dessas meninas (nunca é fácil falar sobre isso), e porque elas representam todas nós. São meninas sem rosto, mas que tem todos os rostos do mundo dentro delas.

Falar sobre mim

“Acho que a coisa mais difícil do mundo é falar sobre mim! Adoro conversar com as meninas e ajudar com tudo o que posso, sempre que posso. Eu tive um relacionamento que durou mais de dois anos, tinha acabado de fazer 15, quando comecei a namorar um rapaz que iria fazer 18 naquele ano. O meu “não” parecia graça para ele – não aceitava. Se mantinha insistente, até eu ceder. Começou com coisas bobas, por assim dizer, como sentar no colo, dar uns amassos mais quentes e tudo mais. Mas, foi evoluindo. Primeiro, houve insistência para masturbação, e eu sempre demonstrei meu desconforto. Eu não queria, mas ele queria. Eu era namorada dele, eu devia fazer isso, porque era o meu papel. Houve um dia em que ele me segurou com força pelos cabelos para que eu fizesse sexo oral nele. Foi aí que eu percebi que tinha muita coisa errada”.

Não vou receber ordens de mulher

 “Aqui no meio rural em que trabalho, eu tenho muita dificuldade às vezes pelo ambiente machista, em liderar e isso prejudica meu desenvolvimento profissional. Cheguei a ter um funcionário que se demitiu porque não aceitava receber ordens de mulher. A esposa desse funcionário veio esbravejando pra mim que só ela dava ordem pra ele (no meio rural, geralmente as famílias moram dentro da propriedade, a gente tem casa para isso). Depois disso, ficou insustentável! Levei o assunto pro meu pai (que é diretor) e o cara se demitiu porque não aceitava que fosse uma mulher a chefe direta dele. Meu pai fica do meu lado quando surge alguma questão assim. Mas, ele é daqueles que analisa a roupa pra não ~dar motivos para termos problemas~”.

Você me deixou muito irritado

“Meu namoro era sim abusivo, mas eu não sabia. Achava que era normal, me habituei à aquela situação. Mas, dentro de mim eu sabia que alguma coisa estava errada. O término foi desastroso. Eu acabei saindo com um cara uma noite só, daí meu ex descobriu. Estávamos em casa, quando eu fui tomar banho e ele mexeu em tudo no meu quarto, e aí soube que eu tinha saído com esse cara. Foi um inferno! Ele destruiu tudo onde colocou a mão e chegou a me bater, fiquei até desnorteada quando a minha irmã – por sorte – chegou e ele, com medo de dar alguma coisa mais errada, foi embora. Ele me perseguiu nas redes sociais por um bom tempo, pra me fazer sentir culpada, e com sucesso! Passei quase um ano me culpando por todo o relacionamento. E essa não foi a primeira vez que ele me agrediu. Houveram duas outras ocasiões em que eu deixei “muito irritado”. Eu simplesmente não sabia o que estava rolando, mas me sentia como se não tivesse valor nenhum. Eu tinha um medo sincero de apontar os erros que ele estava cometendo, por achar que eu o irritava. Então ficava na minha, porque afinal, ele era o único homem que me amaria pra sempre”.

É difícil sair de um relacionamento abusivo

“Eu tive um relacionamento que acabou este ano e durou dois anos e nove meses. Foi um relacionamento extremamente abusivo, mas no inicio eu não percebia isso, porque eu acreditava que certos comportamentos eram normais apesar de horríveis. Isso acontecia porque eu não sabia que merecia ter mais amor e respeito do que eu recebia, era meu segundo namoro e era a primeira vez que aparentemente eu estava sendo correspondida. O que as manas feministas precisam entender é que quem está em um relacionamento abusivo não sai dele rapidamente por diversos motivos. As pessoas pensam que esse tipo de relacionamento é ruim o tempo todo e que são só brigas, lagrimas e sofrimento diário, mas não é exatamente assim. Nele também existe companheirismo, carinho, etc. e é por isso que leva tempo para tomarmos coragem e sair, leva tempo para colocar na balança e perceber que presentes, flores, desculpas, ajuda na limpeza de casa, caronas para o médico não justificam mentiras, xingamentos, sexo não consensual, gaslighting, proibição de uso de roupa, proibição de ter amigos e frequentar festas. O pior sentimento que eu nutri nessa relação foi a culpa, tudo o que eu sofria era, porque eu tinha merecido aquilo, era porque eu reclamei, eu vi problema onde não tinha e essas coisas deixam marcas”.