O que é Física? Ou melhor, será que isso importa (tanto)?

Quando uma física calcula a dosagem de radiação para um paciente com câncer isso é física ou medicina? Quando um físico descobre a estrutura do DNA, isso é física ou biologia? Quando uma física descobre as propriedades radioativa de um novo elemento isso é física ou é química? Quando um engenheiro descobre por acaso a radiação de micro-ondas de fundo isso é física ou engenharia?

A famigerada pergunta “O que é física?” costuma gerar debates acalorados. No entanto, a resposta a essa pergunta, além de complexa, tem mudado bastante nas últimas décadas. Nessa era da ciência interdisciplinar em que frequentemente nos deparamos com termos como física biológica, econofísica, sociofísica, física médica, física computacional e tantos outros, definir física apenas como a ciência que estuda as propriedades da matéria e energia parece demasiadamente simplista. Por outro lado, a definição preferida de muitos colegas – “Física é a ciência que estuda a natureza” – apesar de abrangente e empolgante, pode soar um pouco esnobe.

Sendo assim, em uma tentativa inovadora de responder a esta pergunta de maneira científica, a italiana Roberta Sinatra e seus colaboradores publicaram recentemente na Nature Physics [1] um estudo sistemático, baseado em uma ideia intrigante: “Física é o que físic@s fazem”.

Nesse estudo, a equipe de Sinatra desenvolveu um algoritmo que analisou mais de 42 milhões de artigos no Web of Science publicados entre 1900 e 2012 e suas referências. Desses artigos, 2,4 milhões foram publicados em uma das 242 revistas de física e considerados como o núcleo principal da área. Utilizando um estudo de redes (uma outra área super interdisciplinar!) onde os artigos são os nós e as citações são os links da rede, eles mostraram que 3,2 milhões de publicações fora do núcleo principal possuem as mesmas propriedades estatísticas das que pertecem ao núcleo. Ou seja, desconsiderando a revista onde foi publicado, um artigo qualquer destes 3,2 milhões pode ser tão influente sobre os artigos do núcleo quanto qualquer outro trabalho do próprio núcleo. Por isso estas pesquisas diretamente relacionadas ao núcleo principal foram consideradas como a região da fronteira entre a física e as outras áreas, e portanto foram chamadas de interdisciplinares.

Para garantir que esta região interdisciplinar é tão física quanto qualquer física, eles ressaltaram que entre estes 3,2 milhões de artigos da fronteira estão algumas publicações que deram origem a 6 prêmios Nobel de Física, entre elas o modelo de Hubbard para partículas interagentes de 1963 e o estudo das redes neurais de Hopfield de 1982, além de diversas outras pesquisas de grande impacto para a física.

Que tal, então, abrir um pouco as caixinhas rotuladas como Física, Matemática, Química, Biologia… e olhar para o que tem acontecido de incrivelmente interessante na interface dessas áreas?

Referência:

[1] Roberta Sinatra, Pierre Deville, Michael Szell, Dashun Wang, Albert-László Barabási. A century of physics, Nature Physics 11, 791-796 (2015).

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