Mulher de Letras: as primeiras publicações feministas no Brasil

Da imprensa feminina e feminista no século XIX

Antes de você começar a ler esse texto, quero propor um exercício: pense em algum jornalista. O primeiro que vem à sua cabeça! Rápido. Pensou? A chance de você ter pensando em mulher é muito grande e já vou te falar por quê.

É só ligar a televisão, ler alguma revista ou jornal para perceber que as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço no jornalismo brasileiro. Já em 1986, o Ministério do Trabalho registrou que as mulheres representavam cerca de 35% da categoria de jornalistas e, em 2006, esse número chegou a 54%. Um avanço? Claro. Mas, não deixa de ter ser problemas. É comum a mulher jornalista ser objetificada, ter sua opinião inferiorizada e ganhar salários menores (fato que acontece em muitas profissões, convenhamos). Apesar dos pesares, foi no jornalismo – propriamente na imprensa escrita – que a mulher começou a ganhar seu lugar ao Sol na sociedade brasileira; mesmo que, por vezes, de forma distorcida.

O surgimento do jornalismo no Brasil está atrelado à chegada da Família Real no país, tendo como marco o ano de 1808. Os primeiros jornais que se têm registro são o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro, de Hipólito da Costa, o Farol Paulistano, de José Costa Carvalho, e O Patriota, de Manuel Ferreira Araújo Guimarães.

Nesse período, o jornalismo era bem diferente dos modelos que conhecemos hoje: a opinião era o carro-chefe dos textos, sendo que pouca informação era passada à sociedade – ao invés disso, os jornais eram verdadeiros palanques políticos, defendendo interesses de seus editores ou do partido que representava. A linguagem utilizada era rebuscada com textos longos e, muitas vezes, se aproximava de contos literários.

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 O Jornal das Senhoras é considerado um dos pioneiros da imprensa feminista no Brasil

Apesar do tardio desenvolvimento da imprensa brasileira, Dulcília Buitoni, em seu livro “Mulher de Papel”, mostra que já no começo do século XIX surgiram alguns periódicos voltados para o público feminino, contrariando e desafiando o alto grau de analfabetismo existente no país. Para a pesquisadora, o primeiro jornal feminino seria O Espelho Diamantino, veiculado na cidade do Rio de Janeiro, em 1827; seguido do jornal também carioca Correio das Modas, em 1839 e O Espelho das Brasileiras, em 1831, no Recife. As folhas tiveram vida efêmera e se preocupavam basicamente com dois assuntos: moda e literatura. Além de serem recheadas com patriarcalismos morais.

Eugênia Melo Cabral, no seu texto “Primeiras Histórias – O surgimento das imprensas femininas e feministas no Brasil”, relata outras publicações de mulheres para mulheres. Fugindo da tradição do jornal, a Revista Feminina foi o primeiro gênero magazine no país. Era editada por Virgilina de Souza Salles, chegando a circular por 22 anos.

Nesse sentido, Buitoni nos esclarece quanto à imprensa feminina: ainda que as mulheres tentassem se estabelecer através das letras, haviam muitos entraves simbólicos que restringiam o papel da mulher diante da sociedade patriarcal brasileira. Por isso mesmo, que as publicações eram pautadas pela “moral e bons costumes”, tendo em vista sempre a questão do deve: como a mulher deve se vestir, como a mulher deve se comportar, o que a mulher deve ler, etc. A representação da mulher esteve atrelada ao universo da beleza e do entretenimento, tendo em evidência também a maneira de se portar uma “boa esposa e uma boa mãe”.

Outro jornal importante na história da imprensa feminina foi o Jornal das Senhoras, de 1852. As editoras responsáveis eram Cândida do Carmo Soares Menezes e Violante Ataliba Ximenes de Biar e Velasco. Eugênia Melo Cabral diz que foi Joana Paula Manso de Noronha que dirigiu a folha por mais tempo. Diferentemente das publicações anteriores, o Jornal das Senhoras não era voltado ao público feminino, mas sim, aos homens. A preocupação das editoras era mostram à classe masculina que nós, mulheres, não somos bonecas ou propriedade dos homens, além de reivindicar a imagem feminina como santa, e que deveriam ser educadas para serem boas mães. Sandra Lúcia Lopes Lima, destaca um trecho do Jornal das Senhoras:

para a maioria dos homens, o casamento era apenas um meio de satisfazer um dese- jo, um capricho, ou simplesmente mudar de estado. Ou assegurar a sua fortuna. Daí o homem poder dizer “minha mulher” com a mesma entonação de voz com que diz “meu cavalo, minhas botas, etc.,”, pois tudo são trastes de seu uso.

Infelizmente, o jornal acabou não atingindo o seu objetivo, sendo criticado por ambos os sexos. Até mesmo as editoras, tinham timidez na publicação de seus artigos, preferindo manter o anonimato.

Eugênia Melo Cabral fala sobre outros periódicos feministas no Brasil, como O Sexo Feminino (1875-1877), A Família (1889-1897) e o Quinze de Novembro do Sexo Feminino (1890-1896). É nesse momento que há uma mudança no textos, que passam a esclarecer às mulheres sobre a nossa condição na sociedade, além de falar sobre a subjugação do sexo feminino. A luta pelos direitos das mulheres dava seus primeiros passos, tímidos, é claro, mas seria o começo de algo que se ampliaria com o tempo. Claro que não devemos olhar o passado em função do presente, mas pesquisas como a de Buitoni e Cabral nos mostram como é possível refletir as práticas atuais, através da análise da trajetória histórica.

REFERÊNCIAS

BUITONI, Dulcília Schoeder. Mulher de Papel. São Paulo: Edições Loyola, 1981.

CABRAL, Eugênia Melo. Primeiras Histórias – O surgimento das imprensas femininas e feministas no Brasil. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/cabral-eugenia-primeiras-historias.pdf.

LOPES, Sandra Lúcia. Imprensa feminina, revista feminina. A imprensa feminina no Brasil. In: Revista Projeto História. N. 35. P. 221-240. São Paulo, dezembro de 2007.

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