Eu não tô legal, não aguento mais birita. Trilogia da cerveja – Parte 2

Você já foi a uma festa com suas amigas e, depois de beber exatamente as mesmas canecas de chope você ficou super mal e elas continuaram bem? A verdade é que todo mundo já passou por uma situação assim, mesmo em lados diferentes da história. Nesse texto trataremos do etanol, que é o álcool presente nas bebidas alcoólicas mais comuns. O metabolismo desse álcool no corpo humano segue a mesma rota pra todos os indivíduos, mas a velocidade e eficiência com que ele faz esse caminho depende de diversos fatores e é isso que vamos investigar aqui.

“Que você seja feliz como Jason Momoa na cervejaria Guinness!”

Eu bebo sim e estou vivendo – o caminho da cerveja no nosso corpo

Quando você bebe uma cerveja, por exemplo, depois de fazer um carinho especial nas suas papilas gustativas, ela desce para o seu estômago e para seu intestino delgado. Esses são os pontos de absorção da bebida que é extremamente hidrossolúvel (muito solúvel em água) devido à presença das ligações de hidrogênio  entre a água e o álcool. A partir daí o álcool é transportado para todo o corpo.

Percorrendo os diferentes tecidos o álcool leva a muitos efeitos diferentes. Algumas pessoas sentem uma sensação de euforia, outras sentem um relaxamento profundo e algumas têm impulsos ainda mais estranhos como mandar mensagem pra ex amores. O que regula essas sensações é a concentração de álcool no sangue, que começa a ser alterada cerca de 20 minutos após a ingestão da bebida.

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Foto: Segredos do Balcão

Esses primeiros processos acontecem com a passagem da bebida no estômago e intestino delgado. Depois disso, o etanol precisa passar pelo fígado para ser metabolizado já que é no fígado que a mágica acontece.

Why’d you only call me when you’re high? – o metabolismo da cerveja no fígado

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No fígado, o etanol é recebido por duas famílias de enzimas: a álcool desidrogenase (ADH) e a aldeído desidrogenase (ALDH). A ADH catalisa a oxidação do álcool em acetaldeído. E, posteriormente, o acetaldeído é metabolizado por ALDH em acetato.

No entanto, essas duas reações precisam acontecer com uma grande coordenação devido ao acetaldeído, que é o grande vilão das nossas manhãs de domingo. O acúmulo desse composto no corpo leva a respostas aumentadas e também a reações bastante desagradáveis como rubor, náuseas, vômitos, hipotensão e taquicardia.

Chefia, amigão, desce mais uma rodada! – influências na absorção do álcool e embriaguez

A questão é que a condição do nosso corpo influencia (e muito!) na quantidade de álcool que vai levar a respostas tanto da embriaguez durante a ingestão, quanto à famosa ressaca no dia seguinte

  • Peso corporal

Esse é simples de explicar, não é? Duas pessoas com pesos corporais diferentes ingerindo as mesmas doses de álcool terão diferentes quantidades de sangue e, consequentemente, diferentes concentrações de álcool no sangue.

Esse fato aliado à distribuição da massa corporal – quantidades de gordura, músculos, massa óssea e líquidos – leva a diferenças mais proeminentes ainda. Pessoas com maior quantidade de gordura corporal ficam embriagadas mais rápido, por exemplo.

A questão é que o tecido adiposo não “recebe” o álcool. O etanol é um composto polar  – possui um polo negativo devido a presença do átomo de oxigênio –  e o tecido adiposo é formado lipídeos que são ésteres de ácidos carboxílicos com cadeias carbônicas longas e tem grande caráter apolar. Por isso, a interação entre a gordura e o álcool é tão pequena que chega ser desprezível

  • Gênero

Pois é, amiga. Não é impressão sua, você realmente fica “mais bêbada” que os rapazes da sua mesa.

Se doses iguais de álcool forem administradas a um homem e uma mulher de mesmo peso corporal, a mulher ficaria mais embriagada, ou seja, apresentará níveis alcoólicos mais elevados no sangue.

Esse fato é explicado pela maior proporção de tecido adiposo nas mulheres e por variações que acontecem durante o ciclo menstrual. Além disso, as mulheres têm uma menor concentração gástrica da ADH (álcool desidrogenase) que faz com que o corpo feminino demore mais tempo para converter o álcool em acetaldeído

  • Idade:

Essa já aconteceu comigo. Divido apartamento com uma menina mais jovem que eu. Saímos com nossos amigos no sábado e no domingo de manhã eu fui me arrastando pra cozinha em busca de um copo de água. Já a minha “roomate” estava feliz e maravilhosa preparando o seu café da manhã.

Isso acontece porque com o passar do tempo, as quantidades da enzima ALDH (aldeído desidrogenase) vão diminuindo gradativamente no nosso organismo. O que leva nosso corpo a demorar cada vez mais pra metabolizar o acetaldeído, fazendo com que os efeitos da ressaca demorem cada vez mais a passar.

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Foto: ornitorrinconerd

Chuva, suor e cerveja – como o álcool sai do nosso corpo

Com o passar das horas o corpo vai eliminando o álcool junto com outras excreções corporais, como a urina e o suor. Os efeitos da ressaca vão passando a medida que a enzima ALDH consegue converter o acetaldeído em acetato, menos tóxico ao nosso corpo.

Enquanto isso a ingestão de líquidos não alcoólicos (como água e sucos) é altamente recomendada para acentuar a excreção e tornar o efeito do acetaldeído menos devastador.

E eu recomendo fortemente desligar o celular ou entregá-lo a alguém de confiança quando o álcool começar a mostrar as garras, ok? Isso faz com que os efeitos da ressaca do dia seguinte apareçam como uma dor de cabeça ou um enjôo, sintomas mais simples de lidar do que as 11 ligações pros ex amores…

Referências:

  1. PADULA, Claudia B. et al. Gender effects in alcohol dependence: an fMRI pilot study examining affective processing.Alcoholism: Clinical and Experimental Research, v. 39, n. 2, p. 272-281, 2015.
  2. COLLINS, Allan C. et al. Variations in alcohol metabolism: influence of sex and age.Pharmacology Biochemistry and Behavior, v. 3, n. 6, p. 973-978, 1975.
  3. CARRIGAN, Matthew A. et al. Hominids adapted to metabolize ethanol long before human-directed fermentation.Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 112, n. 2, p. 458-463, 2015.

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