Promíscuas, adúlteras e homossexuais: fêmeas primatas e o sexo live.

Mesmo no mundo  da ciência, onde supostamente somente os fatos são levados em cosideração e tudo deve ser visto sob uma perspectiva imparcial, é possível encontrar reflexos da cultura sexista ocidental nas análises de resultados e formulação de hipóteses, principalemente em estudos de comportamento de primatas não humanos, humanos e hominídeos. Esse viés sexista ficou por muito tempo ocultado atrás da imagem imaculada do pesquisador, mas felizmente perceptível, e Isso se deve ao empoderamento cada vez maior das mulheres na academia e ao avanço na igualdade de gêneros: uma nova perspectiva tem mudado interpretações que estavam há muito consolidada É importante contextualizar as descobertas científicas no momento histórico pois dessa forma é possível mais do que acusar pesquisadores, rever teorias que por vezes são consensos acadêmicos que estão bem estabelecidos inclusive para o público em geral. Uma dessas generalizações diz respeito ao comportamento de fêmeas e é de conhecimento geral, sendo usado para justificar e cobrar determinados comportamentos de mulheres. Esta hipótese prevê que as mulheres são recatadas e seletivas na escolha de parceiros enquanto os machos são “naturalmente” e, portanto, aceitavelmente promíscuos. Esse padrão comportamental esperado fica evidente em frases de cientistas conceituados, como a fala do pesquisador Craig Stanford e John Allen: “espera-se que fêmeas de primatas sejam passivas, objetos da competição masculina”. Contudo novos estudos vêm desmascarando esse mito para hominídeos, humanos modernos e outras espécies de primatas como sauim (Saguinuhs fuscicollis), lemur (Microcebus sp) e macacos-prego (Sapajus sp). Isso sem falar ainda do bonobo (Pan paniscus) que apresenta a sexualidade ativa com qualquer indivíduo do grupo e em diversos contextos sociais. Para o langus (Semnopithecus entellus) há inclusive descrição de comportamento ativo de apresentação da fêmea para um macho escolhido por ela, e perseguição de machos de grupos vizinhos. Mais surpreendente ainda, essas fêmeas apresentam este comportamento independente da fase do ciclo reprodutivo, podendo inclusive estar grávidas. Esse comportamento de promiscuidade e adultério pode ser evolutivamente vantajoso para a fêmea, pois esta poderia obter os benefícios genéticos ao copular com outros machos enquanto mantém o suporte do macho atual. Além das fêmeas primatas apresentarrem um comportamento sexual mais complexo e menos recatado, esse comportamento não é um padrão fixo, ou seja, não é determinado pela espécie. O comportamento sexual da fêmea apresenta-se em resposta às condições ambientais. Esta teoria tem sido cada vez mais aceita para hominídeos. Historicamente essa hipótese foi generalizada a partir do resultado de um experimento conduzido com moscas, (Drosophila melanogaster) de 1948, por Angus Bateman. Ele conclui que devido ao alto investimento da fêmea em poucos ovos, esta evolutivamente obteria mais vantagens em selecionar um macho e se manter fiel a ele enquanto um macho, virtualmente poderia fecundar ovos de inúmeras fêmeas. Nos dias atuais é fácil criticar essa generalização, pois não considera a complexidade da sociedade de diversos animais, como os primatas não humanos e humanos. Além disso, recentemente 2012 um trabalho refutou todo o experimento de Bateman, criticando fortemente a metodologia utilizada, que a luz conhecimentos atuais de genética encontra se obsoleto. É importante notar se que o trabalho de Bateman, em 1948, reafirmava o papel da mulher na sociedade, tornando facilmente aceitável uma generalização que seria no mínimo, ambiciosa. Esse viés também pode ser verificado em diversos trabalhos sobre comportamento de machos e fêmeas de primatas como pode ser verificado na deliciosa leitura do livro: A mulher invisível da antropóloga Page. Da mesma forma que o comportamento de engajar-se em relações sexuais com diversos parceiros machos, outra temática que também sofre com o viés cultural são as relações entre indivíduos do mesmo sexo, principalmente entre fêmeas. Estudos relatam a existência do comportamento sexual entre fêmeas de primatas para macacas japonesas (Macaca fuscata), macacos-rhesus (Macaca mulatta), langus (Semnopithecus entellus), bonobo (Pan paniscus) e gorilla (Gorilla gorilla). As hipóteses para o comportamento feminino homoafetivo são muitas, tais como facilitador de reconciliação, troca de favores para cuidados parentais, treinamento e as mais suportadas: manutenção de hierarquia e – pasme (ou não) – estímulo sexual. Para ler mais: Kirkpatrick RC. 2000. The evolution of human homosexual behavior. Current Anthropology. 41:385– 413. PMID: 10768881 Grueter C e Stoinski T. 2016. Homosexual behavior in female mountain gorillas: reflection of dominance, affiliation, reconciliation or arousal? Plos one Wimmer B. e Kapperler, PM. 2002. The effects of sexual selection and life history on the genetic structure of redfronted lemur, Eulemur fulvus rufus, groups. Animal Behaviour Gowaty, PA, Kim YK e Anderson WW. 2012. No evidence of sexual selection in a repetition of Bateman’s classic study of Drosophila melanogaster Proceedings for the National Academy of Sciences doi: 10.1073/pnas.1207851109 Page J. Soffer O. e Adovasio JM. O Sexo Invisível – O Verdadeiro Papel da Mulher na Pré-História Editora record http://www.slate.com/articles/health_and_science/science/2013/12/female_promiscuity_in_primates_when_do_women_have_multiple_partners.html

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