Assédio, o teto de vidro da academia

O silêncio institucional brasileiro na contramão do século 21

No ano em que as feministas dominaram e revolucionaram as redes sociais, um assunto continua tabu: o assédio na academia. De consequências devastadoras para as vítimas – de transtornos psiquiátricos ao suicídio – o tema raramente é abordado no ambiente acadêmico ou fora dele. Falar sobre o assunto significa questionar o status quo das posições de poder e colocar o dedo na ferida das sombrias estruturas da universidade.

Ciberativismo
O ano de 2015 entrou para a história do movimento feminista brasileiro. Chamada por muitos de “a primavera feminista”, o movimento gerou debates, criou “hashtags”, discutiu polêmicas e permitiu denúncias. As redes sociais foram as ferramentas encontradas pelas feministas para falar sobre a rotina de ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal. A primeira campanha de impacto foi a “Chega de fiu-fiu”, da página feminista Think Olga, criada em 2013 para combater o assédio sexual em espaços públicos. Fez tanto sucesso que gerou uma pesquisa online sobre a percepção das mulheres em relação às cantadas de rua. Foram quase 8 mil participantes, das quais 98% relataram já ter sofrido assédio na rua e 33% no trabalho. Dessas, 13% receberam cantadas de um superior, 21% de um colega e 9% de outros funcionários. Em 2015 a página lançou a hashtag “primeiro assédio” após comentários sexualizando uma participante de 12 anos em um programa de televisão. A ideia era relatar a primeira vez em que sofreram assédio e totalizou mais de 82 mil entradas. A surpresa ficou por conta da idade das vítimas quando da primeira agressão, em torno dos 9 anos para muitas delas. Logo em seguida a tag “meu amigo secreto” emplacou, onde mulheres falaram sobre práticas machistas de seus cotidianos, muitas vezes aceitas como comportamentos normais pela sociedade.

A palavra assédio remete, imediatamente, a casos ligados à violência física e sexual. No entanto, outro tipo de assédio também ocorre, o assédio moral. Esse tipo de assédio é aquele que coloca sua vítima em situações vexatórias e humilhantes. Quatro comportamentos bastante comuns, mas limitadores, estão diretamente relacionados a essas situações de assédio: o “manterrupting”, o “bropriating”, o “mansplaining” e o “gaslighting”. A primeira significa “homens que interrompem” e é comum em reuniões e palestras, onde um ou mais homens presentes constantemente impedem que uma mulher conclua sua fala. Já a segunda se refere à apropriação, por homens, de ideias previamente apresentadas por mulheres. A terceira, “homens que explicam”, desmerece o conhecimento da mulher, tira sua confiança e autoridade sobre o que fala. Pode tanto servir para explicar de maneira condescendente coisas óbvias, que já são de conhecimento da mulher, como para afirmar que ela está errada a respeito de algo sobre o qual ela está certa e/ou é de sua área de domínio. Por último, e mais grave, o “gaslighting” é a manipulação psicológica, que leva a mulher a acreditar que está enlouquecendo ou que é mentalmente incapaz.

Um dos primeiros estudos sobre assédio a mulheres no mercado de trabalho foi realizado em 1979 por Peggy Crull, pelo Working Women’s Institute. Ele revelou que 63% das vítimas que sofreram assédio sexual exibiram sintomas físicos e 96% apresentaram sintomas de estresse emocional. Entretanto, há relatos históricos que falam de casos em 1908, mas é possível que os casos sejam tão antigos quanto a inserção da mulher no mercado de trabalho. Os pesquisadores Eros DeSouza e Joseph Solberg, em um levantamento sobre assédio nas universidades em 2003, relatam que há consenso entre os pesquisadores sobre as dificuldades em definir assédio e uma metodologia eficiente para levantamento de dados. Além disso, parte das vítimas falham em reconhecer a experiência vivida como tal, mesmo que seja recorrente. Mas também existe consenso de que sintomas físicos e psicológicos se manifestarão, acarretando em prejuízo sociais e profissionais.

O assédio sexual, ao contrário do senso comum, não se limita apenas a casos de violência física e estupro. Ele pode ocorrer por meio de cantadas, contato físico indesejado, piadas machistas e insinuações de caráter sexualizado. Para a psicóloga e doutoranda em psicologia forense Arielle Sagrillo Scarpati, nos dois tipos de assédio o objetivo do agressor é a limitação do espaço e da atuação de sua vítima, atentando contra sua integridade psíquica e/ou física. “Ambos se manifestam de maneira verbal e podem, ou não, vir a evoluir para uma agressão física. Importante destacar, ainda, que as duas formas de assédio podem acontecer de maneira concomitante”, afirma a psicóloga. Completa dizendo que “as agressões levam as vítimas a um estado de silenciamento, com restrição de suas condutas não apenas no ambiente acadêmico, mas também fora dele. A literatura indica o surgimento de quadros diversos, como anorexia e bulimia, ansiedade, transtornos de pânico e sono, depressão, dores crônicas, distúrbios gastrointestinais, problemas com a própria sexualidade e sentimentos de culpa”. A professora, antropóloga e pesquisadora de violência de gênero Hilda Maria Gaspar Pereira afirma que casos mais graves, como estupro e violência física, podem levar ao Transtorno de estresse pós-traumático e até mesmo a pensamentos suicidas, danando gravemente todos os aspectos da vida das vítimas. A advogada especialista em Direito Digital Gisele Truzzi – colaboradora jurídica do Think Olga e sócia-proprietária de Truzzi Advogados – lembra que conforme a definição legal do crime de assédio sexual (artigo 216-A, do Código Penal), é possível configurar o assédio na relação professor-aluna, pois há certa superioridade no tratamento e as medidas legais são cabíveis nesses casos.

Para além dos dados
Em conversas informais com estudantes universitários é possível observar que o comportamento assediador é normalizado. Todo aluno tem uma história para contar, mas nem todos têm a percepção do assédio cometido, pois acreditam que “é assim que funciona”.

A bióloga Simone* diz que sempre sonhou em ser pesquisadora, mas que o assédio moral sofrido durante os anos da graduação e do mestrado foram determinantes para que ela abandonasse a ideia. “Inicialmente, na graduação, a frequência era baixa e foi aumentando ao longo do mestrado, chegando ao ponto de acontecer toda vez que falava com ela”, explica. Ela conta que o local de assédio preferido era a sala de sua ex-orientadora, local isolado e onde sentia-se confortável para desmoralizar seus alunos. “Ela chegou a pedir que eu atualizasse seu currículo Lattes e digitalizasse seus certificados”. Além do trauma e repúdio ao universo acadêmico, Simone diz que nunca conseguiu publicar seus artigos pelas más lembranças geradas. “O simples fato de fazer esse relato me deixa acuada e acelera meus batimentos cardíacos, me sinto mal”, confessa.

Amanda*, também bióloga, conta que foi assediada sexualmente por um professor durante um semestre inteiro da graduação. Ela conta que esse professor há muitos anos já era conhecido por dirigir olhares desejosos a suas alunas sem qualquer constrangimento. Algumas poucas alunas de cada turma eram escolhidas e se tornavam alvo constante de suas investidas. Apesar de idoso e de aparência amigável, a fama era merecida. “Além dos olhares, eram frequentes os comentários de caráter sexual, feitos na frente de todos da turma”, relata. Certa vez, quando precisava repor uma aula, Amanda conta que ele a chamou de irresponsável e que não era obrigado a ajudar, mas que, ao final da aula, sugeriu que poderia ajudá-la dependendo do que ela fizesse em troca. “Não pude aproveitar a disciplina, pois tinha asco do professor e era custoso estar no mesmo ambiente que ele”.
Para as duas, além da humilhação sofrida, o sentimento era de indignação, insegurança e revolta com a situação. Embora contando com o apoio de amigos e colegas, nenhuma denúncia foi feita por medo das repercussões acadêmicas. No caso de Amanda, colegas de departamento do professor que a assediou já sabiam desse comportamento, mas preferiram manter silêncio. Nenhum deles se prontificou a ajudá-la ou estimulou-a a fazer uma denúncia. Já Simone conta que teve o apoio até mesmo do coordenador de seu curso de pós-graduação, mas que não houve qualquer abertura para uma denúncia. A advogada Gisele acredita que parece não haver vontade das universidades em investigar os casos, tamanha a burocracia e insistência para que não sejam levados adiante, muitas vezes sob ameaças. A falta de apoio faz as vítimas desistirem da denúncia. A professora Hilda concorda, “as universidades se preocupam com os danos à sua imagem e há tentativas de culpabilizar a vítima”. Para a advogada Gisele, as mulheres devem procurar apoio em coletivos feministas dentro das universidades e registrar ocorrência na Delegacia de Defesa da Mulher, principalmente em casos de estupro.

Além do silêncio institucional quando há tentativa de abordar o tema, existe uma lacuna de políticas institucionais contra assédio. Pouco se pesquisa e pouco se fala, refletindo na ausência dessas políticas. Isso passa a ideia de que o problema não existe, e, portanto, não precisa ser combatido. As universidades brasileiras estão na contramão das principais universidades do mundo, onde já existem manuais de conduta e comissões internas para investigação e julgamento de denúncias.
Em uma coisa todas concordam: apesar das dificuldades, as vítimas não podem se calar e as testemunhas, se existirem, devem apoiá-las durante o processo. “Cada mulher vivencia a violência de uma maneira e é necessário que haja acolhimento e compreensão, dando legitimidade ao seu relato”, conclui a psicóloga Arielle.

*Os nomes das entrevistadas foram trocados e dos assediadores omitidos para a segurança e privacidade das vítimas.

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