Mulheres e câncer: Tumor de útero

Para auxiliar na divulgação de informação sobre cânceres em mulheres, publicarei aqui no Cientistas Feministas, textos que descrevem aspectos gerais de câncer de ovário, corpo do útero, mama e colo do útero, este último conhecido também como câncer cervical. O primeiro texto sobre tumor de ovário você pode acessar aqui.

Como o mês de setembro é o mês de conscientização do câncer de corpo de útero, ou câncer de útero, para simplificar, abordarei aspectos gerais sobre esta enfermidade e tratamento.

Câncer de útero é proveniente da transformação de células do endométrio que estão localizadas na parte interior do corpo uterino. De acordo com dados do Instituto Nacional do câncer (INCA), este é o sexto tipo de tumor mais comum, sendo mais frequente em mulheres da região Sudeste. Diferentemente do câncer de ovário, que tem uma taxa de letalidade mais elevada, o tumor de útero não é tão agressivo. Em geral, a taxa de sobrevida é em torno de 80% e esta taxa vai depender da agressividade do tumor 1-2.

A agressividade está relacionada ao tipo de tumor de útero que pode ser classificado em dois tipos: 1) endometrioides: são os mais comuns e de caráter não agressivo e portanto com bom prognóstico e 2) não endometrioides: são mais agressivos, com mais chances de recorrência e com prognóstico ruim. A taxa de sobrevida de 5 anos para o primeiro é 85%, enquanto, para o segundo cai para 55%. Mulheres afrodescendentes têm maior probabilidade de desenvolver tumores de características não endometrioides 3.

Sintomas, diagnóstico e triagem

Geralmente, as mulheres afetadas apresentam-se no período pós-menopausa (50-60 anos) e somente 5% das mulheres com idade inferior aos 40 são diagnosticadas com tumor de útero. Os sintomas mais comuns são: sangramento uterino e corrimento vaginal. A infecção uterina (piometra) também pode estar presente 2-3.

Em estágios mais avançados, há similaridade com sintomas encontrados em pacientes com câncer de ovário, uma vez que ambas condições podem apresentar distensão e dor abdominal 2. O diagnóstico se dá pelo histórico da paciente mais informações provenientes de exames como ultrassom e biopsia, sendo que esta última técnica é que vai confirmar o diagnóstico da doença. Para avaliar a detecção de metástases nas estruturas da cavidade abdominal como linfonodos, utiliza-se métodos como ressonância magnética e tomografia 2-3. Mulheres que apresentam quadro de obesidade devem ser alertadas pelo fato de possuírem um risco maior de serem diagnosticadas com câncer de útero 2. Além disso, mulheres portadoras da síndrome de Lynch ou câncer hereditário de intestino, também tem riscos aumentados. Infelizmente, não há métodos eficientes para a identificação precoce deste tumor. O melhor método seria a biopsia, mas neste caso, não seria muito aceito pelas pacientes, já que é um método invasivo 2.

Tratamento

Para as mulheres que possuem câncer de útero localizado, isto é, não apresentam metástases (55% dos casos), o tratamento é cirúrgico. Na cirurgia são removidos o útero, trompas e ovários. As chances de recorrência para estas pacientes são muito baixas, ao redor de 5%. Quando há detecção de metástases, a taxa de recorrência varia de 20 a 40% 2. Estudos mostram que a radioterapia é eficaz para diminuir a metástases localizadas e não interfere no tempo de sobrevivência das pacientes. Para combater a disseminação a estruturas mais distantes, pesquisadores sugerem a combinação de tratamentos quimioterápicos com a radioterapia 4.

Fatores de risco

Fatores de risco estão conectados a idade precoce da primeira menstruação (menarca), o fato de nunca ter tido filhos (nuliparidade), infertilidade e idade tardia em relação à menopausa 3.

Terapias à base de estrógeno para minimizar os sintomas causados durante a fase de menopausa podem elevar de 2 a 20 vezes a chance da mulher de ser diagnosticada com câncer de útero 3.

É interessante que os índices deste tipo de tumor têm aumentado principalmente em países mais ricos como os Estados Unidos e países da Europa 2-3. Acredita-se que este fato deve estar associado com a taxa crescente de obesidade 2. Sabe-se que o tecido adiposo é responsável por converter andrógeno a estrógeno, e como foi citado acima, aumento de níveis de estrógeno podem aumentar o risco de desenvolvimento desta doença 3. O uso de medicamentos reguladores negativos da via de estrógeno como Tamoxifeno, utilizado para o tratamento de alguns tipos de cânceres de mama, exercem um efeito estimulador nas células endometriais e isso aumenta as chances de incidência de câncer de útero em 6-8 vezes 3. Embora, haja indícios da conexão com diabetes, estudos mostram resultados controversos 2-3.

Futuro

Como os Estados Unidos, o Brasil também apresenta um aumento na taxa de obesidade e o controle deste número pode definir a incidência do câncer de útero na população brasileira.

Embora o câncer de útero não seja agressivo para a maioria das pacientes, e exista tratamento eficaz, muitas mulheres morrem devido a progressão da doença. Até então, não há nenhum tratamento novo aprovado. Há vários testes clínicos que estão sendo feitos para determinar o efeito de imunoterapias no aumento da sobrevida daqueles pacientes com mais chance de recorrência 2. Vamos aguardar e torcer.

Referências

  1. Estimativa 2016 Incidência de Câncer no Brasil. Ministério da Saúde. http://www.inca.gov.br/estimativa/2016/estimativa-2016-v11.pdf
  2. Morice P, Leary A, Creutzberg C, Abu-Rustum N, Darai E. Endometrial cancer. Lancet. 2016;387(10023):1094-1108.
  3. Burke WM, Orr J, Leitao MS, Emery, Gehrig P, Olawaiye AB, Brewer M, Boruta D, Villella J, Herzog T, Abu SF.Endometrial cancer: A review and current management strategies: Part I. Gynecol. Oncol. 134, 385–392 (2014).
  1. Burke WM, Orr J, Leitao MS, Emery, Gehrig P, Olawaiye AB, Brewer M, Boruta D, Villella J, Herzog T, Abu SF. Endometrial cancer: A review and current management strategies: Part IIGynecol. Oncol. 134, 393–402 (2014).

 

 

 

 

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