Dissertação explora a trajetória de Palmares e Zumbi através de quadrinhos

A História pode ser apreendida através de meios bastante diversos, compreendendo novelas, filmes, músicas, livros e revistas. Cada vez mais professoras e professores de História tem se atentado a isso e procuram trazer esse conhecimento prévio dos estudantes para a sala de aula.

Uma crítica frequente à produção histórica acadêmica é a pouca circulação dos seus resultados, ficando muitas vezes restrita entre os pares. Uma das causas apontadas é a linguagem e estrutura acadêmicas, que dificultariam a leitura para quem não é do meio.

Novos pesquisadores tem pensado nisso, e o blog Cientistas Feministas é uma iniciativa que procura divulgar tanto a História quanto os demais campos do conhecimento de forma mais acessível.

Um trabalho defendido em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) procurou inovar em seu formato: trata-se de uma dissertação totalmente feita em HQ (História em Quadrinhos).

Produzida por Vinícius Finger, o trabalho intitulado “Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” busca discutir as diversas narrativas históricas acerca do Quilombo de Palmaras e de Zumbi, seu líder. Dividida em cinco partes, a dissertação trabalha com a visão dos acontecimentos durante o período colonial, imperial e republicano, este último dividido nas partes Zumbi pós-abolição, Zumbi revolucionário e Zumbi eterno. Faz isso de uma forma bastante interessante: através das aulas que abordam tais assuntos durante esses períodos. Assim, discute também o sistema educacional brasileiro através do tempo.

No período colonial, percebe-se a presença de um discurso religioso bastante forte. Já no período imperial, a HQ mostra que a história de Zumbi era estudada como mais um obstáculo no processo de unificação nacional (FINGER, 2014, p. 53) e o bandeirante Domingos Jorge Velho, apresentado como um herói.

Em “Zumbi pós-abolição”, o autor representa uma sala de aula no Estado Novo de Getúlio Vargas, onde fica latente a incongruência entre um discurso que dizia que a escravidão no Brasil foi mais branda com a realidade da senzala.

No quarto período, chamado pelo autor de “Zumbi revolucionário”, o Brasil está na ditadura, e um professor universitário, vigiado pelos militares, encontra-se com uma aluna fora da sala de aula para explicar-lhe a versão ensinada nas escolas não condiz com o que foi a luta em Palmares:

Captura de tela de 2016-07-23 11:49:02

Imagem 01: professor explicando à aluna sobre Palmares. Fonte: FINGER, 2014, p. 91

No quinto período, “Zumbi eterno”, adolescentes assistem um filme sobre Zumbi, que desconstrói a primeira versão mostrada na dissertação – a colonial – em que Zumbi teria se matado para não se entregar. Depois do quinto período, o autor reproduziu cenas cotidianas do Brasil de hoje em que mostra como o país ainda continua racista:

Captura de tela de 2016-07-25 08:52:02

Imagem 02: cena racista atual representada na HQ. Fonte: FINGER, 2014, p. 134

“Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” é um trabalho acadêmico que inovou em seu formato. Pode ser usado em sala de aula para discutir com os alunos a forma como a História enquanto área do conhecimento é construída ao longo do tempo. A linguagem dos quadrinhos também pode atrair mais leitores e, assim, diminuir a distância entre o conhecimento produzido nas universidades e o público em geral.

Se você se interessou, a dissertação está disponível on-line aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s