BREVES COMENTÁRIOS ACERCA DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO BRASIL

Gabriela Soares Balestero

“A mulher é nossa propriedade e nós não somos propriedade dela […]. Ela é, pois, propriedade, tal qual a árvore frutífera é propriedade do jardineiro”. (NAPOLEÃO BONAPARTE)

 

O conceito de gênero, enquanto categoria sociológica consiste na maneira em que as diferenças entre homens e mulheres são inseridas nas mais diversas sociedades ao longo do processo histórico evolutivo, não estando relacionado às assimetrias biológicas existentes entre macho e fêmea, qualificadas por sexo, mas sim ao universo onde as inter-relações socioculturais são determinadas por fatores como leis, regras, simbologia e patriarcalismo.

O ser masculino, desde os primórdios, exerceu sua suposta superioridade e dominação sobre o sexo dito frágil, criando assim uma sociedade de face patriarcal e machista, onde as mulheres foram moldadas para assumir o papel fundamental de mães, reprodutoras, zelosas do lar, subordinadas à ideologia formulada por “eles”[1].

A violência de gênero se expressa e se reproduz culturalmente através de comportamentos irrefletidos, aprendidos histórica e socialmente, nas instituições como igreja, escola, família e Estado contribuem diretamente para a opressão masculina sobre a feminina.

Assim, apesar da igualdade de direitos entre os sexos estar reconhecida na Constituição de 1988, a experiência quotidiana registra ainda evidentes e inegáveis sinais de discriminação. O recente caso de estupro de uma menor no Estado do Rio de Janeiro por 33 homens comprovou a presença da violência e do machismo na sociedade brasileira.

No Brasil, o Mapa da Violência[2] demonstra em todas as idades quem é o principal agressor na vida da mulher, desde a infância até a velhice. Tendo por base atendimentos feitos pelo SUS, demonstra-se que em alguma fase da vida a mulher sofre violência. Até os 9 anos, vemos que os pais aparecem como agressores quase exclusivos, das mulheres na faixa dos 10 – 14 anos. Até 4 anos, destaca-se a mãe como principal agressora e a partir dos 10 do pai. Na fase adulta, dos 18 aos 29 anos o principal agressor é o marido, namorado ou ex companheiro. Após os 49 anos os filhos se tornam os principais agressores. Portanto, podemos afirmar que metade de todas as mulheres vítimas de homicídio é morta pelo marido ou parceiro, atual ou anterior.

Autores como Morgam, Bachofen e Engels, defendem a tese do matriarcado. Para eles a dominação do sexo feminino precedeu a dominação de classe. Para Marx a origem da dominação está no surgimento do poder, com a diferenciação das classes sociais. Simone de Beauvoir entende a subordinação feminina como uma condição natural, refutando a tese do matriarcado. Bourdieu defende a ideia de que a dominação masculina é aprendida pelo homem e absorvida pela mulher inconscientemente.

A sociedade, “naturalizando” comportamentos, ratifica essas ações através das repetições. O estudo dessas teorias é uma tentativa de se compreender o problema da dominação masculina em sua origem. No entanto, importante ressaltar que o homem, como um ser complexo e processual, não está preso a essa lógica determinista. Mas, para escapar desse sistema opressor, é necessário que se rompa com o universal e se adote uma visão emancipadora e mais ainda que seja mudada a mentalidade cultural machista presente na sociedade brasileira.

 

REFERÊNCIAS

 

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. A experiência vivida. Trad. de Sérgio Milliet. 2.ed. 1967.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. 3.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Coleção Memória e sociedade. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BUONICORE, Augusto. Engels e as origens da opressão da mulher. Disponível em: <http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=635&id_coluna=10&gt;. Acesso em: 24 set. 2013.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Trad. Ruth M. Klaus. 2.ed. São Paulo: Centauro, 2004.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2001.

Sites:

Unidade II: O que é gênero? Módulo I. A Evolução da Condição das Mulheres na Sociedade. In: Mais Mulheres no Poder – Contribuição à Formação Política das Mulheres – 2010/ Marlise Matos e Iáris Ramalho Cortês. Brasília: Presidência da República, Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010. Disponível em: <http://www.spm.gov.br/publicacoes-teste/publicacoes/2010/Contribuicao%20a%20formacao%20politica%20das%20mulheres.pdf&gt;. Acesso em: 17 out. 2013.

 

Mapa da violência 2012. Disponível em: <chegadeestuprosro.files.wordpress.com/2013/03/mapadaviolencia2012_atual_mulheres.pdf>. Acesso em: 12 de agosto de 2013.

[1] Unidade II: O que é gênero? Módulo I. A Evolução da Condição das Mulheres na Sociedade. In: Mais Mulheres no Poder – Contribuição à Formação Política das Mulheres – 2010/ Marlise Matos e Iáris Ramalho Cortês. Brasília: Presidência da República, Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010. Disponível em: <http://www.spm.gov.br/publicacoes-teste/publicacoes/2010/Contribuicao%20a%20formacao%20politica%20das%20mulheres.pdf&gt;. Acesso em: 17 out. 2013.

[2] Cf. Mapa da violência 2012. Disponível em: <chegadeestuprosro.files.wordpress.com/2013/03/mapadaviolencia2012_atual_mulheres.pdf>. Acesso em: 12 de agosto de 2013.

 

Imagem: http://www.unilab.edu.br/noticias/2015/07/20/debate-sobre-campanha-chega-de-violencia-de-genero-acontece-no-dia-23-de-julho-no-ceara-com-transmissao-para-a-bahia/

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