Gluten-free ou não gluten-free: eis a questão?

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Diz o ditado que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. De nutricionista então, nem se fala… todo mundo conhece ou já fez alguma “dietinha” que é infalível para os mais diferentes tipos de problema. As chamadas “dietas da moda” se tornaram ainda mais populares com as redes sociais e blogs, e normalmente se caracterizam pela restrição de um alimento ou grupos de alimentos específicos. Nos últimos anos, a dieta sem-glúten (ou gluten-free) se tornou sinônimo de alimentação saudável. Mas, como toda alimentação restritiva, é muito questionada pelos profissionais. Então, será que o gluten-free é mais saudável mesmo?

O glúten é uma proteína que está presente nos cereais trigo, aveia, centeio, cevada e malte, e em todos os seus produtos, como pães, bolos, biscoitos e macarrão. Para a maioria das pessoas, o glúten é bem metabolizado, mas para indivíduos com doença celíaca, é extremamente prejudicial. A doença celíaca é uma desordem sistêmica autoimune caracterizada pela inflamação crônica da mucosa do intestino delgado que pode resultar na atrofia das vilosidades intestinais, com consequente má absorção intestinal, e sintomas como diarreia, dor abdominal, vômitos, perda ou excesso de peso, atraso no crescimento e osteoporose. Nos últimos anos tem-se discutido a existência de uma condição chamada de sensibilidade ao glúten não celíaca, em que o indivíduo apresenta as vilosidades intestinais intactas, mas com sinais de inflamação. Entretanto, muitos pesquisadores acreditam que esta condição pode se relacionar a outros componentes alimentares, e não somente ao glúten. Para se confirmar estas condições, além da historia clinica, são necessários exames de sangue e de histologia para confirmação.

No começo deste mês, a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) publicou uma revisão e seu posicionamento sobre as dietas sem glúten para esclarecer os riscos e as indicações desse padrão alimentar. Conclusões: não existem evidências de que a dieta sem-glúten beneficie indivíduos saudáveis, podendo inclusive alterar negativamente a microbiota intestinal desses indivíduos; a dieta sem glúten pode ser saudável, desde que os alimentos processados sejam evitados e se garanta a ingestão de grãos integrais e vegetais; a sensibilidade ao glúten pode ser confundida com sensibilidade a outros itens alimentares; e a dieta sem glúten não garante por si só a perda de peso, uma vez que mesmo indivíduos celíacos com sobrepeso também apresentam dificuldade para manter o peso saudável. Trocando em miúdos: a alimentação deve ser individualizada e variada, e principalmente com o mínimo de alimentos industrializados e sem excesso de pães e massas. Na correria do dia-a-dia, facilmente substituímos um belo prato de comida por um lanchinho rápido. O indivíduo que se propõem a excluir o glúten da alimentação evita muitos alimentos processados e a base de farinha, e os substitui por mais frutas, verduras e castanhas, por exemplo. E essa mudança sim é responsável por muitos benefícios. Vale ressaltar que atualmente existem muitas opções de alimentos sem glúten (um mercado que cresceu mais de 30% nos últimos anos – os celíacos agradecem!). Entretanto as opções sem glúten podem conter mais calorias, açúcar e sódio, e devem ser consumidos com cautela e sob orientação.

Portanto, o equilíbrio deve ser a palavra chave. Dietas restritivas, a não ser quando bem indicadas, tendem a não atingir o objetivo e se tornarem difíceis de manter. Mais do que condenar um único alimento, é necessário repensar a maneira de nos alimentarmos, procurando os alimentos na sua forma mais pura e natural, ao invés de uma lista de ingredientes numa embalagem colorida.

Fontes:

http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/doenca-celiaca/

Pantaleão et al. Brazilian Society for Food and Nutrition position statement: gluten-free diet. Nutrire 2016:5. DOI: 10.1186/s41110-016-0005-y

Imagem: bbc.com

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2 comentários sobre “Gluten-free ou não gluten-free: eis a questão?

  1. Só para completar, a aveia por si não contém glúten em sua composição, mas muitas vezes é processada em máquinas que também processam o trigo. Portanto, ela pode conter o glúten por “contaminação”. O ideal é sempre ler os rótulos e procurar os produtos mais in natura possível.

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  2. Pingback: Trigo sem glúten é possível? Estamos chegando lá | cientistasfeministas

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