O “ecossistema” que nos habita

Os organismos se inter-relacionam a todo momento, procurando sobreviver e perpetuar as espécies. Assim como dependemos das plantas para produção de oxigênio e para a alimentação, os animais também podem ser fonte de sobrevivência de outros organismos. Dessa maneira, microrganismos e até outros animais podem residir e se multiplicar nos mais diversos ambientes, como nos pelos de um cachorro, na probóscide de um pernilongo, entre outros milhares de exemplos. No caso dos seres humanos, a microbiota é o conjunto de comunidades de microrganismos que habitam nosso corpo, por exemplo a pele, o sistema reprodutor e o trato gastrointestinal. Mais especificamente, a microbiota intestinal é a residente no nosso intestino, e que desempenha papel fundamental no metabolismo, sistema imune (atuando como antígenos e “exercitando” a resposta imune) e saúde dos seres humanos. Dessa maneira, uma microbiota “benéfica” pode promover melhorias na saúde do hospedeiro, enquanto uma microbiota “maléfica” pode levar a diversas desordens e doenças. A microbiota intestinal é influenciada principalmente pela alimentação, assim uma alimentação equilibrada pode aumentar as comunidades “benéficas” e gerar melhorias na saúde do hospedeiro.
Muitos estudos ainda são necessários para dimensionar a influência dessa relação, visto que o conhecimento das espécies que habitam nosso intestino permaneceu restrito por muitas décadas, devido a limitações de metodologia que impedem recriar as condições ideais para os microrganismos sobreviverem fora do ambiente intestinal. Alguns avanços recentes permitiram ampliar nosso conhecimento sobre essas espécies, que podem ser agrupadas nos seguintes grupos:

1) Bactérias: encontradas em grande quantidade no intestino humano, em um número de 10¹² células por grama de fezes, utilizam os nutrientes de nossa dieta como substrato para suas vias metabólicas. Os produtos desse metabolismo podem influenciar a saúde geral do organismo;

2) Archaea: esses organismos, que pertencem ao terceiro domínio taxonômico denominado Archaea (os outros domínios são: Eubacteria e Eukaria), eram geralmente encontrados em ambientes com condições ambientais de pH e temperatura extremas. Descobertas recentes mostram que esses organismos também fazem parte da diversidade da microbiota intestinal, podendo atingir até 1010 células por grama de fezes. Esses microrganismos são responsáveis pela produção de metano, um gás que é componente essencial para manter o “ecossistema” intestinal em condições ideais para a sobrevivência da microbiota;

3) Vírus: podem interagir com o “ecossistema” intestinal, influenciando a digestão dos alimentos, além de agir ativamente na saúde do hospedeiro, prevenindo a invasão de patógenos. Também estão relacionados com doenças como a gastroenterite;

4) Fungos: a comunidade de fungos residente no intestino é bem reduzida, entretanto algumas espécies residentes da microbiota podem desencadear doenças no hospedeiro, como em condições de vulnerabilidade imunológica. Além disso, um grande número de espécies encontrado tem origem nos alimentos que ingerimos, e o papel dos fungos permanece pouco elucidado;

5) Helmintos e protozoários: estão associados a casos de doenças e causam infecção em milhões de pessoas mundialmente, especialmente em locais com condições precárias de saneamento básico.

O equilíbrio entre as espécies “benéficas” e “maléficas” é fundamental para o bem estar do hospedeiro. Hábitos pouco saudáveis, como má alimentação, ingestão de álcool e tabagismo podem gerar desequilíbrio, favorecendo o crescimento das comunidades “maléficas” e consequentemente o desenvolvimento de doenças. Por outro lado, hábitos saudáveis e alguns alimentos favorecem o crescimento das comunidades “benéficas”. Um exemplo é o butirato, metabólito produzido a partir da fermentação bacteriana de fibras insolúveis provenientes da alimentação e que possui propriedades anti-inflamatórias e anti-carcinogênicas. Avanços nos estudos irão expandir o conhecimento científico acerca da microbiota intestinal, podendo mostrar como esses microrganismos atuam na nossa saúde, permitindo até que a modulação da microbiota seja uma técnica terapêutica promissora.

Referência:
2016, Hugon, P. et al. Repertoire of human gut microbes, Microbial Pathogenesis

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