As mulheres na ditadura civil-militar brasileira

Como já foi teorizado por várias historiadoras – e mesmo aqui no blog -, a história das mulheres costuma ser ignorada pelos livros de história e ciências humanas. A história que é vista como “geral”, frequentemente, conta, apenas, a história dos homens, colocando a história das mulheres como “específica”.

Ora, as mulheres são metade da população mundial. As questões de homens são vistas como se fossem questões “gerais” por causa do poder instituído masculino. Na nossa sociedade capitalista (e em outros modos de produção também, mas esse não é o objeto desse texto), os lugares de poder são ocupados por homens que o exercem para satisfazer as vontades e necessidades de homens.

Isso porque, historicamente, foi reservado às mulheres o espaço doméstico/privado. Às mulheres é imposto o papel social de mães, esposas e donas de casa, que devem cuidar do marido, dos filhos e dos idosos. Mesmo hoje – que se diz que as mulheres “conquistaram o mundo do trabalho” (o que é falacioso, já que as mulheres pobres precisam trabalhar há séculos para complementar a renda familiar) -, as responsabilidades domésticas continuam nas mãos das delas. Já aos homens é destinado o espaço público, a política, a voz, o poder.

Nesse sentido, é importante recuperar a história das mulheres para mostrar que elas sempre estiveram presentes como atrizes sociais e não apenas como “apêndices” dos homens. Michelle Perrot, uma historiadora francesa, por exemplo, dedicou-se a contar a história dos excluídos e das excluídas da história. Ela é uma grande teórica que merece ser visitada (no final do texto serão indicadas obras dessa historiadora para leitura).

 

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Imagem retirada do site: https://goo.gl/vmiJkA

 

Após essa breve introdução, falaremos, então, sobre a importância do papel das mulheres durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Muitas brasileiras estiveram na linha de frente na luta contra a ditadura, como Amelinha Telles, Iara Iavelberg, Conceição Imaculada de Oliveira, etc.

Inclusive, o movimento feminista organizado no Brasil foi desenvolvido de maneira particular, se comparado ao desenvolvimento em outros países. Ele nasceu junto aos movimentos de esquerda na luta contra a ditadura. As mulheres, além de lutar contra o regime de exceção, começaram a apontar o machismo dentro dos movimentos de esquerda ortodoxos, lutando para que os homens do movimento passassem a “desnaturalizar” práticas sexistas que prejudicavam a luta revolucionária.

Nesse sentido, importante destacar que todos e todas militantes de esquerda, identificados como “comunistas” de maneira pejorativa pelo governo militar, sofreram intensas perseguições e punições. Mas também é importante destacar que as mulheres sofreram um tipo de tortura específico.

São numerosos os relatos de mulheres que sofreram torturas através da violência sexual. Elas foram obrigadas a ficar nuas diante de vários homens, que ficavam lhes dirigindo ofensas machistas (já que as mulheres de esquerda militantes políticas eram vistas como desviantes do padrão moral burguês). Além disso, inúmeras foram estupradas, algumas abortaram em sessões de tortura (levavam chutes na barriga e choques na vagina), muitas foram torturadas na frente de seus filhos para traumatizar as crianças, etc.

 

“Maria Amélia estava amarrada na cadeira do dragão, quando o torturador Lourival Gaeta, o “Mangabeira” começou a masturbar-se na sua frente. Ao gozar, jogou o sêmem em cima de seu corpo. “Não gosto de falar sobre isso, mas sei da importância de tratar desse assunto, da desigualdade entre homens e mulheres na hora da tortura. Eles usaram da desigualdade para nos torturar mais”, disse, sob forte emoção, Maria Amélia de Almeida Teles. Ela relatou o abuso sexual que sofreu na abertura da audiência pública “Verdade e gênero- a violência da ditadura contra as mulheres”, ocorrida na segunda-feira, 25, organizada pela Comissão Nacional da Verdade e Comissão Estadual da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”.”
(fonte: http://www.adrianodiogo.com.br/noticias/internas/id/1885/comissoes-da-verdade-debatem-violencia-da-ditadura-contra-as-mulheres/)

 

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Imagem da militante feminista Amelinha Teles, retirada do site: http://goo.gl/38D2ES

 

Por outro lado, também houve uma explosão no número de organização de mulheres nos bairros periféricos. Essas mulheres organizadas começavam a se reunir incentivadas pela igreja católica para discutir o evangelho e fazer tricô. Com o tempo passaram a debater os problemas da comunidade e cobrar soluções como a construção de creches, asfaltamento de vias públicas etc.

Foi um importante passo para a organização dessas mulheres da periferia, em sua maioria negras, que tinham suas demandas ignoradas tanto pelo governo quanto pelos movimentos de esquerda, já que muitas não trabalhavam como assalariadas (mas trabalhavam em suas casas).

A experiência das mulheres da periferia e das mulheres operárias organizadas no período da ditadura é narrada por Elizabeth Souza-Lobo, que fez várias pesquisas na época das greves do ABC nos anos 70 e 80. Ela mostra como as trabalhadoras não se sentiam contempladas pela luta dita como “geral” liderada pelos homens. Os sindicatos não ouviam suas demandas e não se importavam com as denúncias de violências sexistas e menores salários pagos às mulheres.

 

“(…) a própria utilização do termo específico, cada vez que se quer referir a questões que concernem às mulheres, supõe uma universalidade neutra que se opõe à especificidade feminina.”
(SOUZA-LOBO, 2011, p. 256)

 

Portanto, é sempre necessário trazer luz a essas experiências das mulheres, que, raramente, são contadas e, mais raramente ainda, são ouvidas. Mulheres revolucionárias estão lutando para ter seu espaço há muito tempo, precisamos relembrá-las sempre que possível para que cada vez mais mulheres possam se inspirar nelas e ingressar na luta anticapitalista e antipatriarcal.

 

Bibliografia e livros sugeridos:

CORDEIRO, Janaina Martins. Direitas em movimento: A campanha da mulher pela democracia e a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.

LOBO, Elizabeth Souza. A classe operária tem dois sexos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2011.

PERROT, Michelle. Os Excluídos da História: Operários, Mulheres e Prisioneiros. 2010, São Paulo: Paz e Terra.

_______. Minha história das mulheres. 2007, São Paulo: Editora Contexto.

_______. As mulheres ou os silêncios da história. 2005, Bauru: EDUSC.

RAGO, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade. in História das mulheres no Brasil. Mary Del Priore (org). São Paulo: Editora Contexto, 2013.

TELES, Amelinha; LEITE, Rosalina Santa Cruz. Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós luta armada no Brasil (1975-1980). São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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