Impacto do zika vírus na vida das mulheres

Provavelmente trazido ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 o zika vírus só teve os seus primeiros casos reportados pelos médicos brasileiros em fevereiro de 2015. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 7.000 pacientes com sintomas característicos de zika vírus foram notificados entre fevereiro e abril de 2015, principalmente, na região Nordeste do país. Mas somente em outubro foi percebido o aumento significativo no número de crianças nascidas com microcefalia, bem como sua possível associação com a infecção por zika vírus. Em 1º de fevereiro de 2016 a OMS reconheceu a associação entre zika vírus e microcefalia como Emergência em Saúde Pública de Interesse Internacional.

As dificuldades presentes no Brasil que permitem que doenças transmitidas por mosquitos vetores continuem se espalhando se deve a falta de ações de controle adequadas e à vigilância epidemiológica deficiente. Além disso, a construção das cidades brasileiras aconteceu de forma acelerada e sem planejamento, levando a uma alta concentração de pessoas em grandes metrópoles, falta de saneamento básico e água tratada, culminando em rios poluídos que, na verdade, são esgotos a céu aberto. Além disso, no Brasil, ainda contamos com falta de informação à população. Todos esses fatores em conjunto são empecilhos para o controle dos mosquitos e inevitavelmente resultam no aumento da transmissão de doenças.

28_November_2015_AFonte: World Health Organization (WHO)

Segundo relatório da OMS publicado em 9 de maio de 2016 com atualizações sobre  zika vírus e sua associação com microcefalia, disponível aqui, são 1.551 casos confirmados de microcefalia associadas ao zika vírus no Brasil, sendo destes, 1.373 ocorridos na região Nordeste do País e os outros 178 distribuídos pelas regiões Sudeste, Norte, Centro-Oeste e Sul.  E é no Nordeste, uma das regiões mais pobres do Brasil, que a microcefalia foi percebida e ganhou destaque como importante epidemia. Doenças infecciosas transmitidas por mosquitos são mais comuns em locais pobres e negligenciados. Então, é provável que a maioria das mães que tiveram filhos com microcefalia sejam pobres ou carentes e não tenham condições de prover os cuidados e tratamentos necessários a essas crianças. O que nos leva a questionar quais serão as consequências dessa doença e qual seu impacto na vida das mulheres pobres.

É importante ressaltar que no Brasil sofremos com uma enorme desigualdade de classes sociais e, portanto, a população mais rica tem mais acesso a recursos de saúde do que a população mais pobre. Mulheres com maior poder aquisitivo realizam procedimentos obstétricos, como exames de pré-natal e fazem o acompanhamento de toda sua gravidez de forma mais prática e efetiva pelo simples fato de poderem pagar por isso. Já as mulheres pobres não conseguem realizar exames com tanta facilidade, pois além da falta de informação, ainda contam com um serviço de saúde pública precário e sucateado.

Desse modo, mulheres com maior poder aquisitivo descobrem precocemente se seus bebês possuem algum problema de saúde ainda nos primeiros meses da gravidez e podem decidir se querem abortar ou não, pois apesar de ser proibido no Brasil, o aborto é rotineiramente realizado em clínicas particulares de forma segura, o que não acontece com as mulheres pobres que acabam realizando o aborto clandestinamente, podendo acarretar sua morte. Segundo esse estudo, 1 em cada 5 mulheres brasileiras com mais de 40 anos já realizaram 1 ou mais abortos e destas 55% ficaram internadas por causa do procedimento.

A grande questão é: as mulheres devem ser obrigadas a terem filhos com microcefalia sem ter o mínimo de condições para dar o suporte que essa criança precisa?

Não obstante a todo sofrimento causado pela microcefalia toda a responsabilidade, inclusive a que cabe ao poder público, foi transferida às mulheres. Em nota oficial o governo divulgou o seguinte comunicado: “A melhor forma de evitar microcefalia é evitar engravidar”.

Se as políticas de saúde pública no Brasil não se tornarem mais efetivas e começarem a visar a real saúde da população mais carente, principalmente das mulheres, veremos um aumento na mortalidade de mulheres que realizam abortos clandestinos devido à epidemia de microcefalia. Pois a zika possui o potencial de se tornar uma doença endêmica no país, assim como a dengue, doença que causou 1,5 milhão de casos no ano de 2015.

Mais textos sobre o assunto:

http://blogs.plos.org/globalhealth/2016/02/zika-reproductive-rights-health/

Anúncios

3 comentários sobre “Impacto do zika vírus na vida das mulheres

  1. Pingback: A nossa dor não sai no jornal: Mulheres Negras e Zika vírus, um ano depois | cientistasfeministas

  2. Pingback: A nossa dor não sai no jornal: mulheres negras e zika vírus - SPW - Português

  3. Pingback: “Eu estava aqui o tempo todo e só você não viu”: Quando velhos remédios tratam novas doenças | cientistasfeministas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s